sábado, 18 de maio de 2019

Das primeiras

   Doris Day (1922-2019) contracenava com Clark Gable em "Amor de Jornalista"/"Teacher's Pet" de George Seaton (1958), que foi um dos primeiros filmes que vi e não mais esqueci.
                          doris day james stewart o homem que sabia demais
    Especializou-se na comédia romântica ligeira dos anos 50 e 60 mas Hitchcock escolheu-a para "O Homem Que Sabia Demais"/"The Man That Knew Too Much" (1956), remake de um seu filme inglês de 1934, em que contracenava com James Stewart e cantava "Que sera sera". 
   Bonita e expressiva, foi também cantora popular, que foi como começou em 1938 antes de chegar ao cinema em 1948, de que se retirou em 1968 para se dedicar à televisão. Guardo dela uma boa recordação.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

O jogo do galo

    "Clash"/"Eshtebak", a segunda longa-metragem do egípcio Mohamed Diab (2016), é um filme terrível e sufocante passado em 2013 com presos no interior de um camião, decorriam os confrontos entre a Irmandade Muçulmana e os militares no Egpto.
    Tudo começa com a prisão de dois jornalistas americanos mas depois vão-se-lhes juntando membros e não membros daquela irmandade. Num espaço reduzido, em tentativa de diálogo com os militares, a situação dos presos torna-se penosa e aflitiva.         
                       
    Uma criança descobre numa parede os riscos do jogo do galo, o que contribui para amenizar entre vizinhos e conhecidos que nem sempre se dão bem. Entre os presos há duas mulheres, uma enfermeira e a outra mais jovem, religiosa.
    Sem espaço para o qual se expandir, o filme concentra-se no interior, para o final em movimento, e nas esperanças efémeras de libertação. Tem argumento de Khaled Diab e Mohamed Diab, fotografia de Ahmed Gabr, música de Khaled Dagher e montagem de Ahmed Hafez. A realização, muito boa, explora o espaço concentracionário sem dele sair e os actores são excelentes.
    É um bom filme dramático, violento, não aconselhável e pessoas sensíveis e passou na noite de ontem no Arte.

Três irmãos

   "Une maison sans toit"/Haus Ohne  Rach" da alemã de origem curda Soleen Yusef (2016) é um primeiro filme com interesse, um road movie sobre três irmãos que querem levar a mãe morta para o seu Curdistão iraquiano natal, para ser aí inumada junto do seu falecido marido, pai deles.
    Só um dos filhos sabe desde o início, como os seus tios e primos maternos sabem, que o pai deles tinha sido um traidor ao serviço de Sadam Hussein, com cujo regime colaborara, o que leva a família da falecida a opor-se ao projecto no próprio terreno curdo, ameaçado pelo DAESH.
                                
    Há um  taxista atrevido, desavenças e acusações mútuas entre os três irmãos, que mantêm, porém, o seu objectivo e após muitos esforços, com momentos hilariantes e absurdos à mistura acabam por convencer quem na família materna se lhe opunha e levar por diante o que pretendiam.
   Simples e bem feito, com atenta, variada e rica composição visual e também sonora, tem argumento da realizadora, fotografia de Stephan Burchardt e montagem de Hannes Bruun, sem música a não ser diegética - do leitor de cassetes do taxista. Passou na semana passada no Arte e deixa boa impressão sobre Soleen Yusef, que desde então se tem dedicado à televisão.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Novo e inventivo

   Depois de "O Polícia"/"Ha-shoter" (2011) e "The Kindergarten Teacher" (2014), que tinham chamado internacionalmente a atenção para ele, o israelita Navad Lapid estreou "Sinónimos"/"Synonymes" (2018), Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim deste ano.
    É um filme duro e estranho, de inspiração auto-biográfica, sobre um israelita que, cumprido o serviço militar em Israel, vai para Paris onde espera encontrar o que ambiciona. Durante a sequência de abertura, em que se descobre nu num apartamento deserto, Yoav/Tom Mercier encontra ou é encontrado por dois parisienses, Emile/Quentin Dolmaire e Caroline/Louise Chevillotte, que o salvam e passam a ajudá-lo.
    Emile pretende ser escritor mas não passa da página 42 do seu livro e Yoav cede-lhe pequenas histórias suas, escritas na sua terra. O primeiro fala ao segundo de um presente em que se esgotaram as perversões e ambos têm um encontro musical de sedução, notável.
   Por entre alusões à Guerra de Tróia e à extrema direita francesa armada, Yoav vai-se desembaraçando em França com o seu dicionário de sinónimos francês, sempre à procura de palavras próximas, não sem algum desajustamento que, depois da sessão fotográfica, desemboca na sua aprendizagem de francês por ter casado com Caroline e na subsequente revolta dele quando interrompe um concerto.
                                  
