quarta-feira, 14 de março de 2018

O homem do universo

   Stephen Hawking (1942-2018), o mais famoso astrofísico do nosso tempo, que agora nos deixou, notabiliizou-se pelas suas descobertas extraodinárias a partir da teoria dos quanta, mas também pela sua capacidade de transmitir o seu campo científico: o universo.
  Atingido desde novo por doença grave e incapacitante, mesmo assim dedicou inteiramente toda a vida aos seus interesses científicos, o que foi narrado por um filme recente, "A Teoria de Tudo"/"The Theory of Everything", de James Marsh (2014), com Eddie Redmayne.
                     stephen hawking quotes
    Homem do seu e do nosso tempo, foi um herói moderno pela forma como viveu, por aquilo que descobriu, pela sua simpatia, o seu humor e a sua capacidade de, para todos, explicar o mundo em que temos vivido desde o início, que também explicou. Aliando a história e a filosofia, com o seu génio iluminou o nosso tempo, o passado e o futuro.
    Os seu livros mais importantes e mais conhecidos são "Breve História do Tempo: Do Big-Bang aos Buracos Negros" (Lisboa: Gradiva, 1988), "Aos Ombros dos Gigantes - As Grandes Obras da Física e Astronomia" (Lisboa: Texto, 2010) e "A Teoria de Tudo - A Origem e o Destino do Universo" (Lisboa: Gradiva, 2015), embora a sua obra seja toda ela muito importante e altamente recomendável.
    Figura fascinante e inconfundível, a sua partida é uma perda irreparável para toda a humanidade.

domingo, 11 de março de 2018

O rumor do mar

      Sempre vi os filmes da Rita Azevedo Gomes no cinema, de maneira que um fim de tarde, princípio da noite fui ao Cinema Ideal ver "Correspondências" (2016), o seu mais recente filme.
       Ocupa-se da correspondência epistolar trocada entre 1959 e 1978 por Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen, dois nomes máximos da literatura e da poesia portuguesa do século XX - os únicos ao nível do Fernando Pessoa e do Herberto Helder -,  quando ele estave exilado no Brasil e nos Estados Unidos com a mulher, Mécia de Sena, enquanto ela permanecia em Portugal com o marido, Francisco Sousa Tavares, mas viajava muito.
       Com imagens e palavras gravadas de ambos, inéditas ou pouco conhecidas, o filme contém imagens actuais de contemporâneos deles - Mário Barroso, Luís Miguel Cintra entre outros - e de mais novos, que lêem as cartas e dizem poemas. Em palavras impiedosas sobre o país de então mas também sobre o país de sempre, mesmo sobre o cristianismo e a Grécia  Antiga que amavam, mito, tragédia e epopeia compreendidos, sobre a civilização azteca e sobre o extremo oriente, em vida e pensamento ambos se dizem com amizade e confiança um ao outro.
       Se, documentais, as imagens e as palavras de época são muito valiosas, a actualidade em que elas reverberam está muito conseguida, centrada no acto de dizer, nos ruídos e nos silêncios, nos corpos e nos cenários, nos gestos quotidianos. Por vezes, estridente, um violencelo irrompe, inopinado.
                                    
      Com homenagem expressa a Manoel de Oliveira e a João César Monteiro em imagens célebres, o segundo também em presença, "Correspondências", escrito e realizado por Rita Azevedo Gomes, faz lembrar sobretudo Marguerite Duras no seu movimento perpétuo da palavra dita em várias línguas, nos seus silêncios e na sua remissão para a poesia anterior. Mas estabelece a sua originalidade também na utilização de diversos formatos e nas divisões do ecrã em ecrãs menores, flutuantes.
        Fruto da colaboração múltipla de todos os participantes, destaco aqui a fotografia de Acácio de Almeida e Jorge Quintela, a música de Alexander Zekke e a montagem da realizadora e de Patrícia Saramago. Enrolando e desenrolando a sua estrutura em termos binários, unifica-se num ritmo distendido de planos longos, que por vezes se intensifica.
       Na sua exigência e no seu rigor, este filme longo e muito bom presta sentida homenagem àqueles que evoca e ao melhor da literatura e de poesia portuguesa. E termina com o rumor do mar, que me acompanhou à saída, quando atravessava a noite lisboeta, alheada e turística.
       Lembro que a eles tinham já sido dedicados "Sophia de Mello Breyner Andresen", de João César Monteiro (1969), e "Sinais de Vida", de Luís Filipe Rocha (1984), que fez também o filme "Sinais de Fogo" (1995) baseado no célebre romance de Jorge de Sena. E que Rita Azevedo Gomes se tinha já baseado em Sophia para "Frágil como o Mundo" (2001).
       Há coisas muito boas na cultura portuguesa e este filme, os seus dois protagonistas ou o último livro de Maria Filomena Molder contam-se entre elas.

