domingo, 29 de janeiro de 2017

O passado não perdoa

  "Manchester by the Sea", a terceira longa-metragem de Kenneth Lonergan (2016), é um filme que não se identifica com o comum cinema americano porque trata do quotidiano sem afirmar a superioridade de ninguém, antes trabalha a tristeza, a impotência e o fracasso.
  Com argumento do próprio realizador, o filme acompanha Lee Chandler/Casey Afflec, um pobre porteiro de Boston, a grande cidade onde apesar de tudo vive uma vida de lugares-comuns, até à pequena terra do Massachussets com o nome do título onde, após a morte do seu irmão, Joe Chandler/Kyle Chandler, lhe foi por este deixado o encargo de tratar do sobrinho Patrick/Ben O'Brien.
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   Uma vez aceite, a viagem torna-se motivo para as recordações que àquela terra ligavam o protagonista, e aí percebemos bem quanto de amargura e sofrimento o acompanhou enquanto ali viveu: o que deixou para trás, nomeadamente em termos de tragédia e sofrimento - havia um terceiro irmão -, como não lhe restava grande alternativa senão partir dali tal como não lhe resta outra solução, pese embora o esboço de um final aberto, que recusar o encargo que lhe foi cometido no presente.
   É uma vida de impasses que se torna pesadelo que leva Lee a progressivamente tomar consciência de que também aquele novo papel que lhe é destinado não está ao seu alcance cumprir. E é a reflexão sobre a incapacidade, a falta de condições pessoais que leva o protagonista a reconhecer não reunir condições para tal. 
                    
   O filme passa muito pela interpretação de Casey Afflec, pela fotografia de Jody Lee Lipes, a música de Lesley Barber (embora um tanto excessiva), a montagem de Jennifer Lame, actores sempre certos e bem dirigidos e sobretudo a realização equilibrada e justa que compõe planos e sequências separados bem definidos. De tal forma que há neste "Manchester by the Sea", nos seus cerrados flash-backs estruturais que tecem um passado que explica o presente alguma coisa que nos repele no seu percurso doloroso, desesperado.
   Estamos habituados pela produção hollywoodiana a ser confrontados com heróis positivos, másculos e dinâmicos, que se afirmam virilmente nas situações mais complicadas de que saem vitoriosos. Ora este filme, virilidade incluída dá-nos uma vida de doloroso fracasso existencial a que já não estamos habituados no cinema. Aí o filme de Kenneth Lonergan faz mancha, estabelece o contraste e afirma o seu espaço próprio ao fazer lembrar "Magnolia", de Paul Thomas Anderson (1999) sem o mosaico de personagens e narrativo.
    Ao escavar sempre no mesmo sentido realizador e actor oferecem-nos um filme que por uma vez vale por aquilo que é e não pelo que quer parecer. A felicidade só existe mesmo no cinema. "Manchester by the Sea" é um filme triste em que Lee Chandler me faz lembrar os iludidos e fracassados do filme negro, o género típico em que eles existiram - como John Cassavetes em "Contrato para Matar"/"The Killers", de Don Siegel (1964), a partir de conto de Ernest Hemingway que já motivara "Assassinos"/"The Killers", de Robert Siokmak (1946): para ele, para eles, embora esperem sozinhos no mesmo sítio o passado não perdoa.  

