quinta-feira, 16 de maio de 2019

Três irmãos

   "Une maison sans toit"/Haus Ohne  Rach" da alemã de origem curda Soleen Yusef (2016) é um primeiro filme com interesse, um road movie sobre três irmãos que querem levar a mãe morta para o seu Curdistão iraquiano natal, para ser aí inumada junto do seu falecido marido, pai deles.
    Só um dos filhos sabe desde o início, como os seus tios e primos maternos sabem, que o pai deles tinha sido um traidor ao serviço de Sadam Hussein, com cujo regime colaborara, o que leva a família da falecida a opor-se ao projecto no próprio terreno curdo, ameaçado pelo DAESH.
                                
    Há um  taxista atrevido, desavenças e acusações mútuas entre os três irmãos, que mantêm, porém, o seu objectivo e após muitos esforços, com momentos hilariantes e absurdos à mistura acabam por convencer quem na família materna se lhe opunha e levar por diante o que pretendiam.
   Simples e bem feito, com atenta, variada e rica composição visual e também sonora, tem argumento da realizadora, fotografia de Stephan Burchardt e montagem de Hannes Bruun, sem música a não ser diegética - do leitor de cassetes do taxista. Passou na semana passada no Arte e deixa boa impressão sobre Soleen Yusef, que desde então se tem dedicado à televisão.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Novo e inventivo

   Depois de "O Polícia"/"Ha-shoter" (2011) e "The Kindergarten Teacher" (2014), que tinham chamado internacionalmente a atenção para ele, o israelita Navad Lapid estreou "Sinónimos"/"Synonymes" (2018), Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim deste ano.
    É um filme duro e estranho, de inspiração auto-biográfica, sobre um israelita que, cumprido o serviço militar em Israel, vai para Paris onde espera encontrar o que ambiciona. Durante a sequência de abertura, em que se descobre nu num apartamento deserto, Yoav/Tom Mercier encontra ou é encontrado por dois parisienses, Emile/Quentin Dolmaire e Caroline/Louise Chevillotte, que o salvam e passam a ajudá-lo.
    Emile pretende ser escritor mas não passa da página 42 do seu livro e Yoav cede-lhe pequenas histórias suas, escritas na sua terra. O primeiro fala ao segundo de um presente em que se esgotaram as perversões e ambos têm um encontro musical de sedução, notável.
   Por entre alusões à Guerra de Tróia e à extrema direita francesa armada, Yoav vai-se desembaraçando em França com o seu dicionário de sinónimos francês, sempre à procura de palavras próximas, não sem algum desajustamento que, depois da sessão fotográfica, desemboca na sua aprendizagem de francês por ter casado com Caroline e na subsequente revolta dele quando interrompe um concerto.
                                  
      O filme termina com Yoav a tentar arrombar a porta do apartamento daqueles que o tinham acolhido, onde tinha começado, não sem que antes Yaov exija de Emile a devolução das histórias que lhe oferecera.
      Tem grande inventiva visual e sonoro, com planos espantosos do protagonista a caminhar pelas ruas de Paris de cabeça baixa, com composição colorida e figurativa dos planos e com uma dinâmica que permite acompanhar o movimento constante de Yoav, o que ele diz e o que lhe acontece.
      De uma rara violência comprimida que no final explode, "Sinónimos" é um belo filme muito físico, intenso e provocador, que nos desinquieta do nosso conformismo instalado. O plongé do protagonista sozinho à noite frente a Notre Dame de Paris é muito bom e elucidativo.
      Com excelente, não-convencional e inventivo uso da linguagem do cinema, tem argumento de Navad Lapid e Haim Lapid, fotografia de Shai Goldman e montagem de Neta Braun, François Gedigier e Era Lapid a quem é dedicado, sem música que não seja dirgética. Os actores são notáveis, com destaque para Tom Mercier.
      "Sinónimos" de Navad Lapid é grande, raro cinema, em que o espectador tem de se dispor a participar para o completar na sua plenitude. Se o fizer perceberá a crítica do filme do sionismo agressivo e de um liberalismo passivo e vulnerável, por Yoav aproximados e tomados como equivalentes. O júri de Berlim, presidido por Juliette Binoche, não se enganou. Tem estreia em Portugal marcada para amanhã, quinta-feira.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Boa fama

