quarta-feira, 7 de junho de 2017

Amar e sofrer +

    Fui ver "Twin Peaks: The Missing Pieces" (2014) para completar o quadro. É composto por excerto excluídos de "Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer"/"Twin Peaks: Fire Walk with Me" (1992) e estabelece uma boa transição para o actual estado da série televisiva, agora em terceira temporada. Serve para nos ajudar a recapitular tudo, num momento em que está em curso entre nós uma "operação David Lynch", o que é justo e bem vindo.
                                        Twin Peaks: The Missing Pieces
    Além de voltar a aconselhar a série e todos os filmes de David Lynch, permito-me aconselhar também o livro de Mark Frost "A História Secreta de Twin Peaks" (Lisboa: Suma de Letras, 2016). Trata-se de uma obra de ficção de um dos autores da série, situada, para nos facultar as supostas origens do mistério, no início do seculo XIX.
    Nisto como em tudo o melhor é conhecer a história toda - por exemplo, a origem daquele anel - mesmo que seja para ficar ainda numa certa ignorância. Mas o que faltava em "Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer" era muito importante e torna-se especialmente valioso quando entregue em novo filme por quem o excluiu.

domingo, 4 de junho de 2017

O espaço público

     No seu programa "court-circuit", o Arte transmitiu ontem à noite quatro curtas-metragens sobre o espaço público com especial relevo para a arquitectura. Trata-se de filmes de excelente qualidade, os dois primeiros com grande performatividade, o terceiro com exposição ao dia e à noite, o último, "Peripheria", uma extraordinária animação.
    "Aujourd'hui je ne suis pas là" do argentino Gustavo Taretto (2007), sobre as "zonas de sombra", "Every-One" do austríaco Willi Dorner (2015), com coreografia em zona urbana explorando formas, volumes e movimento, "Quantum" do colectivo italiano Flatform, que joga com o dia e da noite, as luzes e os sons sobre uma maqueta de uma vila italiana com palavras apenas escritas, e "Peripheria" do francês David Coquard-Dassault (2015), explorando os grandes edifícios em espaços desertos. A propósito do Festival de curtas-metragens de Ratisbonne, na Alemanha.
                         1777-peripheria_1_light
    Quando se dedica sobretudo à imagem sem grandes preocupações narrativas, a curta-metragem pode, como nestes casos acontece, apresentar carácter experimental e desse modo ir até aos limites da sua expressividade visual e sonora.
    A questão do espaço público e da sua privatização é muito actual e está muito bem explorada em termos artísticos nestas quatro curtas, com especial relevo para a arquitectura, em espaço real nas duas primeiras, superiormente recriada nas outras duas. E a inscrição do humano ocupa particular importância nas duas primeiras e na última, com integral respeito das proporções e das distâncias aproveitando a perspectiva.
   É com programas como este, com excelente apresentação e enquadramento, que o Arte continua a ser o melhor e o mais diversificado dos canais televisivos. 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

O último poema

   Poeta maior da língua portuguesa, Armando Silva Carvalho (1938-2017) foi autor de uma obra longa e de excepcional qualidade, em especial na poesia. Não convencional e inesperada, a sua palavra erótica, amarga, satírica atingiu centros fundamentais da experiência humana em expressão poética notável. 
   Tendo começado na poesia nos anos 60, foi um poeta de referência na literatura portuguesa contemporânea e marcou o seu espaço literário próprio ao constituir-se como fonte de inspiração para muitos outros.
                               A Sombra do Mar
    Um poema do seu último livro na despedida:
   
   "Num poema curto a corrente do sangue corria
    como um atleta levando no dorsal
    a filosofia pública da hora, 
    e a luz nua e directa incidia sobre o corpo,
    real, absoluta.

    Hoje o poema teima sempre em ser maior,
    e a história, o tempo, a memória e o verso porque é velho,
    ocultam-lhe a idade nas curvas irreconhecíveis
    dum vulto.
    É sempre cada vez mais longa a maratona,
    e as insistentes palavras
    parecem desistir enquanto avançam."

            ("Poema que foi curto", in "A sombra do mar", página 74)

