sexta-feira, 31 de maio de 2019

Só contra todos

    "L'idiot"/"Durak" de Yuriy Bykov  (2014) é um filme que enfrenta a corrução numa pequena cidade russa por intermédio de Dmitri/Artyom Bystrov, um canalizador que estuda e receia que um prédio-dormitório esteja para ruir.
    Pede o apoio da presidente da câmara e das autoridades locais que, primeiro perturbadas, acabam por revelar a negligência daquele caso e o aproveitamento pessoal, entre outros, dos meios disponibilizados para reparar o dito edifício. Por isso nada fazem naquela emergência a não ser queimar os papéis que os comprometem.             
                     
    Dmitri é teimoso e insiste na evacuação do edifício mesmo depois do ajuste de contas local e de abandonar a família. Porque, se tiver razão, estarão em causa 800 vidas, o que ele considera importante e justificar a sua acção.
    A corrupção, que parece ser um problema que afecta a Rússia actual e uma boa parte do mundo contemporâneo, é aqui deslindada de forma clara e frontal, sem paliativos ou desculpas, por um pequeno homem que acaba por pôr em causa tudo e todos, para seu próprio mal afinal pois ninguém acredita no seu alerta e o prédio em causa não vem abaixo - daí o título dostoievskiano. 
   Também argumentista, autor da música e da montagem, Yuriy Bykov dá muito bem conta de si, com um realização contrastada e dinâmica que vai, por exemplo, do plano fixo longo ao travelling longo com toda a pertinência e equilibra dramaticamente o filme. A fotografia é de Kirill Klepalov. Não será, pois, um acaso que se fale do cineasta a propósito de um eventual cinema novo russo nos nossos dias.
    Passou esta semana no Arte.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Talvez escrever

   "Em Chamas"/"Burning" do sul coreano Lee Chang-dong (2018), que já nos dera entre outros "Poesia"/"Shi" (2010), é um filme muito bom, bem elaborado narrativamente e bem construído cinematograficamente. Tem argumento de Jungui Oh e do cineasta baseado em conto de Haruki Murakami.
   Com uma encenação em largura e em profundidade, o filme acompanha Lee song-so/Yoo Ah-in que se prende a Shin Hae-mi/Jeon Jong-seo, que conhecera na infância, antes desta viajar para África, para logo a seguir ao regresso a perder em favor de Ben/Steven Yeun. Fazendo que avança sem avançar, andando em círculo, abre a partir do sonho do protagonista, com as chamas que Ben dissera atear a estufas e o subsequente desparecimento de Shin Hae-mi.
                      
    Escritor sem livro que quer seguir William Faulkner, Lee song-so escreve antes do final violento que fora precedido pelo regresso inesperado da sua mãe e pelos objectos de Shin Hae-mi em casa de Ben, incluindo o gato, Bolha, que não era visível em casa dela e ali surge tal como o relógio cor-de-rosa dela.
    Feito de silêncios e elipses, tem uma música não indiferente que, sem cair na sopa audiovisual de hoje, permanentemente comenta, sublinha, contrasta em contraponto e inventa.
    A fotografia é de Hong Kyung-pyo, a música do conhecido Mowg (Lee Sung-hyun) e a montagem de Kim Da-won e Kim Hyun. A realização é sempre serena e segura, centrada no que é importante, mesmo se vazio, sem esquecer o fora de campo.
   Trata-se de mais um filme muito bom, sério, misterioso e profundo, que há que preencher nos seus enigmas e nas suas elipses, de um cineasta que merece a nossa melhor atenção. Prémio da melhor realização do Cinema Asiático 2018.

domingo, 26 de maio de 2019

Rejeitada

  "Uma Mulher Doce"/"Krotkaya", de Sergei Loznitsa (2017) é um bom filme do também documentarista ucraniano, diferente dos anteriores do cineasta de que contudo não desmerece.
   Uma mulher, doce/Vasilina Makovtseva, numa pequena vila russa recebe devolvida a encomenda que enviou por correio para o marido, preso na Sibéria. Sem explicações sobre tal devolução.
   Resolve então dirigir-se ao local em que ele se encontra para saber o que se passa. Desde o início, na estação dos correios e no autocarro, percebe-se o mal-estar reinante. Depois de uma viagem de comboio, a mulher doce adormece numa estação, sono de que é despertada para um percurso tormentoso em que se depara com recusa atrás de recusa.     
                       Sergei Loznitsa: ‘A Rússia não tem passado nem futuro, apenas um presente infinito’
  Depois de encontrar a defensora dos direitos humanos e de assistir do exterior a uma cerimónia de homenagem ao director da prisão, quando tentavam violá-la ela é acordada de novo na estação onde adormecera do que afinal tinha sido um sonho durante o sono. 
  Mesmo se em parte sonhado, o retrato da Rússia actual é duro e impiedoso, concentrando em si os pesadelos do passado, do presente e do futuro na descrição do percurso kafkiano da protagonista. E terá sido efectivamente sonho?
  Com o rigor estético a que Loznitsa nos habituou, geométrico antes da abertura do sonho, caótico depois, e grande importância do fora de campo é mais um bom filme dele, com fotografia de Oleg Mutu e montagem de Danielius Kokanauskis, sem música que não seja a diegética. Um filme moderno que segue em frente sem ceder em nada.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Eufórico