sábado, 28 de janeiro de 2017

A Série B

    Foi uma expressão cinematográfica tida no seu tempo como menor, em que trabalharam grandes artífices do cinema e foram feitos grandes filmes que de menores nada tinham.
    Iniciada com a criação da B companies como a Republic e a Monogram, começou por produzir filmes que passavam como segundos em sessões de que os primeiros eram da Série A, filmes de bom orçamento e com stars produzidos pelas majors e minors criadas em modelo definitivo no final dos anos 20 do Século XX, o que significa no final do cinema mudo - não vou contar aqui a história toda das B companies porque é longa e complicada.
    Ao especializarem-se em géneros populares, as companhias B apostavam no baixo orçamento, na utilização do mesmo espaço cenográfico para diferentes filmes, na manutenção da mesma equipa técnica e artística para vários filmes, o que significa que tinham uma ambição artística menor, compatível com o seu comparativamente menor poder económico.
   Aí se estrearam no cinema actores, técnicos e realizadores que ou nunca ascenderam às produções A ou então o fizeram depois de aí terem adquirido capacidades e experiência. O que aqui me vai interessar é o caso daqueles que ficaram por mais tempo, quando não sempre na Série B e dela fizeram um modelo maior do cinema americano, marcado pela escassez de meios e pelo génio dos que nela trabalharam.
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     Visto da perspectiva dos realizadores, houve grandes mestres da Série B entre os anos 30 e 60 do Século XX, aos quais se ficaram a dever grandes filmes de género e estilos pessoais de trabalho. Dou alguns exemplos. Allan Dwan, Edgar G. Ulmer, Andre De Toth, Rudolph Maté (antes conhecido director de fotografia) e Gerd Oswald em diferentes géneros, Jacques Tourneur a partir do filme de terror, Donald Siegel, Samuel Fuller, Joseph H. Lewis, Robert Siodmak e Anthony Mann (este nos anos 40) a partir do filme negro, Kurt Neumann, Christian Nyby, George Pal, Byron Haskin, Jack Arnold na ficção científica, Budd Boetticher a partir do western. Mas a Republic produziu também três filmes de John Ford.
    Claro que houve muitos outros mas estes contam-se entre aqueles cujos nomes ficaram e permanecem a assinalar estilos pessoais numa época e num modelo que a eles não eram propícios. Mas com a ideia de que a Série B americana é um vasto campo de cineastas e filmes que permanece por explorar pelos próprios historiadores americanos do cinema: Phil Karlson, Gordon Douglas, Ted Post, Richard Fleischer já no pós-guerra.
     Tratando-se de filmes de baixo orçamento, as futuras vedetas por lá passavam no início ou a ela regressavam por força de contratos, embora tivessem existido técnicos e actores que nela, como os produtores e realizadores, permaneceram toda a vida. E nos anos 30 e 40, a sua época áurea, o preto e branco era de rigor e ficava especialmente bem no filme negro ao ponto de, influência expressionista incluída, dele se ter tornado indissociável. Isto embora deva deixar claro que muitos filmes da Série B eram desde o início realmente muito maus, ao ponto de um cineasta como Gordon Douglas, que trabalhava no cinema desde os anos 30, só se ter nela destacado a partir dos anos 50 - na década de 60 chegou a realizar três filmes policiais com Frank Sinatra.
    O sentido desta minha recordação, que é também uma homenagem, é despertar a vossa atenção para os primeiros e primariamente esquecidos de Hollywood que, contudo, contribuíram decisivamente para a afirmação total desta em todos os domínios da produção cinematográfica numa época em que a produção média foi decisiva. Em filmes aparentemente feitos para os menos instruídos foram possíveis coisas a nível narrativo e de realização que não eram tratadas da mesma maneira nos "responsáveis" filmes de maior orçamento.
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    Num tempo em que Hollywood declinava já, no final dos anos 50 do Século XX, pude começar a acompanhá-los numa altura em que estes filmes passavam geralmente em "salas populares" ou "cinemas de bairro", de frequência menos burguesa e de lugares mais incómodos. E aí pude começar a ter o quadro deste "continente desconhecido" extremamente valioso do cinema desse tempo.  
    O princípio era simples: despachar uma história e um filme no menor tempo possível com a maior economia de meios. Compreende-se que com estas condições o trabalho fosse mais rude e menos acabado mas era também mais límpido, directo e despojado do que não fosse indispensável. Não havia tempo a perder, não havia dinheiro para gastar, e isso era favorável à adopção de estilos elípticos e a abreviações concentradas.
    Quando estavam em moda as superproduções com que as majors tentavam contrariar a crise suscitada pelo aparecimentos da televisão, eu quase não dava por essa crise ao continuar a ver os filmes da Série B. E nunca foram feitos filmes de terror como os de Jacques Tourneur, que também praticou com brio o western, nem filmes negros como os de Siegel, Fuller, Joseph H. Lewis (salvo "They Live By Night", de Nicholas Ray), nem westerns como os de Budd Boetticher, o primeiro dos quais mereceu um estudo de referência de André Bazin.
   Além do mais, eram filmes mais curtos, que só raramente chegavam a hora e meia, o que os tornavam pedaços de cinema muito apetecíveis. E devo notar que as séries televisivas da mesma época deviam muito à influência do cinema, nomeadamente da Série B, por exemplo "Naked City" que passou em Portugal, e ainda não era utilizado o vídeo na sua produção.
                                             
