domingo, 11 de fevereiro de 2018

Vida sem amor

    "Loveless"/"Nelyubov", o mais recente filme do russo Andreï Zviaguintsev (2017), é um filme duro sobre um casal em ruptura violenta, Zhenia/Marianna Spivak e Boris/Alexei Rozine, que tem um filho de 12 anos, Aliocha/Matveï Novikov que, farto da casa paterna em desmantelamento ou por outro motivo, desaparece ao fim de 50 minutos.
    O cineasta disse que não quis dar explicações sobre os motivos e o desenlace do filme, o que se percebe e resulta bem. Com argumento de Oleg Neguine - que com ele colabora desde "Izgnanie" (2007), inédito entre nós - e seu, o filme gira durante a sua primeira parte em volta do casal em conflito mesmo na presença do filho, cada um deles com uma nova relação já iniciada - como diz Zhenia, ela quer seguir em frente face a Boris cobarde e receoso.                    
   A segunda parte do filme é dedicada à busca infrutífera do miúdo desaparecido, feita por voluntários perante a impotência da polícia. Corre o ano apocalíptico de 2012 e há um conflito bélico em curso com forças ucranianas, percebemos pelos noticiários televisivos. E "Loveless" finda como começou, sobre águas paradas e árvores nuas.      
                                    Loveless                  
     A frieza quase clínica da realização tira o melhor proveito da fotografia de Mikhail Kritchman, usa parcimoniosamente a música de Evgueni Golperini e a montagem de Anna Mass é precisa. O mais são as interpretações sempre justas num quadro sempre rigorosamente definido, que para o final num quarto usa muito bem um espelho.
    Depois de "O Regresso/Yozvrashchenie" (2003), "Elena" (2011) e "Leviatã"/"Leviafan" (2014), este é mais um filme muito bom de Andreï Zviaguintsev que, como os anteriores, explora as fissuras da nova Rússia, pós-comunista, sem princípios, sem escrúpulos e sem amor apesar do voluntariado mas também porque ele é preciso, fechada no seu autismo democrático, autocrático e hierarquizado, em que a geração anterior apenas o seu ressentimento e a sua suspeita tem a transmitir aos mais novos - a mãe de Zhenia. 
    Mas também aí que cada um retire as suas próprias ilações, pois hoje em dia esses são problemas comuns nas sociedades ditas modernas e não é por acaso que "Loveless" muito pertinentemente fecha em ambiguidade e sobre o vazio.

O tempo todo

   Este é o título da mais completa exposição do artista plástico e escritor Álvaro Lapa (1939-2006), patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves até 13 de Maio próximo.
  Artista pleno, autodidacta como se definia, cruzou a pintura e o desenho com a literatura e a filosofia de uma forma muito pessoal, inspirada e original. De facto, em vários dos seus quadros, como nos seus livros a palavra, em forma narrativa ou aforística, literária ou filosófica, tem o seu lugar, como outras linhas e traços. Questionou-se e questionou-nos sobre as problemáticas centrais do ser humano com uma grande audácia formal, surrealista, e um grande espírito experimental, lúcido e fino.
                     
   Na sua abstracção expressiva que cruza formas e mundos, Álvaro Lapa foi uma testemunha descomprometida do seu tempo, fiel a um sentimento pessoal contagioso e de grande alcance. Esta grande e merecida exposição, a maior que lhe foi dedicada até hoje, conta com o mecenato da Fundação EDP e é uma oportunidade única de tomar contacto com a sua obra.
   Organizada em séries temáticas, tal como elas foram criadas, abrange toda a sua produção artística desde os anos 50 e poderá permitir não só conhecê-lo a ele mas a segunda metade do século XX português e melhor compreender a arte portuguesa posterior, que ele influenciou. Aconselho vivamente.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A última viagem

