domingo, 31 de março de 2019

Cinema: A Arte de Amar - Divulgação

Na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

CINEMA: A ARTE DE AMAR
Horário: 4 sessões (8 Horas) |  de 02 a 23 de maio (quinta-feira) | Pós-laboral (18h00 – 20h00)

LIVRE (SEM CRÉDITOS)

Formador: Carlos Melo Ferreira
Supervisão Científica: Professor Doutor Vítor Almeida
Professor Doutor Carlos Miguel de Sá e Melo Ferreira, professor jubilado na Escola Superior Artística do Porto, tem uma longa carreira e experiência como pedagogo, investigador e especialista na área do Cinema. Regeu os workshops  “A cor no cinema”, “Os géneros no cinema”, “A palavra no cinema”, “A figura humana – os actores”, “A figura humana – os não-actores”, “Cinema, imagem e a realidade” e “Nouvelle vague”. Deu a masterclass “O cinema e a arte – Pedro Costa”. Participou em conferências e colóquios internacionais de cinema, nomeadamente nos encontros anuais da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento, entre outros, com realce para “Corte e Abertura”, do CEAA/ESAP, de que foi co-organizador. Tem artigos publicados em revistas internacionais com double peer review e em livros, e é revisor científico de publicações internacionais sobre cinema  e sobre arte. A seu cargo teve orientações de teses de mestrado e de três teses de doutoramento em universidades portuguesas  e espanholas. Participou em júris de mestrado como orientador e presidente na ESAP , júris de mestrado como arguente e de doutoramento como arguente e orientador em diversas universidades. Da sua vasta experiência pedagógica destaca-se o exercício de funções como Professor Auxiliar na ESAP, regendo cadeiras de História do Cinema, Análise de Filmes, Teorias do Cinema, Filmologia, Documentário Cinematográfico, Estruturas Narrativas na Licenciatura em Cinema e Audiovisual; leccionou também Antropologia Visual e Semiologia e Semiótica na Licenciatura em Design e Comunicação Multimédia; História e Teoria do Cinema e da Televisão e Métodos e Práticas do Argumento no Mestrado em Realização – Cinema e Televisão; Direito da Cultura na Licenciatura em Animação e Produção Cultural. Foi Diretor do Departamento de Teatro e Cinema da ESAP num mandato de dois anos e docente convidado do Mestrado em Comunicação Audiovisual da Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo do Instituto Politécnico do Porto durante dois anos. Tem vários títulos publicados, sendo os mais recentes “Cinema Clássico Americano. Géneros e Génio em Howard Hawks”, Lisboa, Edições 70, (2018) e “Pedro Costa”, Porto: Afrontamento, (2018) .
blog:
https://carlosmsmeloferreira.blogspot.com/
Destinatários:
Todos os interessados pelo Cinema: estudantes do Ensino Superior; estudantes do Ensino Secundário da área das Artes Visuais; público em geral com capacidade para a frequência do ensino superior.
Propinas (VER CONDIÇÕES DE PAGAMENTO):
UP/FBAUP – Estudantes , Docentes e Funcionários:
  65,00 Euros |
Público em Geral:  75,00 Euros |
Seguro escolar: 2,00 Euros |
INSCRIÇÕES ATÉ 25 DE ABRIL DE 2019
DOCUMENTOS NECESSÁRIOS PARA EFETUAR CANDIDATURA: CERTIFICADO DE HABILITAÇÕES LITERÁRIAS
Para candidatar-se, selecione a opção INSCRIÇÕES ONLINE
DESCRIÇÃO:
Em que baseia cada um de nós a sua cinefilia? Por que gostamos daquilo de que gostamos no cinema? E também se isso de que gostamos vale verdadeiramente a pena? Temos, é certo, a ajuda da crítica de cinema, mas não estaremos a menosprezar o melhor enquanto valorizamos produtos da moda sem outro interesse que não esse? E como deve ser a forma avaliada no cinema? E como devemos entender os géneros cinematográficos?
Desenhar-se-ão critérios baseados em exemplos tirados de todas as épocas e correntes da história do cinema, por forma que permita desenhar nesta um mapa do melhor cinema e dos melhores cineastas, de Charlie Chaplin a Dziga Vertov, de Fritz Lang e Friedrich. W. Murnau a Jean Renoir, de Jean-Luc Godard e Jean Rouch a Jean-Marie Straub/Danièle Huillet e Peter Greenaway até uma actualidade em que se destacam Apichatpong Weerasethakul e Hong Sang-soo, Jia Zhang-ke e Wang Bing, Béla Tarr e Pedro Costa.
E também se questionará porque escrevemos sobre cinema, porque estudamos cinema e porque ensinamos cinema.
IMAGEM: (C) VÍTOR ALMEIDA

Informações
Condições de pagamento:
50% do valor total da propina e seguro escolar: pago no ato da inscrição. SEM ESTE PAGAMENTO A INSCRIÇÃO NÃO É CONSIDERADA.
Valor remanescente da propina: pago até data anterior ao início da unidade de formação
Número mínimo de participantes: 10 (DEZ)
Número máximo de participantes: 25 (VINTE E CINCO)

A SERIAÇÃO DOS CANDIDATOS É FEITA PELA ORDEM DE PAGAMENTO DAS INSCRIÇÕES.
Certificação:
Aos  participantes será emitido:
– um certificado de frequência.
A não aprovação dos formandos pode resultar de:
  1. Assiduidade inferior a 75% do número de horas presenciais;
  2. A não apresentação do trabalho individual/ portefólio;
  3. Um valor médio de desempenho inferior a 50%.
Para efeito de confirmação de falta será considerada uma tolerância de 15 minutos.
Os formandos que reprovarem por falta de assiduidade só serão considerados para unidades de formação futuras caso haja vagas sobrantes.
O pedido de emissão de certificado é feito por escrito para formcontinua@fba.up.pt no final da unidade de formação, e a emissão está sujeita a pagamento de emolumentos no valor representado na tabela em vigor.
BIBLIOGRAFIA/ DOCUMENTAÇÃO DE APOIO:

Aumont, Jacques: “A Imagem. Olhar-Matéria-Presença” (Lisboa:Texto & Grafia, 2014).
Bazin, André: “O que é o Cinema” (Lisboa: Livros Horizonte, 1992).
Chion, Michel: “Un art sonore, le cinema – histoire, esthétique, poétique” (Paris; Cahiers du Cinema, 2001).
Cousins, Mark: “Biografia do Filme” (Lisboa: Plátano, 2005).
Deleuze, Gilles: “A Imagem-Movimento” (Lisboa: Documenta, 2016).
Deleuze, Gilles: “A Imagem-Tempo” (Lisboa: Documenta, 2015).
Douchet, Jean: “L’art d’aimer” (Paris: Éditions de l’Étoile, 1987).
Ellis, Jack C. e McLane, Betsy A.: “A New History of Documentary Film” (New York-London: Continuum, 2006).
Elsaesser, Thomas e Hagener, Malte: “Film Theory – An Introduction Throug the Senses” (New York-London: Routledge, 2010).
Ferreira, Carlos Melo: “Cinema. Uma Arte Impura” (Porto: Afrontamento, 2011).
Ferreira, Carlos Melo: “Pedro Costa” (Porto: Afrontamento, 2018).
Godard, Jean-Luc: “Introduction à uma véritable histoire du cinéma” (Paris: Éditions Alabatros, 1980).
Kovács, András Bálint: “Screening Modernism: European Art Cinema 1950-1980” (The University of Chicago Press, 2007).
Rancière, Jacques: “Les temps modernes – Art, temps, politique” (Paris: La fabrique éditions, 2018)

https://fbaupformacaocontinua.wordpress.com/2019/03/27/cinema-a-arte-de-amar/

sexta-feira, 29 de março de 2019

Da vida para a morte

    Nascida na Bélgica, Agnès Varda (1928-2019) foi um dos cineastas fundamentais e fundadores da nouvelle vague francesa.
    Primeiro na curta-metragem (1), a partir de "Duas Horas na Vida de Uma Mulher"/"Cléo de 5 à 7" (1962) na longa, veio a desdobrar-se entre a ficção e o documentario com a maior distinção. Sempre mostrou um pendor documental mesmo nas suas ficções, mas também se destacou na fotografia e na sua articulação com o cinema, no qual se revelou notável colorista.
   Numa obra longa e extensa destaco "A Felicidade"/"Le bonheur" (1965), "L'une chante l'autre pas" (1977), "Sem Eira Nem Beira"/"Sans toit ni loi" (1985) e os documentários "Daguerréotypes" (1976), "Mur murs" e "Documenteur" (1981), "Os Respigadores e a Respigadora"/"Les glaneurs et la glaneuse" (2000) e "As Praias de Agnès"/"Les plages d'Agnès" (2008).
                          The Gleaners and I
   Feminista declarada, acompanhou o marido, Jacques Demy (1931-1990), também cineasta, até ao fim, e dedicou-lhe mesmo um filme de longa-metragem, "Jacquot de Nantes" (1991). 
   A sua partida significa uma imensa perda para o cinema francês e o cinema mundial. Os meus sentimentos aos seus filhos Rosalie e Mathieu e a todo o cinema francês.
   Sobre Agnès Varda ver "É melhor a dois", de 18 de Fevereiro de 2018, e "Contado por ela", de 21 de Março de 2019.

   Nota
   (1) Recordo o dia em que, 1963 ou 64, João Bénard da Costa mostrou aos seus alunos do Liceu Camões, em Lisboa, a curta-metragem "O saisons, ô chateau" (1958), do que por desconhecimento necrológico haverá ainda testemunhas vivas.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Contado por eles

   "Espaço para Sonhar" (Lisboa: Elsinore, 2018) são memórias e autobiografia de David Lynch com autoria dele e Kristine McKenna. Adaptando o modelo do Hitchcock-Truffaut, cada capítulo é dividido em duas partes, a primeira de depoimentos daqueles que com ele conviveram e trabalharam, a segunda escrita por ele.
   Artista de corpo inteiro, ficamos a conhecer de Lynch as suas aptidões manuais e artísticas e a génese e desenvolvimentos dos seus trabalhos para cinema e televisão mas também em pintura, fotografia e vídeo, o que torna este livro um panorama muito completo a seu respeito.
   Desde antes de "Eraserhead" (1977) até à actualidade, a vida do cineasta é uma vida de artista, dissociada das exigências da indústria do cinema e em conflito com elas. Todos os que foram ouvidos concordam em que é uma excelente pessoa, de quem os actores gostam e que gosta dos actores, criando a qualquer pretexto a partir de qualquer motivo, humano, natural, objectal.
    A sua obsessão do detalhe e da precisão leva a que tudo em cada filme ou série televisiva seus seja rigorosamente preparado e levado à perfeição na concretização de tudo o que idealizou, embora ele permaneça aberto ao  imprevisto e à inspiração do momento nas filmagens. E na idealização prévia ele vai trabalhando quase inconscientemente, fixando tudo e todos que lhe despertam a atenção e o interesse.
   Curiosamente, as memórias dele não são sempre coincidentes com as de outros, o que se compreende. E claro que a Meditação Transcendental, que deu origem ao seu livro "Catching the big fish; meditation, consciousness, and creativity" (New York: Jeremy P. Tarcher/Penguin, 2006), que tem edição portuguesa, não é esquecida como parte central da vida dele. O mesmo sucedendo com a David Lynch Foundation - https://www.davidlynchfoundation.org/.
                      Official Twin Peaks VR (Virtual Reality) Red Room
   O que o cinema foi e aquilo em que ele e a televisão se tornaram nos últimos 50 anos é passado atentamente em revista a propósito de cada um dos filmes, séries, exposições, vídeos e do site dele, com esclarecimentos sobre contactos quase sempre difíceis. Mas ressalvo de novo o que ele diz dos seus actores, levados aos seus limites expressivos e emocionais, sempre considerados excelentes, e o que dele eles dizem - mas também técnicos e outros colaboradores.
  De igual modo a vida pessoal e familiar dele e o contacto com os seus amigos são passados em revista desde a infância. Contudo, a génese e desenvolvimento de cada trabalho é aqui essencial a par do retrato do homem indissociável do artista, dos seus sentimentos e emoções na base de uma forte pulsão criativa.
   Lynch é um puro artista em tudo o que toca, diz e faz, um dos principais cineastas e artistas contemporâneos e um dos melhores do século XXI - "Mulholland Drive" (2001) foi considerado em 2016 pela BBC Culture o melhor filme deste século. Conheceu êxitos e fracassos e de tudo isso fala este livro em pormenor.
   Embora seja uma pequena parte da sua história, como ele confidencia no final, este é assim um livro fundamental que aqui vivamente recomendo sobre um homem bom e genial. Depois de o lerem revejam filmes, séries e clips para poderem entender o que não viram da primeira vez - a história das "camadas" é só conversa fiada de velhinhas.
   Sobre David Lynch ver "Amar e sofrer", de 27 de Maio de 2017, "Amar e sofrer +", de 7 de Junho de 2017, e "Um com o outro", de 29 de Junho de 2017.