     Nos anos 50 tinha surgido a American International Pictures de Roger Corman e com ela, em filmes realizados por outros ou por ele próprio em regra já a cores a Série B teve seu último fôlego tanto mais relevante quanto em filmes seus se iniciou gente tão importante no futuro como Francis Ford Coppola ou Martin Scorsese. A obra-prima de Corman como realizador terá sido, além das adaptações de contos de Edgar Allan Poe e mais do que elas, "Massacre em Chicago"/"The St. Valentine's Day Massacre" (1967).
    É muito por causa da enorme qualidade cinematográfica da Série B e da curta duração da maioria dos seus filmes que eu me torço todo quando me aparecem filmes dos actuais grandes nomes de Hollywood com cerca de três horas, quando se percebe que tudo aquilo poderia ser feito com muito maior economia de meios. E fico com a ideia de que são os próprios americanos que não querem lembrar a sua Série B.
    Contaminados por ela, surgiram nos anos 50 filmes históricos, ditos "peplum" na linha do cinema mudo, e filmes de terror, ditos "giallo" italianos, e foi a partir desse modelo que veio a ser elaborado a partir da década seguinte o "spaghetti western" que Sergio Leone fez dilatar.
    Depois disso, foi sobretudo no filme de terror que a Série B ou o seu espírito se manteve, em cineastas como George A. Romero, John Carpenter, Joe Dante e Wes Craven. Um ou outro caso fora desse género não bastam para a impôr em termos contemporâneos, em que um ou outro cineasta nela, Série B, se moveu. Salvo o caso do cinema novo de Hong-Kong que, entre o policial e o filme de gangsters se moveu em termos de Série B e tem a sua principal figura actual em Johnnie To. E recordo que os filmes de artes marciais participavam ainda antes disso do mesmo modelo.
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    Os meus leitores que são cultos e modernos dir-me-ão que os tempos de hoje, com revolução digital e tudo, são melhores que os da velha Série B, mas lembrem-se que só poderão dizê-lo com conhecimento de causa se conhecerem esses pequenos filmes sem importância, que eu gostaria de pessoalmente apresentar a quem estivesse interessado, o que até agora nunca pude fazer. 
    Sobre o assunto não foi publicado nada desde "Photogénie de la série B", de Charles Tesson (Paris: Cahiers du Cinéma, 1997), sobretudo valioso pela iconografia que inclui. E recordo aqui o Manuel Cintra Ferreira (1942-2010), crítico de cinema sagaz e grande conhecedor do cinema americano e da Série B que durante anos programou sistematicamente na Cinemateca Portuguesa - lembro-me da última vez que o vi à saída da Cinemateca, com os livros debaixo do braço e a pôr o seu boné na cabeça, e espero que lhe seja prestada a homenagem que merece com a publicação dos seus textos sapientes escritos para aquela casa.    

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Breve história do cinema

   Quando era muito novo comecei a escrever uma "história do cinema" com base naquilo que dele conhecia, que era muito pouco. Não passei da fase de tentar escrever porque me deparei logo no cinema mudo com obstáculos intransponíveis: como falar de e avaliar em termos relativos Griffith e Stroheim, Chaplin e Keaton, Eisenstein e Dreyer, Lang e Hitchcock, Murnau e Jean Renoir.
   É lembrando-me dessa tentativa inevitavelmente fracassada que vou criar aqui uma secção com este título em que tentarei tratar dos assuntos que me interessam hoje na história do cinema mas também enfrentarei deliberadamente as minhas antigas perplexidades. Não vai ser uma história do cinema formal e por extenso, pois não descerei ao pormenor embora exemplifique sempre, nem seguirei uma ordem cronológica mas a que resultar das questões que me forem surgindo.
  Não se tratará de dar lições a ninguém e muito menos se pretenderá um manual. Serão apontamentos pessoais, como notas e reflexões breves ao correr da pena, e estarei sempre disponível para escrever sobre os assuntos que me forem propostos pelos meus leitores. Além da utilidade pessoal espero poder dar a minha resposta a algumas questões não dilucidadas da história desta tecnologia, arte e espectáculo, nascida no final do Século XIX, o que poderá ser de interesse alargado.
   A secção não terá uma periodicidade regular nem um número certo de entradas por mês. E não me espantará que, com aquilo que hoje sei e aquilo que continuo a desconhecer venha a enveredar por caminhos inesperados que a mim próprio me surpreendam. Cruzarei sempre com as outras artes e formas de expressão, com a história social, económica e política, com a história da arte e da cultura e com a filosofia. Se não existir de outro modo, e espero que exista, a poética estará pelo menos nas relações estabelecidas.
   Não identificadas como tal no título, as entradas desta secção serão facilmente reconhecíveis. Espero que gostem.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Discutir hoje

