domingo, 31 de dezembro de 2017

Balanço anual

      Chegado ao final do primeiro ano deste meu novo blog, devo prestar contas sobre ele sem escolhas dos melhores do ano, como prometi na abertura.
      Em termos de projecto e propostas, Some like it hot ficou aquém do esperado, com mais casuística e menos questões gerais do que o pretendido. Em termos de quantidade este blog teve pouco mais de 6.000 visitas no seu primeiro ano, contra cerca de 9.000 visitas a Some like it cool depois de encerrado há um ano
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        Mesmo que encerrar o anterior blog em plena expansão possa ter sido errado, o apelo do novo modelo em outro blog impôs-se e vai continuar a prevalecer, na expectativa de que haja maior divulgação do que até agora deste Some like it hot.
        Neste momento quero apesar de tudo destacar o mais importante acontecimento artístico e cultural do ano, a exposição "Vermeer et les maîtres de la peinture de genre", que esteve entre 22 de Fevereiro e 22 de Maio no Museu do Louvre, em Paris, e depois seguiu para outras grandes cidades.
         Sem me pronunciar sobre mais nada, agradeço aos meus leitores e desejo a todos um Feliz e Próspero Ano Novo de 2018, em que possa contar convosco para isto e para o mais que aí vier, que aqui oportunamente anunciarei. E passem a palavra.       

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Uma questão bizarra

     Uma  escritora conhecida, Delphine Dayrieux/Emannuelle Seigner, vê o seu espaço e a sua pessoa invadidos por uma estranha, Elle/Eva Green, escritora-sombra de celebridades. A primeira, em impasse de escrita e com o marido, François/Vincent Perez, jornalista televisivo, em viagem, vai gradualmente cedendo terreno, apesar de a partir de certo momento começar a ficar alerta - a visita em sua vez a um liceu que afinal não se fizera.
    Depois de Delphine ter partido uma perna numa queda vão para a casa de campo do marido dela e então aí as coisas rapidamente se esclarecem. O final é um bocado trapalhão ao querer ir demasiado longe depois da tentativa de envenenamento seguida de tentativa de atropelamento.
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       A partir de argumento do realizador e de Olivier Assayas baseado em romance de Delphine de Vigan, "A Partir de uma História Verdadeira"/"D'après une histoire vraie" é o mais recente filme de Roman Polanski (2017), que tem o seu melhor ao mostrar o mal em acção a partir do ponto de vista da vítima, como em Hitchcock, para o qual explicitamente remete.
      É bom ver Elisabeth Quin como jornalista de France-Culture, Noémie Lvovsky como directora de galeria num filme sobre a usurpação da personalidade até à literária, que apesar de demasiado óbvio não deixa de ser convincente.
      Duas grandes actrizes elevam o nível deste filme, que está à altura do paradigma em questões como esta tratadas entre o policiário e o anedótico, estabelecido por Claude Chabrol, embora o próprio Polanski já tenha feito melhor.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Uma brincadeira

    "O Meu Belo Sol Interior"/"Un beaux soleil intérieur", o mais recente filme de Claire Denis (2017), é uma comédia passada entre artistas e galeristas em Paris, com algumas personagens exteriores ao meio.
     A protagonista, Isabelle/Juliette Binoche, vive em círculo com os seus homens que a fazem andar às voltas, de um para outro, até voltar à casa de partida para depois continuar, sempre em circuito fechado. Cada caso é efémero e como tal não pode continuar, desde o primeiro ao último, por razões diferentes. 
                      https://www.ecranlarge.com/uploads/image/000/999/un-beau-soleil-interieur-photo-999628.jpg
     Com actores muito bons e diálogos a preceito - tem argumento da realizadora e de  Christine Angot - este é filme original e insólito numa obra pautada pela exigência como a de Claire Denis é. Em jeito de comédia, como uma brincadeira, que qualquer grande cineasta se permite. Um pouco "la femme qui aimait les hommes", brincando com Truffaut.
     O final entre a Binoche e Gérard Dépardieu como vidente confirma-o, remetendo para uma leveza interior e uma disponibilidade em que ele a convida a procurar, no entre-dois, o seu belo sol interior. 
     É curto para aquilo a que a cineasta nos habituou mas está bem feito e é para ser tomado por aquilo que é: um retrato de mulher de hoje interpretada por uma grande actriz numa bela cidade, Paris, que está bem filmada. E é tudo.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Psicodrama