terça-feira, 26 de março de 2019

Pensar tudo e todos

    A propósito da filosofia alemã, de que o principal nome actual é Peter Sloterdijk, quero aqui chamar a atenção para uma ou duas coisas a partir da obra dele.
     Em 1999 ele publicou "Regras Para o Parque Humano: Resposta à Carta sobre o Humanismo" (Angelus Novus, 2008), em que fez um seleccionado levantamento de questões de Heidegger a que respondeu, concluindo pela substituição do humanismo do século XX pelo arquivo. De passagem aí fez a crítica da violência irracional dos media, sem adivinhar o 11 de Setembro de 2001 e o que se lhe seguiu, imprevisível.
     Em livros posteriores retomou algumas destas questões, nomeadamente no seu mais recente livro editado em português, "Tens de Mudar de Vida" (Lisboa: Relógio D'Água, 2018, original 2009), um livro nietzschiano na perspectiva da vertical mas também na crítica a Heidegger. O que é muito curioso porque lhe permite não sair da filosofia alemã e separar filósofos à primeira vista ligados.
     Outra das questões tratadas originalmente neste livro é o "espírito de recessão" base de uma "subjectividade da margem" (pág. 283), que por sua vez pode originar a ideia do "ser para a perfeição" (Capítulo 7. Perfeitos e Imperfeitos, pág. 303), o que é muito bem explorado.
                       Peter Sloterdijk (Foto: Flickr/Fronteiras do Pensamento)
    Nesse livro ele prevê a ascensão da ecologia na política, o que não levantava dificuldades já em 2009, mas não prevê a subida da extrema-direita nem dos neo-nazis, provavelmente ela também imprevisível. Mas muito bem chama a atenção para a superioridade da filosofia  continental contemporânea em relação à filosofia americana. 
    Uma das qualidades maiores deste filósofo é a clareza da sua crítica do comunismo no sécculo XX, incomum, rara e muito mais directa e acutilante do que a praticada por outros filósofos que com ele estiveram comprometidos e o procuram desculpar. Não há como pôr em causa mesmo o não evidente.
    Mas Peter Sloterdijk não foi indiferente à reemergência do fenómeno religioso, em "A Loucura de Deus: Do Combate dos três monoteísmos" (Lisboa: Relógio d'Água, 2009, original 2007) nem à crítica do capitalismo e de um mundo bipolar em "Crítica da Razão Cínica" (Lisboa: Relógio D'Água, 2011, original 1983, portanto ainda anterior à queda do Muro de Berlim), um livro de inspiração kantiana entre cinismo e kinismo.
   Em "O Estranhamento do Mundo" (Lisboa, Relógio d'Água, 2008, original 1993) destaco a reflexão sobre Críton na morte de Sócrates (pág. 121), de facto notável num livro moderno e muito bom que se alarga sobre a música (Capítulo VII. Onde estamos quando ouvimos música?, pág. 172)..
   Contudo, o conteúdo original de "Regras para o Parque Humano" veio a ser desenvolvido nomeadamente em "Palácio de Cristal - Para Uma Teoria Filosófica da Globalização" (Lisboa: Relógio d'Água, 2008, original 2005) que talvez seja, com "Cólera e Tempo - Ensaio Político-Psicológico" (Lisboa: Relógio d'Água, 2010, original 2006), de inspiração heideggeriana, e "Tens de Mudar de Vida" a sua obra que prefiro..
                                         
    Mas, embora falte a edição portuguesa de muita coisa, a sua filosofia é muito centrada na antropotécnica e na teoria da cultura, áreas em que o seu pensamento, globalização incluída, é de conhecimento muito proveitoso - em Portugal José A. Bragança de Miranda. 
     Não importam grandemente as minhas avaliações subjectivas, o que importa é a necessidade de pensar tudo e todos de todos os pontos de vista, e essa é uma função que a filosofia contemporânea mesmo se com atraso em relação a alguns novos factos tem preenchido. Como introdução está publicado em português "O Sol e a Morte - Diálogos com Hans-Jürgen Heinrichs" (Lisboa, Relógio d'Água, 2007, original 2006).
    Agora é imperioso que sobre ela e a partir dela cada um vá elaborando o seu próprio pensamento, com recusa do inaceitável na extrema-direita, do neo-nazismo, do racismo, contra o terrorismo e as ditaduras, com ideias partilháveis sobre a construção do futuro, no que Peter Sloterdijk tem sido muito útil. Veja-se nomeadamente "Se a Europa  Acordar: Reflexões sobre o Programa duma Potência Mundial no Termo da sua Ausência Política" (Lisboa: Relógio D'Água, 2008, original de 2002)
    "Morte Aparente do Pensamento - Da filosofia e da ciência como prática" (Lisboa: Relógio D'Água, 2014, original 2010) é um dos seus mais recentes livros publicados em português. Ao longo da sua obra ele tem lidado com toda a história da filosofia, com natural destaque para a filosofia alemã, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Heidegger, Benjamin mas indo até à filosofia antiga greco-romana, medieval e moderna sempre em diálogo crítico muito produtivo na construção do seu discurso pessoal próprio. 
     Este um pensamento rigoroso, profundo e muito bem sustentado nos riscos que corre em território desconhecido. Seria muito útil a tradução portuguesa da trilogia "Esferas", bem como de "O Imperativo Estético" (Verlag Suhrkamp, 2007) que ocupam uma posição central na obra de Sloterdijk. Normalmente identificado por "A Mobilização Infinita - Para uma crítica da cinética política" (Lisboa: Relógio D'Água, 2002, original 1989), ele é a meu ver o mais importante filósofo vivo.
    Trata-se, com efeito, de um pensamento inquieto que nos desperta e fornece linhas de continuidade, de evolução e de ruptura que nos ajudam a pensar o ainda não pensado, a pensar de novo o mal pensado e arriscarmos pensar por nossa conta no inquietante mundo actual.
    
     Comentário:

"(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)"

Álvaro de Campos, "Tabacaria".

domingo, 24 de março de 2019

Tornar-se xamã

    Co-produção luso-brasileira, "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos", de João Salaviza e Renée Nader Messora (2018), é um filme em jeito de documentário com realização, argumento e montagem de ambos.
    Filmado na aldeia Pedra Branca, no estado de Tocantins, no norte do Brasil com a participação de indígenas locais, tem como protagonistas Henrique Ihjãc Krahô e Raene Kôtô Krahô, um jovem casal da tribo Krahô com um filho pequeno. Tudo se passa depois da morte do pai dele, de cuja memória há que se separar. 
   No processo ele encontra um xamã que lhe confirma que ele próprio, Henrique, se está a transformar num novo xamã, o que ele não quer. Para escapar ao mestre Arara que o persegue, Henrique vai para uma pequena cidade, Itacajá, dizendo-se doente, e só aceita regressar depois de em  sonho ver uma cidade com chamas na noite.                
                      