      O filme termina com Yoav a tentar arrombar a porta do apartamento daqueles que o tinham acolhido, onde tinha começado, não sem que antes Yaov exija de Emile a devolução das histórias que lhe oferecera.
      Tem grande inventiva visual e sonoro, com planos espantosos do protagonista a caminhar pelas ruas de Paris de cabeça baixa, com composição colorida e figurativa dos planos e com uma dinâmica que permite acompanhar o movimento constante de Yoav, o que ele diz e o que lhe acontece.
      De uma rara violência comprimida que no final explode, "Sinónimos" é um belo filme muito físico, intenso e provocador, que nos desinquieta do nosso conformismo instalado. O plongé do protagonista sozinho à noite frente a Notre Dame de Paris é muito bom e elucidativo.
      Com excelente, não-convencional e inventivo uso da linguagem do cinema, tem argumento de Navad Lapid e Haim Lapid, fotografia de Shai Goldman e montagem de Neta Braun, François Gedigier e Era Lapid a quem é dedicado, sem música que não seja dirgética. Os actores são notáveis, com destaque para Tom Mercier.
      "Sinónimos" de Navad Lapid é grande, raro cinema, em que o espectador tem de se dispor a participar para o completar na sua plenitude. Se o fizer perceberá a crítica do filme do sionismo agressivo e de um liberalismo passivo e vulnerável, por Yoav aproximados e tomados como equivalentes. O júri de Berlim, presidido por Juliette Binoche, não se enganou. Tem estreia em Portugal marcada para amanhã, quinta-feira.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Boa fama

    Jean-Claude Brisseau (1944-2019) foi um importante cineasta francês em cujos filmes a mulher, o erotismo e o sexo tiveram papel predominante, que se tornou conhecido sobretudo pela trilogia "Coisas Secretas"/"Choses secrétes" (2002), "Os Anjos Exterminadores"/"Les anges exterminateurs" e "À Aventura"/"À l'aventure". Muito apreciado pela crítica mais esclarecida, os seus filmes levantaram polémica em França.
     Senhor de um estilo cinematográfico além de uma temática próprio, soube ser irónico e crítico, o que o tornou mais interessante pois quebrou a potencial monotonia dos seus filmes. Com bom gosto, tratou temas escabrosos de uma maneira apropriada, ligando mesmo sexo e misticismo.
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      Numa obra não muito extensa, avultam "Le bruit et la fureur" (1988), "Noce blanche" (1989), "Céline" (1992), "L'ange noir" (1994) e "Les savates du bom Dieu" (2002). Os seus dois últimos filmes longos. "A Rapariga de Parte Nenhuma"/"La fille de nulle part" (2012) e "Que o Diabo nos Carregue"/"Que le diable nous emporte" (2018) culminaram da melhor maneira um percurso pessoal rico e original. 
      Havia nos seus filmes uma intensidade especial que os tornava únicos e impedia a indiferença, tornando-o um dos principais cineastas franceses do seu tempo, com repercussão internacional.. Aqui o recordo sentidamente na hora da sua partida.

sábado, 11 de maio de 2019

Hegemónico

   "Vingadores: Endgame"/"Avengers: Endgame" de Anthony e Joe Russo (2019), que depois de dois "Capitão América" é o segundo "Vingadores" que dirigem, com argumento de Christopher Markus e Stephen McFelly sobre personagens criadas por Stan Lee e Jack Kirby e banda desenhada de Jim Starlin, novo record de bilheteira no fim de semana da sua estreia na América, é um grande espectáculo fastidioso e cansativo e uma nulidade como cinema. Eu explico-me.
    Sempre fui avesso ao universo dos super-heróis da Marvel, de que este é o 22º filme, que sei ter grande número de adeptos em especial entre os mais novos, Compreendo que seja importante para o imaginário americano, estreitamente vigiado, e reconheço o interesse da articulação entre banda desenhada e cinema, mas não vou mais longe do que isso.
    Sem qualquer apoio científico, de que obviamente não precisa, o filme recupera o hoje clássico "Regresso ao Futuro"/"Back to the Future" de Robert Zemekis (1985, 1989, 1990) com a ideia da viagem no tempo até um ponto a partir do qual se encontrariam duas realidades diferentes. A ontologia digital do cinema de que falam Thomas Elsaesser e Malte Hagener em "Film Theory" (2010) encontra aqui o seu apogeu.
                                     