quarta-feira, 7 de março de 2018

A memória, a história

      O filme "Lumière!", com produção de Bertrand Tavernier e do Institut Lumière, escrito e realizado por Thierry Frémaux (2017), recorda os irmãos Auguste e Louis Lumière que em 1895 mostraram publicamente o seu cinematógrafo, primeira forma completa do cinema, que haviam inventado nos anos anteriores.
     Recuperados e restaurados os 108 filmes (de um total superior a 2.000 do catálogo dos Lumière) de cinquenta segundos cada, temos a possibilidade de a eles assistir de uma forma historicamente pertinente e correcta, devidamente identificados, datados e acompanhados por comentários do próprio Frémaux que os situam geograficamente e na história do cinema.
       Distinguindo muito bem cada um dos irmãos, este filme conta a história de cada um dos filmes que mostra, identificando os seus intervenientes, as suas diferentes versões e o que em cada um deles está já em causa do ponto de vista da realização, que era de Louis.
                     
      Trata-se de um empreendimento histórico pela sua amplitude e os filmes que inclui, já sujeitos a uma completa análise histórica, que têm tudo que ver com o cinema que antecipam em encenação - a profundidade de campo, a diagonal, o fora de campo - e em construção dramática ou cómica, mesmo se também inspirados na pintura do século XIX. Tinham razão aqueles que afirmaram que o cinema estava já completo nesses primeiros filmes de um só plano. A montagem estava já em cada um deles, embora a de mais de dois planos tenha chegado poucos anos depois.
     Ora este filme de filmes tem tudo que ver com a "ontologia do cinema" tratada por André Bazin num escrito célebre, recordada no número 742 deste mês de Março dos Cahiers du Cinéma por Stéphane Delorme no importante dossier "Pourquoi le cinéma?", em "Sensibilité - La corde sensible", um texto a que tenho a objectar só utilizar exemplos europeus e norte-americanos e usar como sinónimos "sentimentos" e "emoções", sem os distinguir - cf. António Damásio.
    Quero a este respeito recordar aqui André S. Labarthe (1931-2018), fundamental crítico e cineasta francês, co-autor com Janine Bazin das séries "Cinéastes de nôtre temps" e "Cinema, de nôtre temps", que nos contaram a história do cinema pela voz e com a imagem dos seus principais criadores. Aí o trabalho deles tem tudo a ver com este filme. 

terça-feira, 6 de março de 2018

Toda a dor do mundo

       Conhece-se o incremento recente do filme documental sobre arte e artistas, praticado entre nós com especial cuidado e sucesso por Jorge Silva Melo.
       "Beuys", de Andres Veiel (2017) é um documentário de longa-metragem sobre o célebre artista alemão, pintor, artista gráfico, escultor, teórico, professor e performer, que marcou decisivamente a segunda metade do século XX.
      Ao recordar a vida dele com apoio em imagens suas e das suas criações, em declarações suas e em depoimentos de outros, constrói com rigor um puzzle biográfico e artístico pleno de contrastes e de humor, muito elucidativo e interessante.          
                      