    Logo na primeira parte do filme há as palavras do avô de Henrique sobre a sua infância e o massacre dos fazendeiros. Com atenção à vida comum dos índios Krahô, tem aberto interesse antropológico, o que nos nossos dias não é frequente.
    No envolvimento de brasileiros brancos, João Salaviza recupera o seu estilo de relação de autoridade com um jovem, que vem de "Montanha" (2015) sobretudo.
    Chove no final, com a cantoria do título, e o último plano na cascata sobre o rio é de uma extraordinária beleza. Na montagem com os autores, igualmente co-produtores,  está também José Edgar Feldman.
    Os cineastas disseram querer denunciar com este filme o genocídio dos indígenas brasiliros, com a exigência da demarcação imediata de terras, o que faço questão de deixar aqui escrito a propósito de uma obra que acrescenta de modo relevante o nosso conhecimento, como se exige da arte do cinema.
     Prémio especial do júri da secção Un certain regard do Festival de Cannes de 2018.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Contado por ela

   "Varda par Agnès" (2018) é o mais recente filme, autobiográfico e explicativo, da célebre realizadora belga que foi parte fundamental da nouvelle vague francesa. Co-realizado e co-escrito com Didier Rouget, divide-se em duas partes, duas conversas que partem de uma conferência dela sobre si própria numa sala de teatro.
    Sob o signo de imaginação, criação, partilha, com o seu ar despretensioso ela fala na primeira conversa da sua obra, de que mostra excertos de filmes, desde os seus inícios em 1954  até ao ano 2000. Mas fala também com gente que  nesses filmes participou, como é o caso de Sandrine Bonnaire. É um longo percurso descrito no seu essencial como realizadora, sem esquecer Jacques Demy mas centrado na sua própria vida e obra, feminismo incluído.
                     
     Na segunda conversa ela alarga-se sobre as câmaras digitais e o que com elas lhe foi possível fazer em cinema e em instalações de grande inventiva e criatividade, com recurso aos seus próprios filmes e a ecrãs múltiplos. Por ali passa um auto-retrato de Agnès Varda por si própria, de novo com convidados, ela que recusa o epíteto de artista visual embora também o seja.
     Em ambas as partes ela desenvolve a sua relação com o documentário, parte importante da sua obra presente mesmo em filmes de ficção e que na última fase se torna claramente dominante. Além do que explica em ambas as partes as suas opções cinematográficas e estéticas filme a filme, de que a preferência pelo travelling é reveladora.
    Tem montagem da Varda e Nicolas Longinotti.
    Foi um enorme prazer a noite da passada segunda-feira no Arte, com este filme e outros filmes dela integrada, "Duas Horas na Vida de Uma Mulher"/"Cléo de 5 à 7" (1962) e "Sem Eira Nem Beira"/"Sans toit ni loi" (1985), no ciclo "femmes, femmes" daquele canal.De facto ela é a mulher mais importante da história do cinema até hoje.
    Desejo-lhe que chegue aos 100 anos. Pelo menos. Sobre Agnès Varda ver "É melhor a dois", de 18 de Fevereiro de 2018.

segunda-feira, 18 de março de 2019

A guerra e a paz

   Depois de "Correspondências" (2016) sobre a epistolografia entre Sophia e Jorge de Sena (ver "O rumor do mar", de 11 de Março de 2018), estreou agora "A Portuguesa", o filme mais recente de Rita Azevedo Gomes (2018). Trata-se de um filme histórico baseado na novela de Robert Musil incluída em "Três Mulheres" (1924), que teve edição portuguesa na Livros do Brasil, com adaptação de Agustina Bessa-Luís e argumento e produção da cineasta.
    Narrando os encontros e desencontros dos von Ketten/Clara Riedenstein e Marcello Urgeghe, ela portuguesa, durante o tempo que precede a paz de Trento que por sua vez precedeu o concílio da mesma cidade (1545-1563), que instituiu a contra-reforma católica, o filme tem uma belíssima composição plástica para feitos que permanecem misteriosos até ao fim.           
                     Trailer português do filme A Portuguesa
     Contando entre os seus actores Rita Durão, Pierre Léon, Luna Picolli-Truffaut, Manuela de Freitas e Alexandre Alves Costa, e com a participação de Edith Clever, tem fotografia de Acácio de Almeida, música de José Mário Branco, montagem da realizadora e Patrícia Saramago e vestuário de Rute Correia e Tânia Franco.
      Mais um caso inteiramente conseguido da denominada escola portuguesa do cinema, dá-nos um senhor em guerra - belíssima a cena dele com os cadáveres dos seus homens - e na paz - a assinatura do tratado de paz com o Bispo de Trento/Alexandre Alves Costa. Durante esta ele está por regra em casa, durante aquela vemos a sua mulher sozinha em casa, rodeada pelos seus servos, a partir de certa altura visitada pelo primo português Pero Lobato/João Vicente.
      A serenidade do filme é subitamente perturbada pelo vento que entra pela janela antes da cena do campo de batalha, por uma ave de grande porte súbita já próximo do final, que acresce ao lobo e aos gatos. De resto a composição visual é pictórica, belíssima, os planos com profundidade de campo proporcionam um bom tratamento do espaço e têm a duração justa.
     Os cenários salvo no palácio real são de ruínas, e aí se infiltra por gretas e fendas a luz. Nesses espaços trabalha a fotografia de Acácio de Almeida, uma garantia de qualidade, por forma a torná-los familiares e antigos, e neles se desdobram personagens em figuração humana luminosa.
    Comparado com outro filme histórico em cartaz, "A Favorita" (ver "17 coelhos", de 12 de Março de 2019), o filme de Rita Azevedo Gomes é esteticamente superior. Entre as coisas melhores que Portugal tem a oferecer ao mundo na actualidade conta-se o melhor do seu cinema.

terça-feira, 12 de março de 2019

17 coelhos

   Passado no início do século XVIII durante o reinado da Rainha Anne/Olivia Colmar, "A Favorita"/"The Favourite" de Yorgos Lanthimos (2018) narra a história dela quando consente que Lady Sarah/Rachel Weitz governe por ela dizendo-lhe o que deve fazer. Até que chega uma prima de Sarah, Abigail/Emma Stone, que com esta vai concorrer.
    Com as primas muito evidentes nas suas amizades e especialmente nos seus ódios, permanece como personagem secreta a rainha que, como ela conta à nova aia, perdeu 17 filhos, que representa por 17 coelhos domésticos. Personagem complexa, sem herdeiro, a rainha justifica por si este filme que a ela não se limita.
                      