       Com miséria de ideias e miséria de imagens, empastadas e caóticas, e de música pomposa, só se entende como propaganda interna e internacional da América mas só convence quem estiver convencido já, o que não é de maneira nenhuma o meu caso. Embora perceba que mais do que nunca os Estados Unidos precisam de se mostrar como vencedores imbatíveis.
     Ressalvo a destruição em cinzas arrastadas pelo vento do monstruoso vilão no final e a presença, dois ou três minutos de Tilda Swinton careca. Mas vejam para perceberem completamente a indigência a que, sempre com grande espectáculo, chegou na actualidade o cinema americano, já não de Hollywood mas de Silicon Valley. 
      Tem potencial lúdico sobretudo junto da juventude que é o que na sociedade do entertainment mais interessa. Mas o cinema americano e não só vai passar a ser como isto, mero divertimento muito rentável contra quaisquer outras considerações de índole cultural ou artística. Até porque para os americanos isto é arte e cultura americana, evidentemente. 
      Hegemónico, assim o cinema americano continua a dominar o mercado do cinema e já não a sua qualidade, como no passado chegou a acontecer. Detestável e indispensável, como muita coisa que acontece nos nossos dias.

Pensar duro

     O meu Claudio Magris é um grande escritor que, enfrentando os temas mais difíceis no ensaio e na ficção tem desenvolvido uma obra extraordinária. Triestino, ele tem sabido acolher e prolongar Italo Svevo com mestria, conhecimento, escrita elaborada e densa.
    Quando envereda pela ficção vai ao encontro dos lados mais obscuros e violentos da história para os trazer à luz da actualidade, como acontece em "Um outro Mar", "E Então Vai Entender", "Às Cegas" e "Uma causa improcedente", também ensaio histórico.
     No ensaio ele tem publicado livros, como "A História Não Acabou" e "Alfabetos", que reúnem o que escreveu para a imprensa italiana e outros textos de circunstância em que atinge extremos de completude e profundidade em termos sempre muito bem informados. O que desenvolve nos textos mais curtos sobre o quotidiano em "Instantâneos". 
     Por exemplo em "Alfabetos" tem palavras que são plenamente actuais sobre o século XX e o nosso tempo, nomeadamente sobre o "nacionalismo" (págs. 288-295), que se destacam num panorama completo sobre a europa-central e de sudeste, sobre escritores e literaturas como a praguense e a norueguesa em que revela inteiro conhecimento de causa.
                                         Danúbio        
      Grande escritor e grande pensador que é, não se queda pelos lugares-comuns sobre temas e autores mais conhecidos, antes entra onde a vida doeu e dói sem complacência nem compromissos que não sejam consigo próprio e com a verdade. 
     Editado em português pela Quetzal, Claudio Magris é um grande nome da literatura mas também da teoria da literatura e da cultura, hoje em dia indispensável por a partir do passado nos permitir entender de maneira meridianamente clara o presente.
      Por muito que se divague sobre a originalidade do presente, é preciso conhecer a história sem facciosismo, como ela decorreu e os seus acontecimentos mais importantes se enquistaram, enredaram e expandiram de forma ofensiva e desumana. Será insuficiente e errado pensar o presente sem essa informação desenvolvida da história geral e da história da cultura.
                       claudio-magris
     Sem minimizar nada, ele ergue-se a toda a sua dimensão de escritor nas saborosas e judiciosas crónicas improvisadas sobre o presente, o quotidiano actual, e nas obras de ficção em que atinge um fulgor incomparável.
     Mas a sua obra-prima é "Danúbio", o livro que o tornou mais conhecido e é um dos mais importantes do nosso tempo. Por aí em especial passa um saber da escrita e da literatura raro e de grande densidade.
    Agora torna-se necessário entender plenamente a dimensão filosófica e crítica do seu pensamento. Um grande escritor pensa e faz-nos pensar como leitores, por muito duro que  seja o seu pensamento como é o caso de Claudio Magris. O mais é o folclore literário dos best-sellers internacionais, de que ele está completamente afastado e eu também.