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O que se esconde

    "O Sentido do Fim"/"The Sense of an Ending" (2017) é a segunda longa-metragem do indiano Ritesh Batra, depois de "A Lancheira"/""Dabba" (2013). Baseado no romance homónimo de Julian Barnes, um dos melhores escritores da actualidade editado em Portugal pela Quetzal, Man Booker Prize em 2011 com este livro.
    Num país em que o cinema inglês é tratado "abaixo de cão" pela generalidade dos "cinéfilos iluminados", devo chamar a atenção para este filme de uma grande sobriedade e com uma narrativa superior que vem da sua origem literária. De facto, nele nada é o que parece, o que num momento temos por certo vem depois, logo a seguir ou mais tarde, a ser posto em causa.
    Tudo parte da velhice de Tony Westner/Jim Broadbend, divorciado de Margaret/Harriet Walter, cuja filha Susie/Michelle Dockery está no final da gravidez. Na juventude, Tony/Billy Howle teve uma namorada, Veronica Ford/Freya Mavor, que acabou por casar com um seu amigo, Adrian Finn/Joe Alwyn, que acaba de morrer.
                                      O Sentido do Fim Poster
     Passado cerca de uma hora em que o filme embrulha a narrativa entre o passado e o presente, Tony vai ao encontro dos seus amigos de juventude e acaba por ser procurado por Veronica/Charlotte Rampling, que começara por se negar a encontrá-lo ou a ceder-lhe o que Adrian terá deixado para ele.
    Claro que o mérito da narrativa, que é o melhor do filme, está no original, como já disse, mas mesmo com algum excesso Ritesh Batra, trabalhando sobre adaptação e argumento de Nick Payne, constrói um filme aparentemente monótono, em que parece pouco acontecer mas que dá conta de várias vidas com correcção e exigência, em planos geralmente fixos, o que lhe fica bem - com fotografia de Christopher Ross, pouca música de Max Richter e uma montagem expressiva de John F. Lyons.
    "O Sentido do Fim" é, em termos cinematográficos um melodrama sem excessos que na sua secura deliberada diz mais que os grandes e espectaculares melodramas cinematográficos e televisivos. Um pouco na tradição de David Lean mas com menos espectáculo. Vindo do país de Harry Potter isto interessa-me mais.
     Fruto acidental da ciência e da técnica no final do século XIX, posteriormente sujeito a múltiplas transformações, o cinema continua a firmar-se em outras artes e formas de expressão mais antigas, que mesmo se nem sempre enriquece pelo menos lhe servem, como neste caso, para se exprimir melhor e para elas chama a atenção (leiam Julian Barnes). Aqui o mérito de Ritesh Batra é de ter sabido aproveitar, sem a estragar, a sua fonte literária declarada.  
    Por sua vez, "Cameraperson" de Kirsten Johnson (2016) é um documentário que recolhe excertos de documentários feitos ao longo de 20 anos em que ela participou na fotografia, excertos esquecidos em filmes que passam e caem, eles também, no esquecimento.
     É ao que se esconde em filmes passados, rodados ao longo do globo - Bósnia-Herzgovina, Afeganistão, diversos países africanos, Iemen, Darfur, mas também nos Estados Unidos -, que a documentarista aqui dá vida e torna presente de novo, com o cuidado de regressar aos mesmos locais e filmes. Passa assim em revista conflitos graves através daqueles que neles mais sofreram, mas também inclui excertos privados da família e dos amigos da cineasta. 
                      Cameraperson Movie Review
    Ora, ao fazê-lo Kirsten Johnson não se limita a um "exercício de estilo" ou a uma mera "experiência", já que nos excertos seleccionados vida à sua própria câmara de filmar, sempre nas suas mãos e com a sua própria voz gravada em directo, por vezes também a sua própria imagem, o que permite equacionar o papel da câmara, da sua presença aberta, naqueles que filma.
      E aqui é a altura de percebermos todas as virtualidades do cinema e o seu aproveitamento fora dos circuitos de exibição comercial como elemento de mostração em que a presença da câmara não é indiferente no que de outro modo escaparia aos olhos públicos. Ao mostrar o que filmou de forma próxima e empática, "a mulher da câmara de filmar" levanta questões e rasga horizontes ao documentarismo.
     Recuperar excertos de filmes passados em "Cameraperson" serve a Kirsten Johnson, que entre nós é conhecida apenas pela sua participação na fotografia de "Citizenfour", de Laura Poitras (2014), para nos recordar, tirando-o do esquecimento, todo o sofrimento do mundo em tempos recentes e os que viram, e em muitos casos continuam a ver os seus direitos humanos brutalmente violados. Visto no mesmo dia que o anterior, no Arte, evidentemente. 

sábado, 27 de maio de 2017

Amar e sofrer

    A nova temporada da série "Twin Peaks" de David Lynch, com 18 episódios (2017), é um acontecimento maior no panorama televisivo do ano corrente. Porque se trata de uma série de culto e grande sucesso e por ser de novo realizada por David Lynch, que se encarregara dela nas suas duas anteriores temporadas, em 1990/1991.
    Este é um nome cuja importância como cineasta parece aumentar com o decorrer do tempo sem novos filmes realizados depois de "Inland Empire" (2006) salvo curtas e vídeos. Mas a série teve no seu início também um filme, "Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer"/"Twin Peaks: Fire Walk with Me" (1992), que teve uma edição especial, "Twin Peaks: The Missing Pieces" (2014), que não dei por que nos tenha chegado.
  Como no cinema, onde se estreou na longa-metragem com "No Céu Tudo É Perfeito"/"Eraserhead" (1977) e para o qual fez "Mulholland Drive" (2001), a sua obra-prima, também na televisão Lynch constrói o seu trabalho em filme como um mistério que se trata de tentar desvendar e cuja investigação revela uma verdade desconhecida sobre as personagens e o seu meio. Só que em "Twin Peaks" é toda uma comunidade perdida no Noroeste dos Estados Unidos que se revela e, ao fazê-lo, revela uma parte da verdade de um país e de um tempo.
                    