      Depois da trilogia "Tony Maanero" (2008), "Post Mortem" (2010) e "Não"/"No" (2012), e antes de "Neruda" e "Jackie"  (2016), o chileno Pablo Larrain dirigiu "O Clube"/"El club" (2015), um filme muito falado e premiado no Festival de Berlim com o Grande Prémio do Júri. Só agora o consegui  ver.
      Quatro padres vivem numa residência próximo do mar acompanhados por uma freira. Depois de um novo hóspede ter morrido por sua própria mão, chega um outro para inquirir sobre eles com o intuito de fechar a casa.
      Cada um deles tem a sua própria história pessoal, de pedofilia, homossexuialidade, confissão de militares (a partir da ditadura) e o último cala-se quando começa a contar a sua história. A freira também tem um passado seu. Mas há sobretudo o habitante local que os conhece e os desafia.  
                                   https://i.pinimg.com/originals/36/d2/c7/36d2c79926a3c9f84570ce1171b6617d.jpg
      Encenado como um psicodrama em poucos espaços, sem sair da mesma vila, este é um filme corajoso e muito bom sobre questões sensíveis na actualidade no interior da religião católica, agarradas de forma clara e frontal apesar do local retirado e por causa dele, com argumento de Guillermo Calderón, Daniel Villalobos e do realizador.
    Pablo Larrain filma as entrevistas do inquiridor frontalmente, o que torna mais visível o desconforto dos inquiridos, e o filme termina de forma inesperada mas que acaba por se explicar por si própria, embora se coloque a questão de saber se aquela é a melhor solução para aquele caso. 
    Sério e sem contemplações, como o conhecemos dos seus filmes anteriores, o cineasta consegue um filme perturbador sobre questões que causam desconforto sem fazer um "filme de tese" e sem procurar moralizar. Cada um que tire as suas próprias ilações sobretudo sobre onde está a ética e a falta dela.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Leite e mel

    A actriz israelita Natalie Portman realizou em 2015 "Uma História de Amor e Trevas"/"A Tale of Love and Darkness", baseado no romance homónimo do seu compatriota Amos Oz. Tratando-se de um dos melhores livros de um dos melhores escritores da actualidade interessou-me vê-lo.
    Nascido em 1939, o escritor situa o livro autobiográfico na sua infância no pós-guerra em Israel, por altura  do seu reconhecimento internacional como Estado independente. No filme Amos é interpretado por Amir Tessler, a sua mãe, Fania, por Natalie Portman e o seu pai, Arieh, por Glad  Kahana, estando a voz e a figura de Amos velho a cargo de dois actores.
    Tudo decorre na relação do protagonista com os  pais, em especial com a mãe, e com o meio, narrado pelo Amos adulto e filmado do ponto de vista dele quando criança. Ora esta questão do ponto de vista é plenamente respeitada pala realizadora, também argumentista, o que contribui decisivamente para o sucesso do filme.
                                       https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/1/12/A_tale-of-love-and-darkness-poster.jpg/220px-A_tale-of-love-and-darkness-poster.jpg
      Mas além do próprio narrador e por sua causa interessa a personagem da mãe dele, com problemas pessoais difíceis que se revelam através das suas histórias de juventude, na Polónia, mas com um grande amor pelo filho, que este lhe retribui - Fania é muito bem interpretada por Natalie Portman, Sem descer a todos os pormenores da narrativa literária, a narrativa fílmica está bem estruturada e bem interpretada numa leitura feliz do original. A questão da preservação da inocência de que a mãe fala ao filho e a conclusão do narrador já adulto de que a realização dos sonhos na "terra do leite e do mel" é uma desilusão são excelentes.
    Com fotografia de Slavomir Idziac, música de Nicholas Britell e montagem de Andrew Mondshein, sem acrescentar nada ao livro, publicado entre nós pela ASA, antes respeitando-o escrupulosamente, Natalie Portman consegue um bom primeiro filme de longa-metragem, que faz justiça ao original que não pretende sequer exceder, antes dar figuração concreta às suas personagens, o que é conseguido. 
      Em termos autobiográficos, ao nível deste livro de Amos Oz só conheço "Istambul - Memórias de Uma Cidade", do turco Orhan Pamuk, editado em português pela Presença.   