       Joseph Beuys ultrapassou a fama de Andy Warhol e de Robert Rauschenberg quando, na década de 70, passou de uma tempestade a um furacão de criatividade, contra as regras estabelecidas da arte e do seu establishment. Mas o seu pensamento "orgánico" sobre a arte tinha também uma dimensão política, que ele não se dispensou de levar à prática a partir da ideia, nunca satisfeita, de democracia directa por referendo.
       Reconhecido dos dois lados do Atlântico e no Japão, teve uma vida atribulada, com a sua vocação artística contrariada pelos pais e a participação na II Guerra Mundial até à queda do avião em que seguia na Crimeia. Apesar disso e com isso atrás de si, afirmou-se e singrou na cena artística internacional.
       Este documentário muito bem documentado e muito bem feito faz-lhe justiça e constitui-se, assim, em verdadeiro manifesto pela arte num seu conceito expandido, que ele muito bem soube defender e encarnar.

segunda-feira, 5 de março de 2018

A prenda do avô

      "Ramiro" de Manuel Mozos (2017) é mais um bom filme deste simpático cineasta português que, sem as peneiras de "grande artista do cinema" de outros, continua tranquilamente a construir uma obra pessoal de grande qualidade. E é a sua primeira longa-metragem de ficção depois de "4 Copas" (2008)
      Num tempo em que as livrarias continuam a morrer, escolhe um alfarrabista como protagonista, Ramiro/António Mortágua, num filme em que vários outros e especialmente outras giram em volta dele. Com livros que na loja caem em cima da cabeça dos clientes (Iasbel/Cristina Carvalhal), tem como protegidas uma jovem grávida, Daniela/Madalena Almeida, e uma convalescente de um avc, Dona Amélia/Fernanda Neves.
      Por sua vez, o pai da jovem, AlfredoVítor Correia, carpinteiro a cumprir pena por ter matado a mulher, é visitado na prisão por Ramiro a pedido da convalescente Dona Amélia, e uma vez em liberdade procura-o, na sequência do que, sem chegar a encontrar a filha, deixa uma prenda para o neto por nascer
                      Manuel Mozos estreia hoje o filme
     Baseado numa construção sobre espaços fechados, da casa, da loja, de restaurantes e bares, o filme abre para o exterior quando o protagonista procura o futuro avô nos lugares em que ele terá vivido.
     Manuel Mozos é um cineasta inteligente, que trabalha as coisas simples e elementares da vida, do nascimento até à morte (Jaime França/Henrique Espírito Santo) passando pela alimentação e a bebida, e sabe filmar Lisboa sorrateiramente, à socapa de uma cidade que já não existe assim, e os actores à altura precisa em cada plano. Do mesmo modo, sabe usar de uma ironia portuguesa, citadina e lisboeta, nomeadamente quanto aos desajustes das novas tecnologias para os mais velhos e quanto aos comentários destes sobre os mais novos e os novos tempos.
     Declarou que lhe interessa o que está a acabar, e este "Ramiro" vem muito bem na esteira do documentário "Ruínas" (2009) e dos filmes que, gabo-lhe a paciência, tem dedicado ao cinema português, à censura e ao amor apaixonado do cinema ("João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas Que Eu Amei", 2014).
      Com argumento de Telmo Churro e Mariana Ricardo, colaboradores habituais de Miguel Gomes, fotografia de João Ribeiro, montagem de Pedro Filipe Marques e vestuário de Lucha d'Orey, "Ramiro" de Manuel Mozos é do melhor do actual cinema português, o seu melhor filme desde "Xavier" (1992), e por isso vivamente o recomendo aqui.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Outro caso real

       "15:17 Destino Paris"/"The 15:17 to Paris", de Clint Eastwood (2018), rima na obra do grande clássico americano vivo com "Sniper Americano"/"American Sniper" (2014), em que, além do heroísmo, ele mostrava o pessimismo americano sobre a guerra no Iraque. Aqui ele escolhe um episódio muito recente que envolve três americanos na neutralização de um terrorista no comboio Amsterdão-Paris, em 2015.
    Partindo da opção feliz de mostrar a vida dos três protagonistas desde a infância, Spencer/William Jennings, Alek/Bryce Gheisar e Anthony/Paul-Mikél Williams, durante a qual eles foram colegas numa escola católica, só na sua segunda parte o filme se centra na viagem deles pela Europa a partir de Roma para, depois de Veneza e Berlim, se encontrarem todos em Amsterdão, onde apanham o comboio que vai definir o seu destino.
       Como "Milagre no Rio Hudson"/"Sully" (2016) baseado em factos reais, este é um filme menos espectacular e por isso mesmo mais notável, em que se nota a marca, a assinatura do cineasta, de quem justamente Godard dizia que se reconhece um plano seu pela posição da câmara - e, acrescento eu, por algo mais do que isso: uma mise en scène, uma concepção do espaço, uma secura narrativa eliptíca, embora aqui acomodadas.
                      
