domingo, 14 de janeiro de 2018

Protesto visível

    "Três Cartazees à Beira da Estrada"/"Three Billboards Outside Ebbing, Missouri" é a terceira longa-metragem do inglês Martin McDonagh, depois de "Em Bruges"/"In Bruges" (2008) e "Sete Psicopatas"/"Seven Psychopats"  (2012), que tinham deixado boa impressão.
     Centra-se numa mãe, Mildred/Frances McDormand, que protesta através de cartazes colocados ao longo de uma auto-estrada pouco frequentada contra a falta de progresso na investigação do assassinato da sua filha e contra quem a dirige, Willoughby/Woody Harrelson.
     A partir daqui é traçado o retrato de uma pequena comunidade do Sul dos Estados Unidos, com especial atenção prestada à esquadra de polícia, Willowghby, que tem um cancro, e o seu ajudante Dixon/Sam Rockwell, que vive com a mãe de quem depende, mas também ao agente de publicidade Red Welby/Caleb Landry Jones, à própria Mildred e ao filho dela.
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        Numa segunda parte, depois da morte e substituição de Willoughby, o filme abre-se, a violência aumenta e também a hostilidade de Mildred em relação ao seu ex-marido e à sua jovem nova mulher, ela que não fora de todo alheia à morte da própria filha. Depois de um anti-clímax, o filme tem um final em aberto entre ela e Dixon, gravemente queimado na investida dela contra a esquadra.
          Com produção e argumento do próprio realizador, trata-se de um filme pitoresco e picaresco embora dramático e crítico, que conta com grandes interpretações no registo certo, que nem sempre é fácil numa comunidade isolada, pouco esclarecida e dominada pelos abusos policiais.
        Contando com fotografia de Bern Davis, música de Carter Burwell e montagem de John Gregor, é um filme a ver e degustar no seu encantamento lento e rugoso. A conclusão do limitado Dixon para Mildred é universal: o que é preciso é falar bem inglês.

Valioso

      Segundo o Arte, que o emitiu esta semana, "Por Detrás do Candelabro"/"Behind the Candelabra" de Steven Soderbergh (2013), que foi feito para televisão, representa um ponto de viragem na obra do cineasta americano, que depois disso trabalhou para a televisão e fez apenas uma longa-metragem para o cinema (ver "Bons rapazes", de 11 de Setembro de 2017).
        Trata-se de um filme baseado no livro de um dos protagonistas, Scott Thorson/Matt Damon, sobre o seu convívio com Liberace/Michael Douglas, célebre vedeta como entertainer da televisão americana nos anos 70 e 80 do século XX.
        Mantendo fielmente de início a fim o ponto de vista de Thorson, "Por Detrás do Candelabro" traça um retrato impiedoso mas veraz da vedeta e da comunidade homossexual masculina de Los Angeles, Hollywood incluída. No mundo fechado de tal comunidade, torna-se penoso seguir a relação dos protagonistas quando Liberace está no auge da sua popularidade e vende para o exterior, para as suas inúmeras fãs, a ideia de que está prestes a escolher noiva.
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          Os constrangimentos da comunidade gay antes da SIDA são uma coisa, os segredos guardados por essa comunidade sobre um convívio difícil e sujo, feito de manhas e cumplicidades, são outra, o que muito bem o filme distingue do mesmo passo que levanta o véu sobre o mundo do espectáculo americano.
         Com fotografia e montagem do próprio Soderbergh, como ele costuma fazer nos seus trabalhos mais pessoais, é um filme que quebra tabus e conta com grandes interpretações. Depois dele o cineasta anunciou que se retirava do cinema e acabou por regressar. Vamos ver se o que se segue depois de "Sorte à Logan"/"Logan Lucky" (2017) confirma que aqui esteve a mudança. 
            Num filme inteligente e bem feito, sob as vestes do entretenimento fica a crítica implacável de um meio numa determinada época, mas também do próprio sistema.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