     Depois de "Spring Breakers: Viagem de Finalistas"7"Spring Breakers" que tinha chamado a atenção para ele, Harmony Korine realizou "The Beach Bum: A Vida Numa Boa"/"The Beach Bum" (2019) que se pretende comédia moralista. Com o seu habitual euforismo, o resultado é fraco.
     No silly state da Florida, um poeta de má vida e pobre, Moondog/Matthew McConaughey, casado com uma mulher rica, Minnie/Isla Fisher, perde esta num acidente de viação. No testamento ela deixa-lhe uma fortuna no caso de ele publicar um romance de sucesso.
                                  The Beach Bum Photo
        Com a filha, Heather/Stefania LaVie Owen a querer que ele se submeta a desintoxicação e reabilitação, ele foge para regressar à boa vida com o amigo Lingerie/Snoop Dog e continuar a escrever. Até que um livro de poemas seu é premiado.
        Tratada em tom de comédia, a ideia do poeta fora do sistema e contra ele é boa e funciona limitadamente como parábola num filme muito silly. Obra de adolescente, que o realizador continua a parecer.
       Contando com argumento de Harmony Korine, fotografia de Benoit Debie, música de John Debney e montagem de Douglas Crise, está longe de convencer mas percebe-se no actual momento político americano, em que vale tudo. O cineasta precisa de crescer e deixar filmes frágeis embora bem intencionados para fazer coisas mais sérias e sólidas, pois mesmo como realizador ainda não ultrapassou a incipiência satisfeita, aliás com muitos fãs sobretudo adolescentes.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Pura beleza

    "Três Rostos"/"Se rokh" é o mais recente filme de Jafar Panahi (2018), um realizador iraniano impedido de sair do seu país que mesmo assim tem conseguido continuar a trabalhar e a fazer os seus filmes saírem para o mundo. O que é muito bom porque nos permite conhecê-los.
    Aqui uma jovem que quer estudar no conservatório em Teerão para ser actriz, Marziyeh Rezaei, abre o filme com um apelo dramático num vídeo enviado por telemóvel ao cineasta. Vai ser a companheira dele, Bahnaz Jafari, actriz muito conhecida, a insistir em que partam na demanda da autora do apelo desesperado.
                     Trailer português do filme 3 Rostos
     O filme vai descrever o percurso de carro até aí chegarem, cheio de episódios pitorescos, alguns dramáticos, como o dos camponeses que se afastam quando percebem que não vêm ajudá-los, outros caricatos, como o do touro das bolas dde ouro. Já na ponta final o encontro com a rapariga por intermédio da amiga dela Maedeh Erteghaei, juntamente com a referência à velha actriz e cantora de antes da revolução que vive isolada e será, vista à distância enquanto pinta, o terceiro rosto, invisível.
    Com grande sobriedade, o cineasta segue um caminho de inspiração em Abbas Kiarostami - o do suicídio, o do percurso, o do enquadramento com aberturas rasgadas nas casas -, inteiramente transformada mas reconhecível na própria simplicidade e subtileza do filme, que termina também ele em plano fixo sobre a estrada serpenteante.
    Tem argumento do cineasta e Nader Saeinar distinguido em Cannes 2018, fotografia de Amin Jafari e montagem de Mastaneh Mohajer e Panah Panahi. Um grande filme com tratamento diferenciado da imagem, que inclui reflexos, cenas nocturnas e uma ou outra desfocagem do fundo, que não dispensa uma referência à situação do cineasta no seu país. Aqui  o recomendo.

sábado, 18 de maio de 2019

Das primeiras

   Doris Day (1922-2019) contracenava com Clark Gable em "Amor de Jornalista"/"Teacher's Pet" de George Seaton (1958), que foi um dos primeiros filmes que vi e não mais esqueci.
                          doris day james stewart o homem que sabia demais
    Especializou-se na comédia romântica ligeira dos anos 50 e 60 mas Hitchcock escolheu-a para "O Homem Que Sabia Demais"/"The Man That Knew Too Much" (1956), remake de um seu filme inglês de 1934, em que contracenava com James Stewart e cantava "Que sera sera". 
   Bonita e expressiva, foi também cantora popular, que foi como começou em 1938 antes de chegar ao cinema em 1948, de que se retirou em 1968 para se dedicar à televisão. Guardo dela uma boa recordação.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

O jogo do galo

    "Clash"/"Eshtebak", a segunda longa-metragem do egípcio Mohamed Diab (2016), é um filme terrível e sufocante passado em 2013 com presos no interior de um camião, decorriam os confrontos entre a Irmandade Muçulmana e os militares no Egpto.
    Tudo começa com a prisão de dois jornalistas americanos mas depois vão-se-lhes juntando membros e não membros daquela irmandade. Num espaço reduzido, em tentativa de diálogo com os militares, a situação dos presos torna-se penosa e aflitiva.         
                       
    Uma criança descobre numa parede os riscos do jogo do galo, o que contribui para amenizar entre vizinhos e conhecidos que nem sempre se dão bem. Entre os presos há duas mulheres, uma enfermeira e a outra mais jovem, religiosa.
    Sem espaço para o qual se expandir, o filme concentra-se no interior, para o final em movimento, e nas esperanças efémeras de libertação. Tem argumento de Khaled Diab e Mohamed Diab, fotografia de Ahmed Gabr, música de Khaled Dagher e montagem de Ahmed Hafez. A realização, muito boa, explora o espaço concentracionário sem dele sair e os actores são excelentes.
    É um bom filme dramático, violento, não aconselhável e pessoas sensíveis e passou na noite de ontem no Arte.