segunda-feira, 22 de maio de 2017

As imagens hoje

    As imagens em todos os suportes e em todos os ecrãs adquiriram hoje em dia uma tal difusão e importância que cada uma invade sem problemas os espaços que a outras estava anteriormente dedicado.
   Resultado da condição tecnológica da imagem, artesanal, técnica ou digital, mais que a uma hibridação a situação actual leva a uma invasão de territórios e à consequente confusão. Não falo das simples evoluções de suporte, como o vídeo ou o dvd, mas daquilo que se passa com e por força da internet
    Tecnologia hoje em dia banalizada, ela apresenta evidentes vantagens, como a visita gratuita aos principais museus do mundo ou a difusão gratuita de obras de referência do cinema de outro modo inacessíveis. 
    Dou-vos a minha situação numa noite comum da semana passada: sentado diante da televisão, em que no Arte passava um filme que não me interessava sobremaneira, enquanto no computador tinha um filme que não tinha visto, "O Clube de Dallas"/"Dallas Buyers Club", de Jean-Marc Vallée (2013), oscarizado e tudo. Ao mesmo tempo lia um livro no meu sofá.   
                       Tilda Swinton and Jake Gyllenhall'Okja' photocall,
      Pergunto: nesta situação de excesso, a que dava eu mais atenção? Ao livro, evidentemente, embora muito grato a quem me permitia o acesso aos filmes.
       Contudo, o problema não surge só quando a visita on-line é paga mas sobretudo quando a rede se apresenta como exclusiva. Estou a falar do netflix, como é evidente, o problema que se discute neste momento, nomeadamente em Cannes.
       Compreendo as boas intenções que levam Tilda Swinton. a dizer que "há espaço espaço para todos" mas quando os filmes são exclusivo do netflix estão a apoucar o cinema quando são feitos para cinema e estão a privar-se e a privar-nos do contacto do cinema em sala ou mesmo em dvd.
       Eu que continuo a ir todas as semanas ao cinema não sou contra o cinema na internet, sou contra o cinema só na internet. Há filmes para cinema, filmes para a televisão, filmes para a internet e filmes de cinema ou séries televisivas para a internet. Pelo menos o autor do filme, o realizador, deve poder escolher o meio de difusão a utilizar.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Bom começo

   Jordan Peele, mais conhecido como actor cómico, resolveu ele também afoitar-se à realização em "Foge"/"Get Out" (2017) que, com argumento seu, é um surpeendente bom primeiro filme.
   Preenchendo os requisitos do filme de terror, tem uma realização tensa e precisa, que varia apropriadamente o seu ponto de vista por forma a acompanhar com a maior secura as tribulações de um jovem negro, Chris Washington/Daniel Kaluuya, durante o fim de semana em casa dos pais da namorada branca, Rose Armitage/Allison Williams.
   Os pais desta, Missy/Catherine Keener e Dean Armitage/Bradley Whitford, são suficientemente assustadores nos seus actos (o hipnotismo) e nas suas palavras para porem o protagonista se sobreaviso quanto às suas intenções, mas tarde demais no decurso da festa anual da família com os seus amigos, em que avulta Andrew Logan King/Lakeith Stanfield, também negro que acompanha uma branca mais velha.
  Com todos os conjurados na casa e redondezas, os empregados Georgina/Betty Gabriel e Walter/Marcus Henderson encarnam o projecto e o que espera Chris. Mas parte importante do interesse do filme passa pelos diálogos não-convencionais a que há que estar atento.
                     get-out2
    Chris safa-se no último instante porque tem um amigo que lhe ficara em casa com o cão, Rod Williams/LilRel Howery. Mas o percurso até aí chegar, repleto de pequenos episódios muito bem tratados, com suspense, está muito bem descrito e definido.
    A referência a "Adivinha Quem Vem Jantar"/"Guess Who's Coming to Dinner", de Stanley Kramer (1967), o clássico "bem comportado" sobre o problema racial americano, figura para ser completamente dinamitada. Os tempos são outros e é preciso desmontar os clichés sobre ele construídos.
   Percebe-se uma certa ingenuidade conceptual e a vontade de fazer de acordo com o gosto dominante, mas "Foge" é um filme de género bem esgalhado que funciona muito bem, com subtexto racial incluído, como primeira obra. Atenção a Jordan Peele mas também ao produtor Jason Blum.
   Com a vantagem de não se alongar excessivamente, é um primeiro filme promissor que não se deve perder.
   Visto na mesma semana em que o Arte (quem senão ele...) mostrou uma preciosidade muda, "Within Our Gates" de Oskar Micheaux, argumentista, produtor e ralizador negro (1919), um dos primeiros filmes americanos interpretados por actores negros e uma réplica a "O Nascimento de Uma Nação"/"The Birth of A Nation" de David W. Griffith (1915) que causou escândalo na época (por causa da violência).   