As coisas que mudam

    "O Amante de Um Dia"/"L'amant d'un jour" é o último filme de Philippe Garrel (2017), em que ele revisita, obsessivamente, os seus temas favoritos entre homens e mulheres.
   Gilles/Éric Caravaca é professor universitário de filosofia e tem uma relação com uma aluna, Ariane/Louise Chevillotte, quando a sua filha Jeanne/Esther Garrel, da idade dela, regressa a casa depois de ter rompido com o namorado. A partir daí as coisas complicam-se e as relações anteriores sofrem desenvolvimentos e seguem novos caminhos.
    No exigente preto e branco a que nos habituou, o cineasta dedica-se a estabelecer sempre novas variações sobre premissas de base essencialmente idênticas: as coisas que mudam e como mudam, as coisas que duram e como duram entre um par, entre diversos pares. E, qualquer que seja a decisão, ela é sempre discutida.
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    Num filme em que morrer de amor é um simulacro de ameaça e em que o tema central é a fidelidade, no amor e até na guerra, o interesse mantém-se, mesmo pela maneira como ele é construído em imagens e sons, nomeadamente nos diálogos constantes. Desse ponto de vista, da construção fílmica de espaço e tempo, Garrell é um dos cineastas franceses mais interessantes da actualidade.
   Com Jean-Claude Carriére, Caroline Deruas Garrel e Arlette Langmann de novo no argumento com o realizador neste filme de separações circulares, no início e no final, a fotografia é de Renato Berta, a música de Jean-Louis Aubert e a montagem de François Gédigier.
    Desde que Carrière e antes dele Caroline Deruas passaram a colaborar como argumentistas nos seus filmes, ela a partir de "Un été brûlant" (2011) ele a partir do anterior "À Sombra das Mulheres"/"L'ombre des femmes" (2015), sente-se um novo interesse, como que um renascimento de Philippe Garrel, um dos mais importantes cineastas contemporâneos.

sábado, 6 de janeiro de 2018

O mesmo sonho

      "Corpo e Alma"/"Teströl és lelekröl" é o último filme da húngara Ildiko Enyedi, 18 anos depois da sua anterior longa-metragem, "Simon mágus" (1999), e 28 anos depois de "O  Meu Século XX"/Az én XX, századom"(1989), o seu único filme a estrear entre nós.  Despretensioso, confirma e desenvolve a ingenuidade desse filme anterior.
     O chefe dos serviços financeiros de um matadouro, Endre/Morcsányi Géza, tem o mesmo sonho durante o sono que a nova controladora de qualidade, Mária/Alexandra Borbély, que tem uma memória superior, exacta. Ele é muito mais velho do que ela. 
      Com pequenos apontamentos sobre o meio, em que são de assinalar a contratação de um novo jovem trabalhador, um assalto e uma velha mulher da limpeza além da psicóloga e do terapeuta de Mária, o filme centra-se nisto.  
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   Em tom de comédia romântica, "Corpo e Alma" explora a solidão dos protagonistas até ao seu difícil encontro final - se não fosse difícil não se justificava o filme em termos de melodrama
   Com belos animais nos sonhos (veados) a contrastarem com os pobres animais do matadouro, embora trabalhe bem o seu centro narrativo não passa de um amável entretenimento com ostensivo subtexto e implicações óbvias, especialmente valioso em tempos de leveza. No final os protagonistas deixam de sonhar, na floresta o lago fica vazio.
   Tem argumento da própria realizadora, fotografia de Máté Herbai, música de Adam Balazs e montagem de Károly Szalai. O pós-comunismo tem destas coisas na Hungria: tanto Béla Tarr como Ildiko Enyedi. Anoto que a cineasta tem, entretanto, trabalhado para a televisão.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Começar o ano