   Enquanto as outras fazem as suas intrigas e jogos políticos na corte entre tories, Godolphin,/James Smith, e whigs, Harley/Nicholas Moult, durante a guerra da sucessão espanhola de Inglaterra com a França, a rainha acaba por impôr a sua vontade embora sujeita à influência de Abigail quanto a Lady Sarah e ao marido, Lord  Marlborough/Mark Gatiss, comandante do exército.
     A Rainha Anne foi a última da casa de Stuart e a primeira do Reino Unido devido ao Acto da União de 1707. Personagem controversa, a sua figura foi revista e o seu reinado reavaliada durante o século XX.
     O argumento é de Deborah Davis e Tony McNamara, a fotografia de Robbie Ryan com excelente tratamento da luz e dos cenários, a música de Komeil S. Hosseini e a montagem de Yorgos Mavropsaridis.
    Quanto à realização de Yorgos Lanthimus, que já nos tinha dado "A Lagosta"/The Lobster" (2015) e "O Sacrifício de um Cervo Sagrado" (2017), justifica eventualmente os seus excessivos de movimentos de câmara rápidos e a distorção dos cenários pela própria instabilidade e carácter labiríntico daquilo que narra sobre a rainha e os que a rodeiam. Mas aproveita a construção em capítulos explora bem a intriga política neste filme histórico..

Ser e não ser

    Ser contra a mutilação genital feminina é um imperativo da consciência. "Flor do Deserto"/"Desert Flower"/"Fleur du désert", de Sherry Hormann (2009), narra a história verdadeira de Waris Dirie/Liya Kebede, vítima dela na infância no seu país, a Somália, vendida para casamento aos 13 anos e que acaba por procurar lugar mais acolhedor nos Estados Unidos,
      Tornada modelo famosa depois de um difícil percurso, ela não esquece o que lhe aconteceu. As memórias dela em flash back são mesmo parte da estrutura do filme.
                                            Desert Flower poster.jpg
      Baseado na autobiografia da protagonista e feito por uma realizadora americana radicada na Alemanha que se tem dividido entre o cinema e a televisão, chama muito pertinentemente a atenção para um dos grandes problemas que continuam a afligir a humanidade ainda nos nossos dias.
    Apresentado do ponto de vista da vítima, deixa bem claro que nenhuma consideração antropológica, religiosa ou outra justifica tão flagrante violação dos direitos humanos.
     Com realização correcta de Sherry Hormann, tem fotografia de Ken Kelsch, música de Martin Todsharow, montagem de Clara Fabry e boas interpretações em especial a de Liya Kebede.
     Um filme que não conhecia, muito a propósito transmitido na semana passada no Arte numa programação "femmes, femmes" que se prolonga por todo o mês de Março corrente.

domingo, 3 de março de 2019

Poesia em Si m

   O primeiro título da nova colecção de poesia da Porto Editora, "Autópsia (poesia reunida)", de José Rui Teixeira (2019), reúne poemas posteriores a 2003/2004 deste novo poeta de grande qualidade, o que aqui devo assinalar e é comentado em prefácio de Miriam Reyes e dois posfácios de Ana Paixão e José Pedro Angélico.
                                         Bertrand.pt - Autópsia [poesia reunida]
    Em diálogo ocasional com Rui Nunes e Herberto Helder e em proximidade da morte, destaco:

    "Mexemos excessivamente nos mortos.
     Descarnamos seus ossos como se nos ardessem
     as extremidades dos dedos e ladrilhos dourados
     nos pesassem sobre as reentrâncias das mãos."
     (de "Ataúde", 2007-2008,, pág. 81) 
    
     A melhor poesia reconhece-se e faz-nos sempre muito bem. A apresentação por ordem inversa da cronologia é bem vista e ajuda.
    

Integridade

     Decorrendo entre 2001 e 2018, "As Cinzas Brancas Mais Puras"/"Jiang hu er nü"/Ash is Purest White" de Jia Zhang-Ke (2018) é um filme fabuloso, como só ele é capaz de fazer nos nossos dias.
    Inspirado no último projecto de um clássico do cinema chinês, Fei Mu (1906-1951), o filme inspira-se também em filmes anteriores do cineasta, "Unknown Pleasures"/"Ren xiao yao" (2002) e "Still Life: Natureza Morta"/"San xia hao ren" (2006), além de incluir excertos de filmes dele não utilizados na respectiva montagem final.
     Como se saídos de um filme de Johnny To ou John Woo, um mafioso do jiang hu, Bin/Fao Liao, e a sua namorada, Qiao/Tao Zhao, são presos, ela que lhe tinha salvo a vida por mais tempo do que ele. Quando sai ela percorre metade do país, incluindo a barragem das Três Gargantas onde se passava "Still Life - Natureza Morta", para o encontrar e encontra apesar de ele tentar não se mostrar.
    O diálogo entre os dois, primeiro em exteriores depois num interior pobre, é dos melhores momentos de cinema que me foi dado ver neste século. Mas ele tem um derrame cerebral e ela continua a acompanhá-lo apesar de parcialmente paralisado, Qiao faz questão de acender o fogo para afastar deles o azar, regressam ao vulcão do diálogo da primeira parte e não, não vos conto o final, sublime, com a imagem dela desfocada em ecrã de vídeo-vigilância..
                                   
    Há uma fantástica viagem de comboio e Qiao vai mostrar que também conhece o jogo, encontrar o homem que ama e não esqueceu. A explicação que ela dá no final a Bin para não o ter esquecido resume-se a uma palavra do meio mafioso: integridade.
    Com piscadela de olho a Yasujiro Ozu, faz-me lembrar o cinema clássico japonês, em especial Kenji Mizoguchi nos seus filmes a preto e branco - e ao privilegiar o ponto de vista feminino o cineasta confirma-o.
    "As Cinzas Brancas Mais Puras" tem argumento de Jia Zhang-Ke, fotografia de Eric Gautier, que explora a textura de diversos suportes, música de Giong Lim e montagem de Matthieu Laclau e Lim Xudong. Em entrevista aos Cahiers, o cineasta fala do papel de Tao Zhao na criação da sua personagem, nas qualidades dela como actriz e também do nela ele tem visto e continua a ver.. 
    Na mesma entrevista Jia Zhang-ke, que é um dos maiores cineastas do nosso tempo, diz ter querido prestar homenagem às mulheres chinesas da actualidade e contrastar um meio mafioso com princípios com a falta deles no presente do seu país.. Aliás, a alusão a dado momento às minas de carvão remete para uma actualidade difícil e em movimento.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Ao nível

      No que me interessa mais, destaco nos Óscars deste ano o que foi atribuído a Spike Lee pelo melhor argumento adaptado de "BlacKkKlansman: O Infiltrado"/"BlacKkKlansman", o que sendo merecido o coloca ao nível de Orson Welles em termos de prémios da Academy of Motion Picture Arts and Sciences.
     Os argumentistas distinguidos são Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott e Spike Lee em adaptação de livro de Ron Stallworth, enquanto o argumento de o "O Mundo a Seus Pés"/"Citizen Kane" (1941) era original de Orson Welles e Herman J. Mankiewicz.
                     


