segunda-feira, 17 de junho de 2019

Animação portuguesa

    "Tio Tomás, A Contabilidade dos Dias" é uma curta-metragem da portuguesa Regina Pessoa (2019), agora distinguida com o Prémio do Júri e o da banda sonora em curta-metragem no Festival de Annecy, em França.
    No melhor estilo da realizadora, responsável por "História Trágica com Final Feliz" (2006) e  "Kali, O Pequeno Vampiro" (2002), refere-se ao seu tio, que foi contabilista.       
                       Tio Tomas
   Com linhas dinâmicas, que ora são rectas ora se encurvam em espiral, e uma música muito boa, é um belíssimo e também sentido filme que utiliza o preto e branco e a cor..
   Com Regina Pessoa a animação portuguesa continua no seu melhor.

Voltar ao princípio

   "Foxtrot" é a segunda longa-metragem de ficção do israelita Samuel Maoz (2017), depois de "Líbano"/"Lebanon" (2009), como este um filme muito bom e chocante apesar da sua simplicidade narrativa, que não formal.
    Os primeiros 40 minuitos passam-se entre a chegada ao casal Feldman, Michael/Lior Ashkenazi e Daphna/Sarah Adler, da notícia da morte do seu filho, Jonathan/Yonaton Shiray, a cumprir o servição militar, e a chegada posterior do seu desmentido: quem tinha morrido era outro com o mesmo nome. Logo aí a posição superior da câmara, em plongé, e a sua mobilidade dão conta do esmagamento e da desorientação do pai.                
                       
    No segmento seguinte acompanhamos Jonathan na barreira que vigia no deserto, as conversas sobre a guerra e o passado dele com os seus camaradas, até tudo chegar a um acto precipitado de violência  No terceiro segmento, mais curto, o casal apresenta-se conformado com a morte do filho, que surge no epílogo.
    Com ironia e subtileza, o filme constrói o seu mistério e resolve-o, com a sugestão dos passos de dança. Mantendo a agilidade de câmara apropriada, que não impede que ela se detenha em planos longos, "Foxtrot" não abandona a ideia de fluidez da passagem do tempo e de desnorte que acompanha as suas personagens. E inclui mesmo uma notável cena de animação.
    Com argumento do cineasta, tem fotografia de Giora Bejach, música escassa e muito boa de Ophir Leibovitch e Amat Poznansky e montagem de Arik Lahav-Leibovich e Guy Nemesh. .

quarta-feira, 12 de junho de 2019

As contas da morte

  Mrinal Sen (1923-2018) foi um importante cineasta indiano do século XX, autor de uma obra extensa e pessoal que rivalizou com Satyajit Ray (1921-1992) e Ritwik Ghatak (1925-1976) no cinema no seu entendimento ocidental, distante do de Bollywood.
  Com uma obra marcante iniciada em 1955 e centrada em Bengala, combativa e portadora de traços narrativos e estéticos próprios, não trabalhava desde 2002.
                      Mrinal Sen's death marks the passing of a golden generation of Bengali filmmakers that also included Satyajit Ray and Ritwik Ghatak.
    Dominique Noguez (1942-2019) foi um escritor, crítico e historiador do cinema que dedicou especial atenção ao cinema experimental e ao cinema underground, que tirou do desconhecimento e da invisibilidade com estudos de referência.
    Seymour Cassel (1935-2019) foi um actor de cinema e televisão americano com uma carreira longa, que ficou famoso pela sua participação nos filmes do cineasta independente John Cassavetes (1929-1989), cujo grupo de actores permanentes integrou com distinção.
                      Minnie and Moskowitz 1971
   Ruben de Carvalho (1944-2019) foi um lutador anti-fascista, várias vezes preso pela PIDE. Jornalista e homem de cultura além de comunista, foi deputado à Assembleia da República e vereador da Cãmara Municipal de Lisboa, e organizou a Festa do Avante desde 1976, o que lhe mereceu um lugar destacado no Portugal democrático. 
   Era um homem simpático e afável, de verbo fácil e senhor das suas ideias, que amava o fado, sobre o qual escreveu, e deixou a melhor impressão pessoal e humana em todos aqueles que o conheceram.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Fantasmas

   "O Segredo da Cãmara Escura"/"Le secret de la chambre noire", do japonês Kiyoshi Kurosawa (2016), é mais um filme no género em que ele começou por se notabilizar e se tornou mais conhecido: o filme de fantasmas.
   O que quer que se pense do assunto, e eu sou céptico, tem de se reconhecer a mestria do cineasta, tanto narrativa como cinematograficamente.
    Na Europa, um fotógrafo de daguerreótipos na actualidade, Stéphane/Olivier Gourmet, usa como modelo a filha, Marie/Constance Rousseau, e tem um novo assistente, Jean/Tahar Rahim. Enquanto a mulher do fotógrafo, Denise/Valérie Sibilia, morta, continua a aparecer, Marie é aceite num novo emprego em Toulouse e, por pressão de Thomas/Mark Zidi, empreendedor imobiliário apresentado por Vincent/Mathieu Amalric, Jean tenta convecer o patrão a vender a casa que habita no subúrbio por alto preço.
                       O SEGREDO DA CÂMARA ESCURA
  Marie  morre em consequência de queda pelas escadas... mas continua viva com Jean até ao fim, em que finalmente se ausenta da igreja.
   Kiyoshi Kurosava tem um estilo de realização elegante e integra da melhor maneira os fantasmas junto de gente assombrada por diversos motivos - Jean chega a falsificar a assinatura de Stéphane para atingir os seus objectivos, como se para sublinhar a falsidade de tudo. E vamos indo que a remissão para o século XIX, com o daguerreótipo, permite mergulhar no mistério da imagem para que o título remete.
  Tem argumento do cineasta e Hiromi  Kurosawa, fotografia de Alexis Kavirchine, música de Grégoire Hetzel e montagem de Véronique Lange. Prefiro Kiyoshi Kurosawa fora deste género, mas vê-se com interesse e sem fastio sobretudo se, como eu, não se acreditar em fantasmas. 