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Entre dois o terceiro

   Houve um tempo em que a discussão do melhor cineasta de sempre passou pelos nomes de Fritz Lang e Alfred Hitchcock. Colocada nestes termos, que estão longe de ser errados, a questão é de resposta duvidosa e difícil.
    De facto, ambos começaram no tempo do cinema mudo e ambos foram para os Estados Unidos durante os anos 30 por razões diferentes e aí receberam consagração internacional. Quer um quer o outro excederam-se em qualidade cinematográfica, um com a ideia do suspense, o outro com a imposição de uma perspectiva ética.
   Grandes directores de actores, Hitchcock e Lang construíram filme a filme obras poderosas, fascinantes e superiores - e esta perspectiva da obra no seu todo é aqui fundamental -, de modo a tornarem-se e torná-los, aos filmes, parte integrante e maior da história do cinema - quem não os conhecer não pode dizer que conhece bem o cinema.
   Ambos enfrentaram também os tempos da II Guerra Mundial e os seus dilemas, as suas personagens sórdidas e grandiosas, sem complacência e agarrando de frente os seus pontos de fractura histórica - Hitchcock em "Correspondente de Guerra"/"Foreing Correspondente", "Sabotagem"/"Saboteur" e "A Corda"/"The Rope", Lang em "Feras Homanas"/"Man Hunt", "Os carrascos também morrem/"Hangmen Also Die", com a participação de Bertolt Brecht, e "Guerrilheiros nas Filipinas"/"American Guerrilla in the Philippines".  
                      http://www.tasteofcinema.com/wp-content/uploads/2013/12/french-cancan.jpg               
    Mas Fritz Lang tinha ocupado um lugar central no expressionismo alemão nos anos 20, pelo que talvez seja ainda hoje mais conhecido, enquanto nessa época Hitchcock se limitava a iniciar e experimentar a sua temática e o seu estilo que haviam de lhe dar um lugar único e superior no cinema. No final das suas vidas ambos regressaram às origens, Lang para o díptico indiano e "O Diabólico Dr. Mabuse"/"Die 1000 Augen des Dr. Mabuse", Hitchcock para "Frenzy".
    Há assim um notório equilíbrio no trabalho cinematográfico de ambos que os torna ainda mais comparáveis. Mas no seu tempo trabalhou também o francês Jean Renoir, como eles com inícios no cinema no tempo do mudo, que como eles foi para a América durante II Guerra Mundial e como eles regressou às origens nos anos finais, na década de 50.
    Com a sua visão carnal e psicológica, que acolheu a cultura francesa que herdou do seu pai, o pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir, possuídor de um universo pessoal muito próprio em que as mulheres sempre ocuparam lugar central e em que os homens surgiam como dominados ("La chienne", com remake de Fritz Lang em "Almas Perveersas"/"Scarlett Street"), como iguais ("A Regra do Jogo"/"La règle du jeu") ou como dominantes ("French Cancan"), na sua sabedoria imensa e na sua estética superior que desde o início do sonoro antecipou pelo menos a "profundidade de campo", entre os dois maiores Jean Renoir é a minha terceira escolha como melhor cineasta de sempre.
     Fritz Lang dizia que ele se adaptara mal em Hollywood por falar mal inglês mas o certo é que o que ele fez antes - "Madame Bovary", "Toni", "O Crime do Sr. Lange"/"Le crime de Monsieur Lange", "Passeio ao campo"/"Partie de campagne" sobre Maupassant, "Les bas fonds" a partir de Gorki, "A  Grande Ilusão"/"La grande illusion", "A Fera Humana"/"La bête humaine" a partir de Zola - e depois da sua estadia americana - "O Rio Sagrado"/"The River", "A Comédia e a Vida"/"Le carrosse d'or", "Helena e os Homens"/"Elena et les hommes", "O Testamento do Médico e do Monstro"/"Le testament do docteur Cordelier", "Le déjeuner sur l'herbe", "O Cabo de Guerra"/"Le caporal épinglé" - justifica amplamente o título do melhor cineasta de sempre. Ninguém como ele viu a vida, o mundo e o cinema do seu tempo como ele, que foi também dos cineastas mais influentes no futuro - Truffaut e Chabrol em especial, entre mutos outros que ecoaram "A Grande Ilusão" e "A Regra do Jogo".
    Ao ascetismo de Robert Bresson, tão amado por tantos e que admiro, sempre com Claude Chabrol preferi a sua sensualidade e o seu humanismo profundo, que não dispensava o humor e a ironia franceses, sem peias de qualquer espécie. Nunca houve nem haverá outro cineasta como ele. Nem John Ford? Nem ele. Nem Orson Welles? Nem ele. Nem Kenji Mizoguchi? Bem, aí talvez...