    Jean-Claude Brisseau (1944-2019) foi um importante cineasta francês em cujos filmes a mulher, o erotismo e o sexo tiveram papel predominante, que se tornou conhecido sobretudo pela trilogia "Coisas Secretas"/"Choses secrétes" (2002), "Os Anjos Exterminadores"/"Les anges exterminateurs" e "À Aventura"/"À l'aventure". Muito apreciado pela crítica mais esclarecida, os seus filmes levantaram polémica em França.
     Senhor de um estilo cinematográfico além de uma temática próprio, soube ser irónico e crítico, o que o tornou mais interessante pois quebrou a potencial monotonia dos seus filmes. Com bom gosto, tratou temas escabrosos de uma maneira apropriada, ligando mesmo sexo e misticismo.
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      Numa obra não muito extensa, avultam "Le bruit et la fureur" (1988), "Noce blanche" (1989), "Céline" (1992), "L'ange noir" (1994) e "Les savates du bom Dieu" (2002). Os seus dois últimos filmes longos. "A Rapariga de Parte Nenhuma"/"La fille de nulle part" (2012) e "Que o Diabo nos Carregue"/"Que le diable nous emporte" (2018) culminaram da melhor maneira um percurso pessoal rico e original. 
      Havia nos seus filmes uma intensidade especial que os tornava únicos e impedia a indiferença, tornando-o um dos principais cineastas franceses do seu tempo, com repercussão internacional.. Aqui o recordo sentidamente na hora da sua partida.

sábado, 11 de maio de 2019

Hegemónico

   "Vingadores: Endgame"/"Avengers: Endgame" de Anthony e Joe Russo (2019), que depois de dois "Capitão América" é o segundo "Vingadores" que dirigem, com argumento de Christopher Markus e Stephen McFelly sobre personagens criadas por Stan Lee e Jack Kirby e banda desenhada de Jim Starlin, novo record de bilheteira no fim de semana da sua estreia na América, é um grande espectáculo fastidioso e cansativo e uma nulidade como cinema. Eu explico-me.
    Sempre fui avesso ao universo dos super-heróis da Marvel, de que este é o 22º filme, que sei ter grande número de adeptos em especial entre os mais novos, Compreendo que seja importante para o imaginário americano, estreitamente vigiado, e reconheço o interesse da articulação entre banda desenhada e cinema, mas não vou mais longe do que isso.
    Sem qualquer apoio científico, de que obviamente não precisa, o filme recupera o hoje clássico "Regresso ao Futuro"/"Back to the Future" de Robert Zemekis (1985, 1989, 1990) com a ideia da viagem no tempo até um ponto a partir do qual se encontrariam duas realidades diferentes. A ontologia digital do cinema de que falam Thomas Elsaesser e Malte Hagener em "Film Theory" (2010) encontra aqui o seu apogeu.
                                     
       Com miséria de ideias e miséria de imagens, empastadas e caóticas, e de música pomposa, só se entende como propaganda interna e internacional da América mas só convence quem estiver convencido já, o que não é de maneira nenhuma o meu caso. Embora perceba que mais do que nunca os Estados Unidos precisam de se mostrar como vencedores imbatíveis.
     Ressalvo a destruição em cinzas arrastadas pelo vento do monstruoso vilão no final e a presença, dois ou três minutos de Tilda Swinton careca. Mas vejam para perceberem completamente a indigência a que, sempre com grande espectáculo, chegou na actualidade o cinema americano, já não de Hollywood mas de Silicon Valley. 
      Tem potencial lúdico sobretudo junto da juventude que é o que na sociedade do entertainment mais interessa. Mas o cinema americano e não só vai passar a ser como isto, mero divertimento muito rentável contra quaisquer outras considerações de índole cultural ou artística. Até porque para os americanos isto é arte e cultura americana, evidentemente. 
      Hegemónico, assim o cinema americano continua a dominar o mercado do cinema e já não a sua qualidade, como no passado chegou a acontecer. Detestável e indispensável, como muita coisa que acontece nos nossos dias.