   O documentário "Vida Activa: O Espírito de Hannah Arendt"/"Vita Activa: The Spirit of Hannah Arendt", de Ada Ushpiz (2015), tem o mérito especial de trazer para a actualidade o pensamento da grande escritora judaica e de contar a sua vida sem fazer o seu panegírico antes expondo-os, pensamento e história, ao debate e à crítica.
   O pensamento de Arendt sobre o totalitarismo e sobre o mal mantém neste momento toda a sua força persuasiva, num momento em que ideias de extrema direita abrem de novo caminho um pouco por todo o mundo. Trazer-nos imagens da vida dela, de si própria e dos grandes acontecimentos, das grandes convulsões mundiais de que foi contemporânea e sobre as quais escreveu, a gravação de entrevistas dela, a leitura de excertos da sua correspondência com Martin Heidegger e Karl Jaspers e de livros seus e a discussão actual do seu pensamento é mais do que muito, é muito bom e está muito bem feito em pouco mais de duas horas.
   Só com imagens de arquivo, com gravações fílmicas de propaganda sobre o gueto de Varsóvia, com a questão dos conselhos judaicos, imagens da Alemanha e da ascensão do nazismo, depois dos campos de concentração e da libertação, mais tarde do julgamento de Eichman, é todo um programa político e também filosófico que o filme de Ada Ushpiz cumpre, expondo Arendt mas também Heidegger à discussão.
   A discussão sobre o grande filósofo de "Ser e Tempo" está bem resolvida com a defesa do carácter politicamente motivado pelo apoio e suporte do nazismo naquilo que ele escreveu. A história da vida de Arendt está bem contada com apoio em documentos, embora muito centrada no julgamento de Eichmann que deu origem aos seus escritos mais polémicos, que ela em entrevista explica, com gravações desse julgamento em Israel mas também dos de Nuremberga.
                                    
     As noções por ela avançadas e discutidas de vítima e de culpado, as suas propostas alternativas para o comportamento dos alemães durante o nazismo, quando esteve ela própria presa, a sua crítica das ideologias, a necessidade de saber sempre tudo o que acontece à nossa volta, o conceito de "banalidade do mal" no exacto sentido, explicado por ela, em que o utilizou em relação a Eichman - cuidado com os ignorantes e os estúpidos - continuam a interessar-nos.
      Eu sei que não vos agradará sair do conforto da vossa vida conformista para verem este filme nem para lerem Arendt, mas mesmo assim aconselho as duas coisas, e que leiam também Heidegger e Jaspers. Aquilo a que assistimos hoje, da crise dos refugiados à ascenção de ideias que, sob outras formas e nomes exalam o cheiro pestilento do passado, repete exactamente o que sucedeu na Europa no imediato pós-Guerra Mundial de 1914-1918.
    De facto, o que agora vemos não é só o predomínio de um populismo inócuo, pois historicamente o que começou como tal evoluiu para aquilo que continha já em germe, que envolvia racismo, discriminação por uma raça dita superior de uma nação dita superior, e volta a ser extremamente perigoso e ameaçador. Temos a resposta na história que este filme exemplarmente nos conta ao discutir Hannah Arendt.
     Sobre Heidegger aconselho em português "Arte e Técnica em Heidegger", de Irene Borges-Duarte (Lisboa: Documenta, 2014), um trabalho brilhante de uma académica prestigiada. Para seguirem o debate americano vejam aqui
www.nytimes.com/
      Talvez que a repetição, a "segunda vez" não seja tão risível como não se têm cansado de nos dizer. Acordem enquanto é tempo para depois não virem dizer que afinal não era aquilo que queriam. Enquanto Jean Gabin continua a suplicar a Michèle Morgan "Embrasse-moi... Embrasse-moi vite vite" no final de "Cais das Brumas"/"Quai des brumes" de Marcel Carné (1938).