domingo, 14 de maio de 2017

Fim de semana alucinante

   Num fim de semana alucinante, a vitória de Portugal no Festival da Eurovisão, merecida na voz e na presença de Salvador Sobral, é um acontecimento importante mas menor.
   De facto, a visita a Fátima do Papa Francisco, personalidade maior da actualidade, por motivo canónico, trouxe sobre o país uma atenção especial que incrementa o seu bom nome em termos internacionais. Na sua simplicidade e nas suas palavras francas e abertas, na sua presença Bergoglio trouxe-nos luz a todos a partir de Fátima.
   Por sua vez, a tomada de posse do novo Presidente da República de França, Emmanuel Macron, trouxe ventos de mudança e novas esperanças para o seu país, a Europa e o mundo num momento muito difícil. Ficamos todos à espera de que cumpra as suas promessas numa eleição vencida sem ambiguidade nem alternativa.
                      http://www.promipool.de/var/promipool/storage/images/media/images/salvador-sobral/3774161-1-ger-DE/salvador-sobral.jpg
     Num fim de semana em que acabaram os grandes campeonatos europeus de futebol, que não me interessam, a vitória de Portugal no Festival da Eurovisão é um mero episódio que mesmo assim atrai sobre o país as atenções gerais pelas melhores razões, pois a canção vencedora, "Amar pelos dois", não desmerece da tradição da balada portuguesa e era a única a concurso que não cedia à imposição de um modelo internacional anónimo e indiferente no seu espectáculo.
   Sou pelo Papa Francisco e por Emmanuel Macron como figuras fulcrais em termos internacionais, portadoras de palavras de verdade e de esperança. Quanto ao canto-cantor português felicito-o por ter imposto uma verdade local em termos artísticos contra os estereótipos tidos como "modernos": foi contemporâneo nos termos de Agamben, que vêm de Nietzsche, de ser "extemporâneo".
     O mundo começou a mudar, como tantas vezes tem acontecido, vamos a ver se para melhor. Amanhã é outro dia em que o papel da segurança pessoal continua a ser fundamental. "O primeiro dia do resto das nossas vidas", como cantava no seu tempo o Sérgio Godinho. E Portugal está decididamente na moda pelas melhores razões.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Uma referência literária e ética

    Armando Baptista-Bastos (1934-2017) foi em tudo aquilo que escreveu e fez uma referência ética desde os anos 50, a fase final do Estado Novo.
    Grande senhor da escrita literária e jornalística - e o jornalismo deu uma característica singular e superior à sua escrita -, esteve onde foi preciso estar no combate ao fascismo, que muito claramente o perseguiu e prejudicou. 
    Também esteve na escrita sobre cinema, como cinéfilo que era, na polémica do tempo. Destaco aqui "O Filme e o Realismo" (Lisboa. Arcádia, 1962), um livro esclarecido e bem informado, também revelador de bom gosto. Mas destaco sobretudo a sua participação intelectual e física, criativa, em "Belarmino", de Fernando Lopes (1964), filme seminal do cinema novo português.
                       https://dasculturas.files.wordpress.com/2014/06/baptistabastos2013.jpg?w=545
   Amigo fiel e leal dos seus amigos, honra lhe seja, e adversário temível em polémicas históricas - foi além de um grande escritor e jornalista um grande polemista -, ocupou um lugar que não pode ser esquecido, porque memorável na cultura portuguesa.
   Tornado personagem controversa com a sua chegada à televisão, em que já só esporadicamente o acompanhei, permanece para mim no momento muito triste do seu passamento um homem corajoso, íntegro e vertical naquilo que fez e escreveu. E na escrita foi um grande estilista da língua portuguesa, na esteira de Ramalho, Eça e Aquilino.
   Portugal, onde nasceu, passou por ele e ele permaneceu parte indeclinável sua. Depois de de Dinis Machado e Herberto Helder, é uma personalidade fundametal da cultura portuguesa da segunda metade do século XX que se vai. Aqui lhe presto a minha respeitosa e sentida  homenagem.
    