      Não, não estou a fazer comparações de mérito, que seriam descabidas, mas a comparar o reconhecimento de cada um por uma instituição prestigiada que tem esquecido os melhores.
     Mas estas distinções são histórica e simbolicamente as mais importantes e as mais famosas do cinema, pelo que mesmo se quisermos não lhes podemos ser indiferentes.
 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Escritos sobre cinema

   A Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema deu início no ano passado à publicação dos "Escritos sobre cinema" de João Bénard da Costa, que foi director daquela instituição que ajudou a cimentar com o seu gosto de programador e com os seus escritos fundamentais em catálogos e folhas de sala que marcaram uma época.  
   Mas antes da Cinemateca ele dirigiu a programação de cinema da Fundação Calouste Gulbenkian, para cujos ciclos de cinema e filmes escreveu também. 
                  
   Trata-se de uma iniciativa muito importante que abrange essas duas fases da actividade dele, uma publicação inteiramente devida dado o alto nível cultural e cinematográfico dos textos do João ao longo da sua vida, entre o ensaio e a ficção. Uma iniciativa com a qual me congratulo e pela qual felicito a Cinemateca.
    Com prefácio de José Manuel Costa, este Tomo I do 1º Volume inicia uma publicação que aqui aconselho incondicionalmente a todos, cinéfilos e não cinéfilos. Se virem uma parte daqueles filmes acompanhados por aqueles escritos terão uma grande introdução ao cinema. 
     E entretanto o cinema continua, tal como a Cinemateca Portuguesa, o que é muito bom. E o João Bénard da Costa continua a fazer muita falta.

Stanley Donen (1924-2019)

   Conhecido sobretudo por "Serenata à Chuva"/"Singin' in the Rain" que co-dirigiu com Gene Kelly (1952), Stanley Donen foi com Vincente Minnelli um dos reinventores do filme musical no pós-guerra.
   Em filmes como "Um Dia em Nova Iorque"/"On the Town", também co-dirigido com Gene Kelly (1949), trouxe o género para exteriores e deu-lhe uma nova linha, um novo estilo moderno que marcou os anos 50. "Casanova Júnior"/"Give a Girl a Brek" (1953), "Sete Noivas para Sete Irmãos"/"Seven Brides for Seven Brothers" (1954), "Dançando nas Nuvens"/"It's Always Fair Weather (1955) e "Ciderela em Paris"/"Funny Face" (1957) contam-se entre os seus filmes mais famosos. 
                       Imagem do filme 'Serenata à Chuva'
   Mais tarde Stanley Donen dedicou-se também com grande sucesso à comédia romântica, em filmes como "Indiscreet" (1958), "Charade" (1963), "Arabesque" (1966) e "Caminho para Dois"/"Two for the Road" (1967). 
   Aqui o recordo como um nome fundamental do cinema americano no século XX, que marcou com o seu talento e a sua arte.

Divulgação

 A ARTE DO CINEMA (2.ª Edição)

Horário: 4 sessões (8 Horas) | de 12 de março a 02 de abril 2019 (terça-feira) | Pós-laboral (18h00 – 20h00)

LIVRE (SEM CRÉDITOS)

Formador: Carlos Melo Ferreira
Supervisão Científica: Professor Doutor Vítor Almeida
Professor Doutor Carlos Miguel de Sá e Melo Ferreira, professor jubilado na Escola Superior Artística do Porto, tem uma longa carreira e experiência como pedagogo, investigador e especialista na área do Cinema. Regeu os workshops  “A cor no cinema”, “Os géneros no cinema”, “A palavra no cinema”, “A figura humana – os actores”, “A figura humana – os não-actores”, “Cinema, imagem e a realidade” e “Nouvelle vague”. Deu a masterclass “O cinema e a arte – Pedro Costa”. Participou em conferências e colóquios internacionais de cinema, nomeadamente nos encontros anuais da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento, entre outros, com realce para “Corte e Abertura”, do CEAA/ESAP, de que foi co-organizador. Tem artigos publicados em revistas internacionais com double peer review e em livros, e é revisor científico de publicações internacionais sobre cinema  e sobre arte. A seu cargo teve orientações de teses de mestrado e de três teses de doutoramento em universidades portuguesas  e espanholas. Participou em júris de mestrado como orientador e presidente na ESAP , júris de mestrado como arguente e de doutoramento como arguente e orientador em diversas universidades. Da sua vasta experiência pedagógica destaca-se o exercício de funções como Professor Auxiliar na ESAP, regendo cadeiras de História do Cinema, Análise de Filmes, Teorias do Cinema, Filmologia, Documentário Cinematográfico, Estruturas Narrativas na Licenciatura em Cinema e Audiovisual; leccionou também Antropologia Visual e Semiologia e Semiótica na Licenciatura em Design e Comunicação Multimédia; História e Teoria do Cinema e da Televisão e Métodos e Práticas do Argumento no Mestrado em Realização – Cinema e Televisão; Direito da Cultura na Licenciatura em Animação e Produção Cultural. Foi Diretor do Departamento de Teatro e Cinema da ESAP num mandato de dois anos e docente convidado do Mestrado em Comunicação Audiovisual da Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo do Instituto Politécnico do Porto durante dois anos. Tem vários títulos publicados, sendo o mais recente “Cinema Clássico Americano. Géneros e Génio em Howard Hawks”, Lisboa, Edições 70, (2018).
blog:
https://carlosmsmeloferreira.blogspot.com/
Destinatários:
Todos os interessados pelo Cinema: estudantes do Ensino Superior; estudantes do Ensino Secundário da área das Artes Visuais; público em geral com capacidade para a frequência do ensino superior.
Propinas (VER CONDIÇÕES DE PAGAMENTO):
UP/FBAUP – Estudantes , Docentes e Funcionários:
  65,00 Euros |
Público em Geral:  75,00 Euros |
Seguro escolar: 2,00 Euros |
INSCRIÇÕES ATÉ 26 FEVEREIRO DE 2019

DOCUMENTOS NECESSÁRIOS PARA EFETUAR CANDIDATURA: CERTIFICADO DE HABILITAÇÕES LITERÁRIAS
Para candidatar-se, selecione a opção INSCRIÇÕES ONLINE (disponível apenas a partir de 01 de Fevereiro de 2019)
Descrição
Partindo do postulado de que o cinema é uma arte, tentar aferi-lo ao longo da História do Cinema, das suas origens até à atualidade, explorando as características do documentário e da ficção na sua evolução histórica, passando pelo filme artístico, pelo filme sobre artistas e pelo filme sobre arte, para chegar aos filmes contemporâneos que se movem na fronteira entre o documentário e a ficção. Serão tratadas as vanguardas dos anos 20 e 60 do século XX e será dada especial atenção ao cinema moderno e a cineastas como Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Peter Greenaway, J.M. Straub,  Frederick Wiseman e Pedro Costa, entre outros.  Perante o percurso histórico e teórico desenvolvido procurar-se-á validar, ou não, o postulado de partida de que o cinema é uma arte – se o for, quando, de que modo e em que casos.
imagem: (c)  Agnès Varda, 1956

