terça-feira, 2 de julho de 2019

O melhor

    António Manuel Hespanha (1945-2019) foi um jurista e historiador eminente, homem de grande saber e cultura com uma vasta obra publicada sobre História, Direito e Ciência Política e um ensino de grande qualidade na Universidade de Coimbra e na Universidade Nova de Lisboa, de que foi professor catedrático. Foi Investigador Honorário do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e docente de outras instituições do Ensino Universitário.
                        Morreu o historiador António Manuel Hespanha
   Tendo-se ocupado, numa obra muito extensa e rica, entre outros assuntos da história dos descobrimentos, notou neles a ausência sistemática dos descobertos, do "outro lado", o das populações indígenas, que eles afectaram. Foi o melhor na sua área científica, em que deixa discípulos e influências. A comunidade científica perde com a sua morte uma das suas figuras mais destacadas

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Ainda de pé

  Não sendo fã do rock, tive curiosidade em ver "Rocketman", de Dexter Fletcher (2019), uma biografia de Elton John/Taron Egerton em adulto, cuja carreira segui por alto.
  Como pontos mais destacados do seu percurso o encontro com Bernie Taupin/Jamie Bell, letrista e grande amigo, e o encontro com John Reid/Richard Madden, que depois de seu amante se vai tornar um agente possessivo e difícil. 
   Bem construído em flash-back do protagonista, o filme é suposto contar a verdadeira história de Elton, produtor executivo. Acompanha-o desde uma infância problemática por causa dos pais até à cura de desintoxicação a que se submeteu há 28 anos.             
                                         
   Foi uma vida turbulenta e instável até essa altura, que mesmo assim lhe permitiu romper e singrar num meio difícil e ingrato em que é conveniente não cometer erros, o que ele acumulou. A dificuldade da descoberta da sua homossexualidade na época acabou por fazê-la reverter em benefício da sua arte e da sua identidade.
  A realização puxa para o musical no seu melhor e é correcta e funcional para um filme institucional. Quero com isto dizer que tem explosões de energia e de interesse mas não chega a soltar-se. O argumento é de Lee Hall, a fotografia de George Richmond, a música de Matthew Margeson e a montagem de Chris Dickens.
   "Rocketman" é uma boa biografia ficcionada de um grande compositor e cantor que marcou o seu e o nosso tempo, tornando-se uma vedeta milionária, conhecida e respeitada em todo o mundo.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Actriz francesa

    Edith Scob (1937-2019) foi uma actriz francesa de rosto e figura singulares, que se distinguiu desde os seus inícios no cinema com cinco Georges Franju nos anos 50/60 e teve depois uma carreira longa em que me compete destacar "A Via Láctea"/"La voie lactée" de Luis Buñuel (1969), "Casa de Lava", de Pedro Costa (1994), "Tempos de Verão"/"L'heure d'été" de Olivier Assayas (2008), cinco filmes de Raul Ruiz e "Holly Motors", de Leos Carax (2012).
                     Le cinéma français pleure la disparition d’Edith Scob: grand second rôle, elle est décédée à l’âge de 81 ans
    Beleza atraente e estranha, foi uma grande actriz de quem vou sentir muito a falta, pois era uma figura emblemática do cinema contemporâneo, à qual o cinema francês muito ficou a dever.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Génio

   "Os Olhos de Orson Welles"/"The Eyes of Orson Welles" do historiador inglês do cinema Mark Cousins (2018) é um bom filme biográfico que percorre a vida e a actividade do genial cineasta americano a partir de imagens e sons de arquivo, que a voz do realizador e argumentista anima ao comentar.
   Dividido em capítulos, chama em especial a atenção para os desenhos de Welles, actividade menos conhecida e muito reveladora apesar de tudo aquilo que o autor destruiu. Na sua vida privada são focados os aspectos mais importantes, nomeadamente das influências materna e paterna, das viagens que fez e de amores e casamentos, também de posições políticas.                 
                       
   Da obra é dado o devido destaque ao que fez para rádio, teatro e televisão, fora dos lugares comuns, com sons e imagens de arquivo de que destaco o seu "King Lear" live para a televisão nos anos 50, e da obra para cinema é devidamente realçado cada filme, cena a cena, no conjunto de uma obra muito importante, com o devido enquadramento teatral, artístico, pictórico, também cinematográfico, para os filmes shakespearianos e o filme kafkiano em especial.
    É possível fazer a história do cinema em termos não literários mas cinematográficos, como Mark Cousins já tinha feito em "A História do Cinema: Uma Odisseia"/The Story of Film: An Odyssey " (2011) e aqui exuberaqntemente confirma. 
   Deste filme sobre um génio trabalhado, mal amado e hoje em dia mal conhecido, decorre que a história do cinema pode ser leve, clara e divertida, como os tempos de hoje exigem, não algo de compacto e maçador.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Isto ainda vai acabar mal