A morte do rei

   No seu muito aguardado "A Morte de Luís XIV"/"La mort de Louis XIV" (2016), o catalão Albert Serra constrói um admirável filme histórico, cinematográfico, teatral e pictórico sobre os últimos dias do rei que quase escapa às categorias deleuzianas de monumental ou de antiquário - está do lado deste quase sem se notar.
  Com filmagens em locais belíssimos, este filme assume uma exploração cinematográfica parcelar de espaços e figuras, com especial relevo para o grande-plano e com uma iluminação que deixa recortada uma escassa porção visível do plano, rigorosamente definida.
                      La Mort de Louis XIV
   A escuridão que assim rodeia o rei na sua câmara funerária antecipada torna mais salientes cada uma das personagens, cada palavra e entoação, cada movimento ou atitude ainda que escassamente esboçados. O plano fixo e longo define uma perspectiva temporal e um ritmo pausado, atento que convida à contemplação.
   Depois das ainda galantes conversas iniciais de LuÍs XIV, assistimos aos esforços dos médicos, às palavras do rei para o seu sucessor e à sua determinação sobre o futuro do seu coração (ao lado do do seu pai e antecessor), à progressiva degradação do seu estado de saúde até ser atingido pela gangrena numa perna. Depois, numa sequência longa e belíssima sem disso nos darmos conta assistimos ao seu último suspiro, de que tomamos conhecimento com os presentes no seu quarto pelo anúncio clínico: "Le Roi est mort".
   Neste filme fúnebre em que o corpo, em especial o do rei assume pleno relevo e que acaba com a exposição das vísceras reais tudo passa pela parte visível de cada actor, normalmente o rosto, em cada momento, pela expressão e pelas escassas palavras. Sem outros ruídos e com muitíssimo escassa música diegética, "A Morte de Luís XIV" de Albert Serra é um excelente filme, com a exigência a que ele já nos habituou - "Honra de Cavalaria"/"Honor de cavalleria" (2006), "O Canto dos Pássaros"/"El cant dels ocells" (2008), "El Senyor ha fet en mi meravelles" (2011) e "História da Minha Morte"/"Història de la meva mort" (2013).
                     The Death of Louis XIV
   Com argumento de Thierry Lounas e de Albert Serra, fotografia de Jonathan  Ricquebourg, Jean-Pierre Léaud com uma interpretação invulgar e memorável centrada no rosto e todos os actores, entre os quais José Wallenstein e Filipe Duarte, perfeitos, pela produção deste filme é responsável a francesa Capricci, que eu acho que devem conhecer e encontram aqui
www.capricci.fr/
    Este filme deve ser ligado com "A Tomada do Poder por Luís XIV"/"La prise du pouvoir par Louis XIV", de Roberto Rossellini, com que o cineasta em 1966 iniciou o seu trabalho final para a televisão. E será uma bela dupla de vida e morte do mítico Rei Sol.
    A retrospectiva instalações que está até 29 de Janeiro no Palácio Pombal, no Bairro Alto, com curadoria de Alexandre Melo, dá uma outra medida do grande talento de Albert Serra e da diversidade das suas manifestações - atenção em especial a "Singularity" (2015), que passa simultaneamente em cinco ecrãs diferentes - com uma especial atenção ao corpo como dimensão fulcral - "Da humanidade à matéria, da matéria à máquina". Juntamente com a retrospectiva que a Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema com "carta branca" lhe dedicou, podemos ter uma perspectiva completa sobre o grande cineasta e artista catalão de quem não consegui ver a performance.
    Abstinência total de rigor para palhaços portugueses do "ir de encontro" e "ter a haver".

domingo, 22 de janeiro de 2017

Apresentação

     Com maior disponibilidade de tempo do que anteriormente, tenho neste momento a possibilidade física de escrever por regra segundo uma metodologia diferente da que adoptei em Some like it cool, voltada para o caso, o filme concreto embora aberta a questões mais gerais.
       Posso agora dedicar-me sistematicamente a questões mais gerais do cinema e das outras artes como princípio, sem abdicar de escrever sobre casos, filmes, exposições, espectáculos concretos sempre que me apetecer. E poderei escrever sobre qualquer assunto das ciências sociais e humanas, de história da arte, da literatura, da cultura, enveredar pela escrita memorialista ou sobre o quotidiano, adoptar os modos e os modelos de escrita que quiser. Abrirei também uma secção "breve história do cinema," com assuntos avulsos que me interessarem especialmente, o que explicarei oportunamente. 
       Esta a diferença de modelo que este meu novo blog introduz. Estarei agora mais à vontade para escrever o que quiser, como quiser, quando quiser.  Também estarei receptivo a propostas de temas ou sugestão de questões ou objectos concretos que os meus leitores gostariam que aqui tratasse, o que eu na medida das minhas possibilidades satisfarei.
      Poderão passado pouco seguir o rasto das pegadas aqui deixadas para perceberem que conduzem ao mesmo indivíduo da impressão digital deixada no blog anterior. Agora vamos ver como isto vai correr, pois o meu objectivo não é escrever muitas entradas sucessivas mas melhorar em qualidade, em exigência pessoal.
        Previno desde já que aqui não serão feitas remissões deste blog para o anterior, de Some like it hot para Some like it cool. Tratarei de escolher questões que me interessam independentemente da sua actualidade e com a única pertinência de serem questões que me interessam. E o recurso a imagens será muito menor. As selecções de filmes e livros do ano não devem prosseguir porque a preocupação de acompanhar a actualidade, embora ela justifique por vezes a nossa atenção, deixará de ser prioritária .