Informações
Condições de pagamento:
50% do valor total da propina e seguro escolar: pago no ato da inscrição. SEM ESTE PAGAMENTO A INSCRIÇÃO NÃO É CONSIDERADA.
Valor remanescente da propina: pago até data anterior ao início da unidade de formação
Número mínimo de participantes: 10 (DEZ)
Número máximo de participantes: 25 (VINTE E CINCO)

A SERIAÇÃO DOS CANDIDATOS É FEITA PELA ORDEM DE PAGAMENTO DAS INSCRIÇÕES.
Certificação:
Aos  participantes será emitido:
– um certificado de frequência.
A não aprovação dos formandos pode resultar de:
  1. Assiduidade inferior a 75% do número de horas presenciais;
  2. A não apresentação do trabalho individual/ portefólio;
  3. Um valor médio de desempenho inferior a 50%.
Para efeito de confirmação de falta será considerada uma tolerância de 15 minutos.
Os formandos que reprovarem por falta de assiduidade só serão considerados para unidades de formação futuras caso haja vagas sobrantes.
O pedido de emissão de certificado é feito por escrito para formcontinua@fba.up.pt no final da unidade de formação, e a emissão está sujeita a pagamento de emolumentos no valor representado na tabela em vigor.
BIBLIOGRAFIA/ DOCUMENTAÇÃO DE APOIO:
Aumont, Jacques: “A Imagem. Olhar-Matéria-Presença”, Lisboa, Texto & Grafia, 2014.
Bazin, André: “O que é o Cinema?”, Lisboa, Livros Horizonte, 1992.
Chion, Michel: “Un art sonore, le cinéma – histoire, esthétique, poétique”. Paris, Cahiers du Cinéma, 2001.
Cousins, Mark: “Biografia do Filme”, Lisboa, Plátano, 2005.
Deleuze, Gilles: “A Imagem-Movimento”, Lisboa, Documenta, 2016;
Deleuze, Gilles: “A Imagem-Tempo”, Lisboa, Documenta, 2015.
Ellis, Jack C. e McLane, Betsy A.: “A New History of Documentary Film”, New York-London, Continuum, 2006.
Elsaesser, Thomas e Hagener, Malte: “Film Theory – An Introduction Through the Senses”, New York-London, Routledge, 2010.
Ferreira, Carlos Melo: “Cinema. Uma Arte Impura”, Porto, Afrontamento, 2011.
Ferreira; Carlos Melo: “Pedro Costa”, Porto, Afrontamento, 2018.
Kovács, András Bálint: “Screening Modernism – European Art Cinema, 1950-1980”, The University of Chicago Press, 2007.
Nagib, Lúcia: “World Cinema and the Ethics of Realism”, New York-London, Continuum, 2011.
Rancière, Jacques: “Les temps modernes – Art, temps, politique”, Paris, La fabrique éditions, 2018.


https://fbaupformacaocontinua.wordpress.com/2019/01/14/a-arte-do-cinema-2-a-edicao/

sábado, 23 de fevereiro de 2019

No interior


            Depois de “Ex-Libris: The New York Public Library” (2017), Frederick Wiseman continua a encadear obras-primas uma a seguir a outra com este "Monrovia, Indiana" (2018) sobre uma pequena cidade do interior, um filme com múltiplos motivos de interesse.
            O dispositivo agora é o do exterior, largamente tratado sobretudo na sua parte rural com que se inicia: os porcos, cujo destino não é preciso explicar ou mostrar. Mas o filme acompanha também extensivamente situações e diálogos de interior, no barbeiro, na loja maçónica (o que é uma raridade), na comissão de planeamento, nas conversas de amigos que notam as doenças primeiro, as mortes depois, no cabeleireiro, na loja de armas que são um problema num estado com alta taxa de criminalidade violenta, nas igrejas cristãs - um casamento e um funeral.
            Pela primeira vez de uma forma tão próxima e detalhada na obra do cineasta, temos acesso ao american way of life tal como ele existe e é vivido por uma comunidade pequena e rural. Quando fazem compras aqueles americanos estão a viver o american way of life, tal como estão a dar a parte que lhes cabe quando discutem uma entrada ou um banco, com conhecimento de causa.
          Os planos são em geral curtos excepto quando alguém fala. Aquela terra é mesmo assim, aquela gente vive mesmo assim, todos se conhecem uns aos outros e se estimam há muito.
                      
           Este tipo de convívio é diferente do da grande metrópole, em “In Jackson Hights” (2015), e aquilo que parece interessar o cineasta é o que aproxima as pessoas e como elas se relacionam em torno de que questões.
           Chamadas de atenção para a loja de venda de armas, que sem o dizer a não ser por escrito vai surpreender um problema grave naquela comunidade, e para o discurso final do sacerdote no funeral, dado num só plano longo apenas com contracampo no fim. Segue-se o enterro propriamente dito, numa segunda ida ao cemitério, com as pazadas de terra a serem retiradas do solo para cobrirem o caixão. Tudo muito material no fecho do filme.
          A montagem é rápida, os planos curtos mas com a duração suficiente para a construção de um discurso fílmico fluido, em que tudo é perceptível embora nada dure mais do que o estritamente necessário.
          De "Monrovia, Indiana" desprende-se um sentimento de angústia decorrente de daquela comunidade serem mostradas mais mortes do que nascimentos, o que significa a tendência para o envelhecimento da população, embora as perspectivas de futuro sejam também discutidas.
         Frederick Wiseman está aqui no pleno uso das suas capacidades criativas, excedendo-se em precisão e rigor num filme que nem sequer atinge duas horas e meia de duração. Depois de grandes filmes analíticos a síntese possível dada a dimensão do meio. Comovente e esclarecedor.