     Barbara (1930-1997) foi uma cantora francesa famosa, que viveu o tempo da geração de Georges Brassens e Jacques Brel no topo da canção em língua francesa.
      "Barbara" de Mathieu Amalric (2017) é um filme estranho, com Jeanne Balibar a desdobrar-se entre Brigitte, a actriz que num filme que está a ser rodado interpreta a célebre cantora, e a própria Barbara. O mistério deste filme desprende-se de ser preciso saber quando é a actriz e quando é a cantora que ela interpreta que está em cena, o que nem sempre é fácil.
       Há também algumas imagens de arquivo da própria Barbara, mas em volta da sua personagem e de quem a interpreta no filme dentro do filme gira o essencial deste filme, em que as outras personagens são simples apontamentos - relevo para Amalric como Yves Zand e para Aurore Clément como Esther, a mãe de Brigitte.           
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        Sobre uma cantora que teve um lugar muito especial na sua geração, o filme de Mathieu Amalric destaca-se em especial devido à prodigiosa interpretação de Balibar e consegue construir o mistério e o encanto daquela que evoca. Da parte dele, também actor, há um tour de force notável como realizador, que cria o filme segundo regras próprias não convencionais.
        Mas é Jeanne Balibar quem transporta este filme aos ombros, com grande capacidade interpretativa e também como cantora. Por ela e por Barbara vale a pena vê-lo. Sem decadência nem de uma nem da outra, esta é uma obra depois do vértice e do vórtice, em casas vazias outrora habitadas e em cenários de estúdio, com jardins de Inverno por perto.
         Com argumento de Amalric e Filippe Di Fosco a partir de ideia de Renaud Legrand e Pierre Leon, tem fotografia de Christophe Beaucarne e montagem de François Gédigier este filme que ganhou o prestigiado prémio Louis Delluc em 2017. 

domingo, 31 de dezembro de 2017

Balanço anual

      Chegado ao final do primeiro ano deste meu novo blog, devo prestar contas sobre ele sem escolhas dos melhores do ano, como prometi na abertura.
      Em termos de projecto e propostas, Some like it hot ficou aquém do esperado, com mais casuística e menos questões gerais do que o pretendido. Em termos de quantidade este blog teve pouco mais de 6.000 visitas no seu primeiro ano, contra cerca de 9.000 visitas a Some like it cool depois de encerrado há um ano
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        Mesmo que encerrar o anterior blog em plena expansão possa ter sido errado, o apelo do novo modelo em outro blog impôs-se e vai continuar a prevalecer, na expectativa de que haja maior divulgação do que até agora deste Some like it hot.
        Neste momento quero apesar de tudo destacar o mais importante acontecimento artístico e cultural do ano, a exposição "Vermeer et les maîtres de la peinture de genre", que esteve entre 22 de Fevereiro e 22 de Maio no Museu do Louvre, em Paris, e depois seguiu para outras grandes cidades.
         Sem me pronunciar sobre mais nada, agradeço aos meus leitores e desejo a todos um Feliz e Próspero Ano Novo de 2018, em que possa contar convosco para isto e para o mais que aí vier, que aqui oportunamente anunciarei. E passem a palavra.       

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Uma questão bizarra

     Uma  escritora conhecida, Delphine Dayrieux/Emannuelle Seigner, vê o seu espaço e a sua pessoa invadidos por uma estranha, Elle/Eva Green, escritora-sombra de celebridades. A primeira, em impasse de escrita e com o marido, François/Vincent Perez, jornalista televisivo, em viagem, vai gradualmente cedendo terreno, apesar de a partir de certo momento começar a ficar alerta - a visita em sua vez a um liceu que afinal não se fizera.
    Depois de Delphine ter partido uma perna numa queda vão para a casa de campo do marido dela e então aí as coisas rapidamente se esclarecem. O final é um bocado trapalhão ao querer ir demasiado longe depois da tentativa de envenenamento seguida de tentativa de atropelamento.
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       A partir de argumento do realizador e de Olivier Assayas baseado em romance de Delphine de Vigan, "A Partir de uma História Verdadeira"/"D'après une histoire vraie" é o mais recente filme de Roman Polanski (2017), que tem o seu melhor ao mostrar o mal em acção a partir do ponto de vista da vítima, como em Hitchcock, para o qual explicitamente remete.
      É bom ver Elisabeth Quin como jornalista de France-Culture, Noémie Lvovsky como directora de galeria num filme sobre a usurpação da personalidade até à literária, que apesar de demasiado óbvio não deixa de ser convincente.
      Duas grandes actrizes elevam o nível deste filme, que está à altura do paradigma em questões como esta tratadas entre o policiário e o anedótico, estabelecido por Claude Chabrol, embora o próprio Polanski já tenha feito melhor.