Pensar duro

     O meu Claudio Magris é um grande escritor que, enfrentando os temas mais difíceis no ensaio e na ficção tem desenvolvido uma obra extraordinária. Triestino, ele tem sabido acolher e prolongar Italo Svevo com mestria, conhecimento, escrita elaborada e densa.
    Quando envereda pela ficção vai ao encontro dos lados mais obscuros e violentos da história para os trazer à luz da actualidade, como acontece em "Um outro Mar", "E Então Vai Entender", "Às Cegas" e "Uma causa improcedente", também ensaio histórico.
     No ensaio ele tem publicado livros, como "A História Não Acabou" e "Alfabetos", que reúnem o que escreveu para a imprensa italiana e outros textos de circunstância em que atinge extremos de completude e profundidade em termos sempre muito bem informados. O que desenvolve nos textos mais curtos sobre o quotidiano em "Instantâneos". 
     Por exemplo em "Alfabetos" tem palavras que são plenamente actuais sobre o século XX e o nosso tempo, nomeadamente sobre o "nacionalismo" (págs. 288-295), que se destacam num panorama completo sobre a europa-central e de sudeste, sobre escritores e literaturas como a praguense e a norueguesa em que revela inteiro conhecimento de causa.
                                         Danúbio        
      Grande escritor e grande pensador que é, não se queda pelos lugares-comuns sobre temas e autores mais conhecidos, antes entra onde a vida doeu e dói sem complacência nem compromissos que não sejam consigo próprio e com a verdade. 
     Editado em português pela Quetzal, Claudio Magris é um grande nome da literatura mas também da teoria da literatura e da cultura, hoje em dia indispensável por a partir do passado nos permitir entender de maneira meridianamente clara o presente.
      Por muito que se divague sobre a originalidade do presente, é preciso conhecer a história sem facciosismo, como ela decorreu e os seus acontecimentos mais importantes se enquistaram, enredaram e expandiram de forma ofensiva e desumana. Será insuficiente e errado pensar o presente sem essa informação desenvolvida da história geral e da história da cultura.
                       claudio-magris
     Sem minimizar nada, ele ergue-se a toda a sua dimensão de escritor nas saborosas e judiciosas crónicas improvisadas sobre o presente, o quotidiano actual, e nas obras de ficção em que atinge um fulgor incomparável.
     Mas a sua obra-prima é "Danúbio", o livro que o tornou mais conhecido e é um dos mais importantes do nosso tempo. Por aí em especial passa um saber da escrita e da literatura raro e de grande densidade.
    Agora torna-se necessário entender plenamente a dimensão filosófica e crítica do seu pensamento. Um grande escritor pensa e faz-nos pensar como leitores, por muito duro que  seja o seu pensamento como é o caso de Claudio Magris. O mais é o folclore literário dos best-sellers internacionais, de que ele está completamente afastado e eu também.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Cumprir as regras

     Forçar a nota narrativamente sem forçar a mão esteticamente é o que faz Gus Van Sant no seu último filme, "O Mar de Árvores"/"The Sea of Trees" (2015), um melodrama forçado e esforçado, muito artificial para pretender ser mais humano.
    Alterna o passado do casal com o presente do marido, Arthur Brennan/Matthew McConaughay que procura o melhor sítio para morrer em Aokigahara, uma densa floresta no Japão na proximidade do Monte Fuji. O japonês que aí encontra, que não sabe o caminho de saída e ele procura salvar, Takumi Nakemura/Ken Watanabe, diz-lhe estar no purgatório e que cada uma das flores que se abrem representa uma alma que chegou ao seu destino. 
                      Matthew McConaughey and Ken Watanabe in The Sea of Trees, Gus Van Sant latest full length feature film.
 
Even the best can sometimes get it wrong.  The Sea of Trees will no doubt be seen as a surprising glitch in Gus Van Sant’s otherwise exquisite contribution to contemporary cinema, like a slightly bland and warped sidestep. In a story about depressed men, Matthew McConaughey and Ken Watanabe, immerged in a forest at the foot of Mount Fuji, talk about their lives in hushed tones, about the regrets and the time gone by too fast, all beneath a constant drone of pompous violins and a sickly syrup that seems to drip over inch of the screen. The film, not particularly touching and never quite as spectral as it would like to be, disappointed both the willingly finicky spectators at the 2015 Cannes Film Festival and his die-hard fans, us included.
 