4 mulheres

    "Certan Women" de Kelly Reichardt (2016) é um filme sóbrio e minimal de um nome importante do actual cinema independente americano.
   De construção circular, dá-nos quatro mulheres, uma advogada, uma mãe de família, uma professora e uma criadora de cavalos que se junta às aulas da anterior.       
                      https://i1.wp.com/blazingminds.co.uk/wp-content/uploads/2017/01/Certain-Women-Quad-Poster.jpg?fit=1200%2C901&ssl=1
      Com argumento da cineasta baseado em novela de Maile Meloy, estabelece uma realização que se define em torno de personagens que desdramatizam ou tentam desdramatizar as situações em que se vêem envolvidas: um cliente difícil com uma tomada de refém, a cedência de material para a construção de uma casa, a professora sobrecarregada de trabalho e com longas distâncias a percorrer, a aluna que a perde de vista e a tenta reencontrar no escritório da primeira.
     Num tempo de dificuldades, com a ajuda da netflix, na produção cinematográfica americana, Kelly Reichardt continua a destacar-se com o seu cinema descomprometido mas polémico, que aposta em sentimentos elementares, essencialmente de mulheres neste caso, num filme em que está presente a melancolia. 
    Sem ter que prestar contas a ninguém, é um filme simples e simpático que conta com excelentes interpretações contenção. Inédito comercialmente em Portugal, passou esta semana na Cinemateca Portuguesa.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Discutível

     "À Porta da Eternidade"/"At Eternity's Gate" de Julian Schnabel (2018) é mais um filme sobre Vincent Van Gogh, um artista moderno cuja vida tormentosa contrasta com a sua arte luminosa e por isso  tem chamado a atenção do cinema, nomeadamente em filmes de Vincente Minnelli (1956) e Maurice Pialat (1991).
    Com tudo o que um filme com este respeito é suposto ter nomeadamente a nível de interpretações - Willem Dafoe está notável -, a nível de argumento - de Jean-Claude Carrière, Julian Schnabel e Louise Kugelberg - e a nível técnico - fotografia de Benoît Delhomme, música de Tatiana Lisovkaia e montagem de Louise Kugelberg e Julian Schnabel -, mostra desde o início o propósito de dar o ponto de vista e a subjectividade do pintor, para o que se socorre frequentemente do plano subjectivo, o que está bem, mas também do permanente movimento da câmara, supõe-se que para dar a instabilidade psíquica dele, e essa é uma opção discutível e que a meu ver funciona mal.
    Trata-se de uma pura opção do cineasta, uma opção do realizador, que pretendendo ser audaciosa retira força à personagem de quem nada nos diz que a subjectividade fosse aquela e assim influenciasse a sua criatividade turbulenta, e enfraquece o filme porque obriga o espectador a acompanhar um movimento constante e gratuito da câmara.                  
                      
   E a figura de Van Gogh merecia um outro respeito, ele que no filme diz que pinta a luz do sol, pinta para não pensar e pinta para o futuro, o que constitui uma boa síntese da sua modernidade efectivamente solar, instintiva e difícil de aceitar para o seu próprio tempo, pelos seus contemporâneos.
   Tirando esta objecção de peso, "À Porta da Eternidade" de Julian Schnabel tem um bom trabalho sobre a escala dos planos, do grande plano - e no campo contra-campo a câmara está geralmente fixa, o que está bem - ao plano geral da paisagem rural, o que porém não oculta a imprecisão do espaço, tornado fluido e escorregadio em obediência a um propósito que se compreende mas não se concorda seja levado a este extremo até porque prejudica a percepção do espectador.
   Os outros actores estão todos muito bem - Oscar Isaac como Paul Gauguin, Rupert Friend como Theo Van Gogh, Mads Mikkelsen como padre, Mathieu Amalric como dr. Paul Gachet e Emmanuelle Seigner como madame Ginoux. Mas a questão não passa por aí.
   Com a preocupação de audácia e novidade, a meu ver Julian Schnabel prejudica o seu filme mais do que o beneficia. Mas percebo que possa haver quem goste. O que tornará este filme pelo menos discutível.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Um príncipe

    Actor para Wim Wenders ("O Amigo Americano"/"Der amerikanische Freund", 1977) e Eric Rohmer ("A Marquesa d'O"/"Die Marquise von O...", 1976), Bruno Ganz (1941-2019) foi o príncipe dos actores europeus, de uma distinção característica e de uma grande qualidade, o que fez dele um preferido de todos. Regressou a Wenders em "As Asas do Desejo"/"Der Himmel über Berlin" (1987) e "Tão Longe, Tão Perto"/"In Weite Ferne, so nah!" (1993), que lhe deram fama como anjo.   
     Mas trabalhou também com Werner Herzog, Peter Handke, Claude Goretta, Alain Tanner e Theo Angelopoulos entre muitos outros. Teve depois uma carreira internacional notável em que fez de tudo, Saint-Ex, Hitler, Freud.
                    
    Sem palavras neste momento, recordo aqui que ele fez de diabo no último filme de Lars von Trier, "A Casa de Jack"/"The House Thaat Jack Built" (2018) - ver "A casa dos mortos", de 12 de Janeiro de 2019.
    Parte significativa do melhor do cinema dos últimos cinquenta anos tem a marca indelével da sua presença. Aqui lhe presto por isso a minha sentida homenagem.

3 super-heróis

  "Glass", de M. Night Shyamalan (2018), representa o regresso do cineasta depois de "A Visita"/"The Visit" (2015) e "Fragmentado"/"Split" (2016) agora com um orçamento maior, o que se nota na qualidade do filme.
    Com argumento do próprio Shyamalan, tem personagens conhecidas dos seus filmes anteriores, David Dunn/Bruce Willis e Elijah Price/Samuel L. Jackson provenientes de "O Protegido"/"Unbreakable" (2000), Kevin Wendell Crumb e os seus duplos/James McAvoy, proveniente do filme anterior, "Fragmentado". Todos são internados num hospital psiquiátrico por se julgarem super-heróis, os últimos também por crimes cometidos. E cada um deles tem o seu duplo, a mãe de Elijah, o filho de David e a vítima de Kevin.
    No hospital têm de lidar com a psiquiatra, Drª. Ellie Staple/Sarah Paulson, mas também uns com os outros. Os dois primeiros, David e Elijah, são sucessivamente operados ao cérebro e Elijah foge com o auxílio de Kevin com planos extravagantes. Mas o centro das atenções são de facto estes últimos, que em si mesmos concentram as forças do mal.
                      
     Mas há que chamar a atenção para o raciocínio de David baseado na cor, para os feixes de luz sobre Kevin, para a importância da banda desenhada americana e da sua história, para os flashes do passado de cada um dos três - o que permite mostrar excertos inéditos de "O Protegido" - mas também da própria psiquiatra sobre o presente.
    Como observa justamente Jean-Philippe Tissé nos Cahiers du Cinéma deste mês num artigo notável, "La dispute", Elijah, o que não entra no jogo de realidade de Ellie Staple, representa um princípio de imaginação, enquanto os outros dois morrem porque são vencidos pelo princípio da realidade.   
     Não sei se o final é o melhor mas é o que existe e justifica-se. O plano final, esse, é de facto magnífico. Mas o que me surpreendeu mais foi a excelente realização de M. Night Shyamalan, de regresso aos seus melhores tempos, com um tratamento notável do campo-contracampo e do sistema de vigilância vídeo instalado no hospital.
    "Glass" deve ser visto como mais um episódio de diversas narrativas, ao jeito da série B e do filme de terror, o que é bom porque é bem aproveitado. Tem fotografia de Mike Gioulakis, música de Blu Murray e Luke France Ciarrocchi e montagem de West Dylan Thordson. (Sobre Shyamalan ver "A horda", de 22 de Outubro de 2017.)