    Criada por David Lynch e Mark Frost e com argumento de ambos, a série que agora regressa - amanhã, Domingo, 28 de Maio, às 22H 00M no TVSéries - vai mergulhar-nos de novo no mistério criado especialmente para ela, a partir da imaginação dos seus criadores e do talento dos seus actores e técnicos. Agora para uma audiência globalizada, excede muito do que de melhor se faz todos os anos para o cinema e rivaliza com qualquer outra das melhores séries televisivas como a melhor de sempre
    O trabalho em cenários naturais (e o proveito deles retirado) bem como o audácia da composição sonora aumentam a qualidade e também a influência deste pedaço de televisão absolutamente imperdível, encantatório e fantástico, ao trazer-nos um outro mundo, superiormente tratado, como parte do nosso, uma outra vida como semelhante à nossa.
    Para amar e sofrer, uma série mítica de um realizador mítico que se conta entre os nomes mais destacados do cinema contemporâneo.

O feiticeiro de Oz

    José Manuel Castello Lopes (1931-2017), que agora morreu, foi uma figura fulcral do cinema em Portugal ao dirigir a distribuidora Filmes Castello-Lopes, que com o seu irmão, o fotógrafo Gérard Castello-Lopes (1925-2011), herdara do seu pai, desde a década de 50 do século XX e ao fundar com o irmão a sala do Cinema Londres, na Avenida de Roma, em Lisboa, em 1972.
    A sua iniciativa como distribuidor e o seu bom gosto como programador permitiram-nos ficar a conhecer em tempo próprio um vasto catálogo de filmes marcantes da história do cinema. A sala fechou e ele agora partiu deixando entre todos os amantes do cinema as melhores recordações.                      
                              
     Fundamental com a Filmes Castello-Lopes na minha formação no melhor do cinema, no fundo a era do cinema em Portugal que ele assinalou com a sua intervenção esclarecida já tinha começado a acabar há muito.
     Era Membro  Honorário da Academia Portuguesa de Cinema, que lhe atribuiu em 2013 o Prémio Sophia de Carreira. 
     Aqui lhe presto a minha homenagem sentida.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Defeito e feitio

    Desde "A Árvore da Vida"/"The Tree of Life" (2011), o seu último grande filme, que Terrence Malick, um dos nomes maiores do cinema americano, tem entrado em trajectória descendente, de que "Música a Música"/"Song to Song" (2017) é o ponto mais baixo.
    Trabalhando embora, como sempre, sobre argumento seu, o cineasta perde-se nos labirintos de personagens cifradas. Percebe-se o esforço experimental mas não basta hoje fazer à maneira do que Michelangelo Antonioni, Alain Resnais ou Jean-Luc Godard há mais de 50 anos faziam, nem encher o peito com a reprodução de uma fotografia icónica de Arthur Rimbaud.
    Mesmo acompanhando o filme detidamente, e especialmente fazendo-o, percebe-se que o próprio recurso à "subjectiva indirecta livre" de um "cinema de poesia" teorizado por Pier Palo Pasolini e Gilles Deleuze é já algo muito ténue e oportunista, presente como monólogo interior apenas para fazer valer esse ponto como estilo.
     Contudo, a mistura audiovisual variada aproxima-se do vídeo-clip em vários momentos - no que talvez seja o conceito de musical do cineasta -, os movimentos de câmara que associam travelling e panorâmica são exagerados e as personagens navegam livremente sobre si próprias valendo mais pelo que mostram do que pelo que são, já que carecem de qualquer densidade.
                    
     Além disso, anoto a total ausência de personagens que não sejam brancos e a total ausência de humor declarado, um aspecto que costuma aproximar o cinema americano do seu público - talvez por intransigência do cineasta. Considerando-o embora, haverá que notar que aquelas personagens e os seus problemas, que se reduzem a triângulos amorosos, podem ser típicos dos americanos brancos católicos do Texas na actualidade.
     Não rejeito, assim, sem mais este filme de um cineasta que prezo e que aqui quer de novo exibir a sua qualidade artística. Vistos em perspectiva daqui a uns anos, "A Essência do Amor"/"To the Wonder" (2012), "Cavaleiro de Copas"/"Knight of Cups" (2015) e este "Música a Música" poderão vir a formar uma trilogia importante na obra de Malick, mas mais do que os anteriores o seu último filme mostra mais os defeitos que o feitio de uma "maneira" tida como "estilo".
     Percebe-se que naquele timbre aquela música possa estabelecer com o seu instrumento as variações que quiser. Com mérito inegável, os grandes actores - Michael Fassbender, Natalie Portman, Ryan Gosling, Rooney Mara, Cate Blanchett, Holly Hunter - limitam-se a sinalizar e caucionar o "grande filme" do "grande cineasta. O que agora, se de trilogia se tratar, se impunha era sair do "círculo vicioso", agora manifestamente esgotado.
     Na sua seriedade como "autor" num tempo e num espaço que a eles não são favoráveis, Terrence Malick é um cineasta que continua a interessar-me fora do "fogo de artifício" da actualidade, do box office e da crítica.