A few years earlier with Gerry (2002), Gus Van Sant was already filming in his static, dead-end way with people searching for themselves, playing games of hide and seek with death. But that was done with infinitely more grace and risk. At a beachside press conference in Cannes he briefly and placidly noted the difference between the two films, “In The Sea of Trees the heroes are more contemplative than lost. They talk about their life, while in Gerry they disappear completely into the landscape…” The director of Will Hunting, now 63, is no longer of an age where he needs to justify his choices. 
       No passado, a mulher dele, Joan/Naomi Watts, alcoólica, é operada a um tumor na cabeça que se revela benigno... mas morre logo a seguir num acidente de viação, para lhe reaparecer enigmaticamente convocada pela flor amarelo Inverno de que o japonês tinha falado sem ser percebido por Arthur e no lugar onde ele o tinha deixado, debaixo do seu casaco.
      Apesar da ostensiva alusão japonesa, não é Kenji Mizoguchi nem nada que se pareça, concentrando no seu final um simbolismo forçado, "para americano ver" mas que, dada a construção do filme, com boa vontade até funciona. 
       Sem recorrer às figuras de estilo que tornaram o cineasta conhecido desde "Gerry" (2002), tem uma pretensão excessiva e forçada à falta de melhor. Mas mesmo o seu extremar do artifício joga com os lugares-comuns do melodrama nos termos da sua complexidade, o que acaba por o justificar.
     Tem argumento de Chris Sparling, fotografia de Kasper Tuxen, música de Mason Bates e montagem de Pietro Scalia. Correcta, a realização é de Gus Van Sant. E é um filme do realizador de "Elephant" (2003), que nem sequer lhe fica mal e por isso merece ser visto.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Bem visto

    Com argumento de Carlos Saboga, "O Caderno Negro"/"Le cahier noir" de Valeria Sarmiento (2018) baseia-se em "O Caderno Negro do Padre Dinis", de Camilo Castelo Branco", continuação dos seus "Mistérios de Lisboa" que Raoul Ruiz fez em filme (2010) e em mini-série televisiva (2011).
   Centrado numa criança, Sebastien, com duas mães, Laura/Lou de Laäge e Suzanne de Monfort/Jenna Thiam, nenhuma das quais a mãe verdadeira dele, concentra-se na primeira e no seu percurso em tempos de Revolução Francesa na perseguição dele, entretanto confiado à segunda, entre Roma e Inglaterra.
     Há um pai cardeal, Rufo/Stanislas Merhar, e uma mãe desaparecida num esquema conhecido do romancista português. O filme começa mesmo com dois envenenamentos. Cruzando-se com personagens verídicas da Revolução Francesa, preserva muito bem o mistério sobre o conteúdo do "caderno negro" na sua construção leve e elíptica, que integra porém a paternidade da protagonista. 
                       
     Decidido "O Caderno Negro" segue sempre em frente salvo um flash back justificado, sem  demoras nem atalhos cumprindo um percurso narrativo que cativa e prende nos seus mistérios e nas suas reviravoltas, o que não impede a não uniforme estética do filme, que se compreende.
     Segue o rumo do filme anterior com inspiração e leveza, sem a grande complexidade formal dele mas com muito boa gestão da complexidade narrativa que tem por uma realização com múltiplas referências, até no cinema português, mais que competente sábia, o que ressalta logo da escolha da redução em vez do aumento da narrativa e dos meios de a desenvolver.
     Prolongando a inspiração ruiziana dos "Mistérios de Lisboa", em que aliás participou também Valeria Saemiento cujo filme anterior foi "Linhas de Wellington" (2012), este  um belo filme sobre a complexidadee da realidade e dos seus mecanismos, rodado em Lisboa e nas suas proximidades, com fotografia de Acácio de Almeida, música de Jorge Arriagada e montagem de Luca Alverdi.