   "Os Mortos Não Morrem"/"The Dead Don't Die" de Jim Jarmusch (2019) é mais um grande filme do nome maior do cinema independente americano. Seguindo na esteira de "Só os Amantes Sobrevivem"/Only Lovers Left Alive" (2013), dele recupera a temática, agora com zombies, e a actriz principal, Tilda Swinton.
   Em Centerville, "um belo lugar" na América, em consequência de alterações climáticas que levaram a que a Terra saísse do seu eixo, começam a acontecer coisas estranhas: o sol põe-se a desoras, aparecem animais mortos ou fora do seu sítio e sobretudo os mortos do cemitério voltam à vida.
   Os polícias encarregados do caso, o Chefe Cliff Robertson/Bill Murray (de "Broken Flowers - Flores Partidas"/"Broken Flowers", 2005), o agente Ronnie Peterson/Adam Driver (de "Paterson", 2016) e a agente Mindy Morrison/Chloé Sevigny, os únicos da pequena localidade, fazem o que podem com os conhecimentos que adquirem no próprio local, nomeadamente no restaurante e na loja de bugigangas locais, enquanto a dona da agência funerária local, Zelda Winston/Tilda Swinton, tenta fazer pela vida. 
   Há ainda o eremita Bob/Tom Waits, que encontra um livro, "Moby Dick" de Herman Melville, debaixo de folhas e de terra, três jovens turistas e duas crianças numa população que morre mas não morre. A receita para acabar com os mortos-vivos é cortar-lhes a cabeça, no que Zelda com a sua espada é perita. 
                       Dead Don't Die
    Para além das referências cinematográficas, que partem de "Nosferatu, O Vampiro"/"Nosferatu, eine Symphonie des Grauens", de F. W, Murnau (1922), as alusões políticas vão mais longe que nos filmes de George A. Romero, também citado, numa organização fílmica que se move muito bem entre o diegético e o extra-diegético, especialmente na música e com os dois protagonistas, actores que leram coisas diferentes do argumento.
   "Os Mortos não Morrem", no original o título de uma canção de Sturgill Simpson, é mais uma peça inteligente e muito boa na obra de um dos mais importantes cineastas americanos da actualidade, 
    Com argumento do realizador, fotografia Frederick Elmes e montagem de Affonso Gonçalves, este filme não é uma crítica superficial mas profunda da América contemporânea. A crítica será a arte de amar sobretudo quando está em causa um filme que pratica a crítica como arte de amar, radicalmente crítico como este é. Oiçam bem a voice over final e escutem bem a música durante o genérico de fim, depois de Zelda ter regressado às origens e tudo estar consumado.
    Claro que se pode reconhecer pessimismo nos sinais que anunciam o fim do mundo, mas pelos vistos não andamos muito longe disso se não formos todos a tempo de reverter situações climáticas que parece ainda não serem irreversíveis. Como filme de zombies este último de Jim Jarmusch arranca gargalhadas da assistência, em que deve sobretudo provocar má consciência.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Animação portuguesa

    "Tio Tomás, A Contabilidade dos Dias" é uma curta-metragem da portuguesa Regina Pessoa (2019), agora distinguida com o Prémio do Júri e o da banda sonora em curta-metragem no Festival de Annecy, em França.
    No melhor estilo da realizadora, responsável por "História Trágica com Final Feliz" (2006) e  "Kali, O Pequeno Vampiro" (2002), refere-se ao seu tio, que foi contabilista.       
                       Tio Tomas
   Com linhas dinâmicas, que ora são rectas ora se encurvam em espiral, e uma música muito boa, é um belíssimo e também sentido filme que utiliza o preto e branco e a cor..
   Com Regina Pessoa a animação portuguesa continua no seu melhor.

Voltar ao princípio

   "Foxtrot" é a segunda longa-metragem de ficção do israelita Samuel Maoz (2017), depois de "Líbano"/"Lebanon" (2009), como este um filme muito bom e chocante apesar da sua simplicidade narrativa, que não formal.
    Os primeiros 40 minuitos passam-se entre a chegada ao casal Feldman, Michael/Lior Ashkenazi e Daphna/Sarah Adler, da notícia da morte do seu filho, Jonathan/Yonaton Shiray, a cumprir o servição militar, e a chegada posterior do seu desmentido: quem tinha morrido era outro com o mesmo nome. Logo aí a posição superior da câmara, em plongé, e a sua mobilidade dão conta do esmagamento e da desorientação do pai.                
                       
    No segmento seguinte acompanhamos Jonathan na barreira que vigia no deserto, as conversas sobre a guerra e o passado dele com os seus camaradas, até tudo chegar a um acto precipitado de violência  No terceiro segmento, mais curto, o casal apresenta-se conformado com a morte do filho, que surge no epílogo.
    Com ironia e subtileza, o filme constrói o seu mistério e resolve-o, com a sugestão dos passos de dança. Mantendo a agilidade de câmara apropriada, que não impede que ela se detenha em planos longos, "Foxtrot" não abandona a ideia de fluidez da passagem do tempo e de desnorte que acompanha as suas personagens. E inclui mesmo uma notável cena de animação.
    Com argumento do cineasta, tem fotografia de Giora Bejach, música escassa e muito boa de Ophir Leibovitch e Amat Poznansky e montagem de Arik Lahav-Leibovich e Guy Nemesh. .