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O Norte

   Natural de Vila Meã, Amarante, Agustina Bessa-Luís (1922-2019) foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, ao nível de Teixeira de Pascoais, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro ou José Saramago.
   Chamou a atenção especialmente com "A Sibila" (1954), um dos grandes romances do século, para a partir daí prosseguir uma obra muito importante centrada no Norte do país, que bem conhecia e a inspirou. Um tanto na senda de Camilo Castelo Branco, fez a crónica do século XX português nortenho com um sentido do mistério e do trágico, nomeadamente da tragédia familiar, e um grande conhecimento das classes sociais, da natureza humana e da história, de forma a atingir nos seus livros uma dimensão universal.
                       Agustina Bessa-Luís
    Aproveitada por Manoel de Oliveira, seu amigo e admirador, que a convidou para "Francisca" (1981) a partir de "Fanny Owen" e adaptou diversas vezes depois, em "Vale Abraão" (1993), "O Princípio da Incerteza" (2002) e "Espelho Mágico" (2005), acabou por ter uma fama extra-literária importante. 
    Mas distinguiu-se também na biografia, no teatro, na crónica, nas memórias e no ensaio. Afastada da vida pública desde 2006, permaneceu uma figura de referência, muito importante e influente das letras portuguesas. Na hora do seu passamento cumpre-me destacar a perda de uma grande senhora da cultura portuguesa e manifestar o meu respeito perante a sua memória.

SOPHIA

      Nome do saber em grego, Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi a poetisa portuguesa mais importante do século XX e um dos maiores nomes de toda a poesia portuguesa e europeia. Comemoram-se agora 100 anos do seu nascimento.
       Natural do Porto, aí conviveu com os grandes nomes da cultura e da literatura portuguesa do seu tempo, como Eugénio de Andrade e Agustina Bessa-Luís, num tempo em que Portugal vivia sob o jugo salazarista contra o qual alguns dos melhores, entre os quais ela, resistiram. 
       Limpída e inteira na sua poesia, que depois dos primeiros poemas de 1940 começou a publicar em 1944, nela se oferecia no que mais apreciava do mundo com uma sensibilidade apurada. Sem constrangimentos, que não suportava, no que escrevia nos revelava o mundo, que desdobrava para nós numa comunicação poética pessoal e afectuosa. De olhos secos.
                                        Wook.pt - O Nu na Antiguidade Clássica | Antologia de Poemas sobre a Grécia e Roma
       Comecei a lê-la cedo, quando era publicada pela Ática e pela Moraes Editora, e não deixei de a seguir através da sua arte poética e depois de O Cristo Cigano, do Livro Sexto e de Geografia, incluídas as suas "artes poéticas" O seu português filigranado acolhia uma sensibilidade terrestre e luminosa, mediterrânica e marínha, atenta a tudo como Reiner Maria Rilke, que me faz lembrar.
      Ainda hoje, diria que sobretudo hoje é fundamental conhecê-la, quanto mais não seja através das diversas publicações da sua "obra poética". Em prosa destaco os seus contos para crianças e o clássico "O Nu na Antiguidade Clássica"", agora reeditado com uma antologia de poemas seus sobre a Grécia e a Roma antigas. Aproveitem. Isto sem esquecer o seu teatro, os seus ensaios e as suas traduções - Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, de alguns poetas portugueses.
       O que ainda hoje mais me emociona e motiva, o que mais aprecio na poesia encontro-o inteiro e intacto, palavra a palavra, som a som na poesia dela. Por isso aqui a recordo como poetisa e como lutadora política.
                                 

"A minha vida é o mar o abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada"


   Muito do melhor que aprendi na vida foi com a poesia dela que o aprendi. A beleza e o que ela significa e esconde. Como abordar o mundo e estar na vida. Como viver cada dia como se fosse o último, como saborear o convívio com a morte. Como enfrentar a descoberta do que não sabemos.
   Que a passagem do centenário do seu nascimento, homenageando-a, desperte a curiosidade dos mais novos são os votos que aqui deixo espressos. Eu vou continuar a lê-la e a procurá-la nos poetas mais novos. Ela é muito boa para impedir o esmorecimento ou o adormecimento pois nos transmite, decantada, a vida sem nos dar a paz.
   (O que desconcerta quem não me conhece e me espera entre a boquilha da Natália e o cachimbo do David, bons poetas sem dúvida, é encontrar-me em poesia acima de tudo em Sena, Sophia, Herberto e no outro que era muitos - a seguir em Pessanha, Oliveira, Fiama e Belo, todos depois de Luís Vaz.)