        Com argumento de Dorothy Blyskal, baseado no livro dos protagonistas, Anthony Sadler, Alek Skarlatos e Spencer Stone com Jeffrey E. Stern, "15:17 Destino Paris" devolve-nos uma América confiante em si própria, nos seus princípios e na sua iniciativa, na sua decisão e na sua coraagem, sem que o cineasta se veja forçado a um golpe de rins para o fazer. A escolha do filme foi dele e a opção de mostrar os próprios protagonistas a interpretarem-se a si próprios resulta muito bem.
      Contando com fotografia do habitual Tom Stern, música de Christian Jacob, o mesmo de "Milagre no Rio Hudson", e montagem de Blu Murray, assistente em "Sniper Americano", este um filme que nos devolve o melhor do cinema americano e da América sem forçar os  traços, a partir dos factos reais. Muito recomendável para todos, mesmo para americanos distraídos com a revolução digital e o espectáculo do 3D
       Mas não deixarei de dizer que Clint Eastwood, realizador e produtor deste filme, aqui como nos dois anteriores mostra "heróis americanos" indiscutíveis, ele melhor do que ninguém saberá porquê, o que confere a esses filmes um certo tom de propaganda. Gostaria de o ver regressar a seguir ao seu espírito agudamente crítico sobre a América contemporânea e os americanos de hoje, que celebrizou mesmo quando foi menos consensual.      

Bom panorama

       "Uma Viagem pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier"/"Voyage à travers le cinéma français", de Bertrand Tavernier (2016), é um filme muito bom e completo sobre uma das cinematografias mais importantes da Europa e do mundo, feito a partir do ponto de vista e da experiência do cineasta desde a sua infância.
        Sempre com recurso a excertos de filmes e declarações dos envolvidos na sua produção, começa com Jacques Becker e termina com Claude Sautet, aos quais é dedicado. Fica bem ao cineasta deter-se, além de Jean Renoir, Jean Gabin, Jean Vigo, Marcel Carné, Jacques Prévert e Jean-Pierre Melville, nos menos conhecidos Edmond T. Gréville e John Berry entre outros, bem como em Eddie Constantine, que o marcaram e são raramente referidos.
        Lamento, contudo, que a referência à nouvelle vague francesa seja tão breve e selectiva, deixando de fora Rivette e Rohmer, por exemplo, e que René Clair, Robert Bresson, Henri-Georges Clouzot, Jean Rouch, Alain Resnais e Jacques Tati sejam pouco referidos, quando não omitidos. Mas tal dever-se-á provavelmente a ele ser um homem da Positif, uma importante e antiga revista francesa de cinema, o que o faz estar atento aos compositores Maurice Jaubert e Joseph Kosma.    
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        Na sua longa duração este filme contém histórias curiosas, algumas delas fabulosas e desconhecidas do cinema francês que Tavernier descobriu e trouxe para o seu filme, feito à maneira dos de Martin Scorsese sobre o cinema americano e sobre o cinema italiano, como eles completo e muito bem feito.
        Aproxima-me deste cineasta francês, justamente célebre, ter tido como ele uma "primo-infecção" na infância e o gosto pelo cinema americano, mas afasta-me dele o gosto pessoal e a perspectiva crítica que, sendo também parcial e subjectiva, nos Cahiers du Cinéma dos anos 50 era mais virulenta, mais apaixonada e esclarecida - embora por vezes também mais injusta -, o que fez com que das suas fileiras tenha saído o melhor da nouvelle vague.
          Mas vejam pois, bem documentado e comentado, só vos pode fazer bem na sua seriedade e na sua erudição. Os franceses choraram com este filme, o que com o seu sentimentalismo e o seu chauvinismo se compreende, nós podemos vê-lo com os olhos secos.