sábado, 6 de maio de 2017

O explorador

    Sinto-me feliz por ter podido assistir ao mais recente filme de James Gray, "A Cidade Perdida de Z"/"The Lost City of Z" (2016), pois trata-se de mais um daquele que considero o melhor cineasta americano da actualidade.
    A narrativa verídica de um inglês, Percy Fawcett/Charlie Hunnam, que no início do século XX por três vezes, a última acompanhado pelo seu filho mais velho, Jack/Tom Holland, parte para a Amazónia, na fronteira entre a Bolívia e o Brasil, primeiro para cartografar fronteiras por incumbência da Sociedade de Geografia Britânica, depois para encontrar uma cidade mítica e desconhecida a que chamou Z, tem os motivos de interesse que o vulgar filme de aventuras não tem.
   Mas é o próprio trabalho fílmico de James Gray que neste filme me interessa, com uma planificação rigorosa sobre as personagens que plano a plano reúne e separa, aproxima e afasta segundo regras tipicamente cinematográficas. Contra a rigidez da sociedade inglesa, a grande aventura no desconhecido impõe-se ao protagonista como um projecto conradiano num continente diferente. 
                     The Lost City Of Z
     Quer em termos espaciais - no interior do grupo de exploradores, no cerco pelos indígenas - quer em termos temporais - o entrecortar das expedições pelo regresso a Inglaterra, com os novos filhos do casal e a passagem pela frente da Guerra Mundial - "A Cidade Perdida de Oz" de James Gray está muito bem trabalhado e resolvido até ao fim. Com produção e argumento do cineasta baseado em livro de David Green, o filme explica o que é explicável sem se dispensar de deixar a sua parte ao mistério. 
     Sienna Miller como Nina Fawcett e um irreconhecível Robert Pattinson como Henry Costin dão excelente réplica num filme que vale por uma mise en scène segura, leve e cerrada, revelando influências da banda desenhada. A fotografia de Darius Khondji é muito boa e a música de Christopher Spelman sempre justa, enquanto a reconstituição de época está sempre certa, com os exteriores da selva e do rio rodados na Colômbia.
    Ter compreendido a originalidade e a precedência das culturas que encontrou foi fundamental para este explorador pioneiro da Amazónia, ao ponto de aí ter resolvido, quanto se sabe, ficar. E lembro que por esta época Robert Flaherty trabalhava ele também de forma pioneira na Baía do Hudson para o seu pioneiro documentário "Nannok of the North" (1922), um filme cheio de peripécias que o tornaram muito difícil de concluir.
    Claro que a este seu melhor nível o cinema americano continua a ser muito bom. O seu problema actual é, contra o que acontecia na "era dourada" dos estúdios, salvo esporadicamente nos géneros ter uma produção média muito fraca. Agora anuncia-se para breve o mais recente filme de Terrence Malick, "Música a Música"/"Song to Song" (2017), que será de novo do melhor do cinema americano.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A miséria do mundo

  O Arte mostrou no início desta semana "I Pay for Your Story" (2017), o último filme do documentarista de origem polaca Lech Kowalski, um filme precedido de referências críticas muito elogiosas. 
  Rodado em Utica, a 4H 30M de carro a norte de New York, onde cresceu, é um documento impressionante sobre gente marginalizada numa sociedade deprimida. Com a promessa de lhes pagar por contarem para a câmara a sua história, o cineasta mostra e ouve neste documentário uma série de gente que vive entre o desemprego, a violência, as drogas duras (consumo e tráfico) e estadias sucessivas na prisão. De ambos os sexos e na sua maioria afro-americanos .
   Impõem-se nesses depoimentos as comparações com o que a cidade foi 30 anos antes, quando era um centro industrial, e o espírito de resistência de quem afirma hoje sobreviver e lutar por uma vida melhor para os seus filhos sem ter desistido da sua própria vida. Com um jeito descontraído, sem mostrar o interior das habitações mas permitindo a evocação dos estabelecimentos locais outrora mais famosos, o realizador reúne cada grupo familiar ou de amigos para os ouvir, um de cada vez. 
                   
     A imagem de "terra da grande promessa" que temos da América sofre aqui um forte desmentido com o apresentar de uma sua outra face, nada apelativa e muito deprimente. Que no país tido por o mais rico do mundo gente viva daquela maneira naquele meio é um choque para que o filme nos convida e a que devemos submeter-nos.
    Não se trata do simples trabalhador vítima de uma crise profunda, mas de quem não encontrou um lugar que seja seu numa sociedade que seja sua. Alguns lutam ainda por ele, embora se perceba que manter o "sonho americano" naquelas condições seja muito difícil. Mas a reacção mostrada, de não desistir, não baixar os braços nem se deixar abater, é exemplar.
    Um lado de improviso e uma grande empatia fazem deste documentário interactivo, em que no final o cineasta fala sobre si próprio, uma obra preciosa e muito esclarecedora. É urgente conhecer esta outra face do sonho. É urgente conhecer estes desconhecidos que não ficam na história embora dela façam parte. 
    O filme passa na edição deste ano do IndieLisboa, a 14ª, que começa amanhã, dia 3 de Maio.