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O reverso

    "O Nascimento de uma Nação"/"The Birth of a Nation" é a resposta de Nate Parker (2016) ao filme do mesmo nome de David W. Griffith (1915) que, tendo sido fundador da linguagem e da arte do cinema, era racista. Temos por isso agora o ponto de vista dos escravos negros.
     Assim Nat Turner/Nate Parker, pregador, é levado, com apoio do seu  senhor, Samuel Turner/Armie Hammer, a sermonear para outros escravos em favor da obediência. Casa-se com Elizabeth/Penelope Ann Miller, e a partir daí a escalada de violência dos esclavagistas do Sul dos Estados Unidos levam-o a tomar consciência e perceber que a Bíblia permite uma leitura diferente.
   Não poupando nos excessos mais graves, com espancamento, violações, mortes violentas, enforcados, que justificam a revolta dos escravos negros, não tem o last minute rescue de Griffith e acaba numa alusão celeste na morte do protagonista. Compreensível embora, é manifestamente pouco em termos cinematográficos em comparação com o filme original, pelo que  sobre boas intenções estamos conversados. 
                       http://cdn2-www.comingsoon.net/assets/uploads/2016/05/birthofanation.jpg
      Baseado em factos reais da segunda metade do século XIX, tem argumento do realizador, também co-produtor, com base em história sua e de Jean McGianni Celestian, fotografia de Elliot Davis, música de Henry Jackman e montagem de Steven Rosenblum.
       Com boa realização e boas interpretações, este é um filme seguro e bem feito sem mais, que choca na sua violência e pretende edificar, enquanto o filme de há 100 anos era, no seu racismo, um grande monumento da história do cinema, que marcou decisivamente.
      Tanto quanto sei, o filme de Nate Parker teve boa recepção nos Estados Unidos e esta era uma resposta que se impunha de há muito. Os Cahiers du Cinéma dedicaram o seu número de Novembro passado a uma história dos cineastas negros americanos, com uma entrevista a Jordan Peele ("Get Out"), um dossier oportuno e interessante que aqui vos aconselho.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Não venhas tarde

    O mais recente filme de Woody Allen, "Roda  Gigante"/"Wonder Wheel" (2017), é um melodrama dos anos 50 passado nos anos 50 do século XX. Que seja plenamente conseguido não deixa de ser um feito notável.
   Um casal em impasse como tal, Humpty/Jim Belushi e Ginny/Kate Winslet, ela com um filho pequeno pirómano, Richie/Jack Gore, ele com uma filha adulta, Carolina/Juno Temple, que surge de repente no início em fuga do marido gangster que denunciou, entra em maior turbulência por causa do vigia do posto 7 da praia de Coney Island, o letrado Mickey/JustinTimberlake, que é o narrador do filme.
    Primeiro cai Ginny, depois Carolina perante o salva-vidas e, enquanto Humpty vive entre o seu trabalho no carrocel e o restaurante e continua a ir à pesca, Ginny encontra a solução desesperada em elipse no final do filme. Mulheres que tropeçam em homens que tropeçam em mulheres, mulheres que se atropelam e homens que estabelecem a confusão. E a idade conta, embora a mais nova repita os argumentos da mais velha quando tinha a sua idade; o amor.
                      https://observatoriodocinema.bol.uol.com.br/wp-content/uploads/2017/10/roda-gigante.jpg
   Com interpretações excepcionais de Kate Winslet e Jim Belushi, "Roda Gigante" é uma obra-prima de Woody Allen, para o que a excepcional fotografia de Vittorio Storaro contribui de forma importante. Mas decisiva é a realização do cineasta, também argumentista, que aqui revela uma qualidade superior para além da rotina em que às vezes se deixa embalar e nos embala.
   O cartaz que se vê ao fundo da imagem é do filme "Winchester 73", de Anthony Mann (1950), o que permite uma localização temporal precisa em New York sem necessitar de mais do que uma referência de passagem a Greenwich Village. "Não venhas tarde" diz o pai à a filha na noite fatal em que ela resolve regressar a pé a casa.
   Pouco falado a não ser quando cheira a escândalo, Woody Allen continua uma obra do maior relevo no cinema contemporâneo, que por vezes atinge picos como o deste filme absolutamente extraordinários. Um destes dias os Cahiers du Cinéma e a Cinemateca Portuguesa vão ter mais uma epifania