    "The Family"/"Jia", de Shumin Liu (2015), é o primeiro filme deste prestigiado director de fotografia chinês, distinguido com diversos prémios, entre os quais do IndieLisboa. Só agora o pude ver e é de facto singularmente belo e especialmente interessante.
     Um casal de septuagenários, Liu/Lijie Liu e Deng/Shoufang Deng, que vive no interior com uma filha divorciada, Lqiin/Liqin Huang, e com um neto, Pengpeng/Zepeng Liao, filho desta, que pretende decorar a sua nova casa e arranjar novo marido, parte para as cidades longínquas onde viivem a outra filha, Xiaomin/Xiaomin Liu, casada e com uma filha, Pingping/Erya Chen, e o filho Xufun/Xufun Liu, casado e sem filhos.
      Partindo das premissas de "Viagem a Tóquio"/"Tôkiô monogatari", de Yasujiro Ozu (1953), filme que já inspirara a João Botelho "Um Adeus Português" (1986), o objectivo da viagem do casal é tentar obter apoio financeiro para o projecto doméstico da filha mais velha junto dos seus dois imãos. O que é pretexto para os visitar, talvez pela última vez, e para com eles restabelecer o contacto no quotidiano. A Xufun pedem mais um neto e é nesta parte, em Shanghai, que decorrem os momentos mais curiosos do filme, dos jogos de cartas à narrativa por Deng do seu encontro com Liu, no final dos anos 60, e do nascimento dos filhos. O que motiva uma última viagem à Cidade do Sul, onde começaram a viver juntos e onde a saúde dele, canceroso, se agrava.
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    Adoptando uma estética de plano fixo e longo, que vem de Ozu mas também de Jia Zhang-ke e de Wang Bing, Shumin Liu demora-se especialmente nas personagens femininas e, não ingénuo, não se inibe de, por vezes, estabelecer breves cortes que reduzem a exploração temporal de cada momento. Trabalhando com não-profissionais, o cineasta tira deles o melhor proveito em espontaneidade e improvisação. E cita expressamente o mencionado filme de Ozu pelo menos na cena dos elásticos e da agulha, junto ao caminho-de-ferro.
    Há nesta última viagem de um casal idoso um cuidado, uma preocupação com os filhos e o seu bem-estar que faz o encanto deste filme longo e de facto muito bom que, com um bom tratamento do fora de campo e da arquitectura, vem de novo confirmar a evidência do melhor do cinema chinês contemporâneo a partir de um quotidiano comum e comezinho.
    O cineasta, também argumentista, director de fotografia e responsável pela montagem, coloca por vezes a câmara um pouco acima das personagens e alterna planos médios e aproximados com planos gerais que permitem uma situação delas no meio geográfico e urbano da China moderna. O final, depois do regresso a casa, é fulminante e não choca a não ser por contraste, antes situa simbolicamente aquele casal num tempo que já não é o dele.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

A festa da ópera

    Benoît Jacquot e Louise Narboni encenaram e realizaram para a televisão a célebre ópera de Giuseppe Verdi "La Traviata" (2014). Com libreto de Francesco Maria Piave, baseia-se em "A Dama das Camélias", de Alexandre Dumas Filho, e estreou-se no teatro La Fenice, em Veneza, em 1853. Transmitida pelo Mezzo ontem, sábado, à noite, é uma obra-prima da ópera oitocentista, encenada e filmada com grande virtuosismo.
    Com Diana Damrau como Violetta, Francessco Demuro como Alfredo e Ludovic Tézier como Giogio, devolve-nos o melhor da ópera em termos superiores em vozes, interpretações e realização. Como se a víssemos pela primeira vez.
     Em três actos, e com a música a cargo da orquestra e coros da Opéra Nationale de Paris´sob a direcção de Francesco Ivan Ciampa, com envolvimento da orquestra e também, subtilmente, dos espectadores, este filme dá-nos a ópera da tragédia dos amantes infelizes como universal, talvez também intemporal.
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     O trabalho de realização é soberbo, com recurso a cenários teatrais, o uso de toda a gama da escala dos planos, do grande plano e do plano de pormenor ao plano geral, especialmente surpreendente no final, e contrastes claro escuro notáveis. Os cenários são investidos de tal modo que dir-se-ia estarmos perante a realidade, que as interpretações e o guarda-roupa definem como teatral, operática.
     Este trabalho de Benoît Jacquot e Louise Narboni Narboni está ao nível das melhores óperas feitas em filme: "A Flauta Mágica"/"Trollflöiten", de Ingmar Bergman (1975), "Don Giovanni", de Joseph Losey (1979), "Parsifal", de Hans Jürgen Syberberg (1982). Aqui o sublinho e por isso para esta encenação e este filme chamo a vossa atenção.
     Benoît Jacquot já tinha feito um "Werther", de Jules Massenet e Goethe para a televisão em 2010, que não conheço. Quando feita por ele para teatro, esta "La Traviata" foi alvo de vivas críticas na imprensa francesa. Como filme é excelente, até pelo modo como se inscreve na obra do cineasta   

Vestir bem

     Depois de "The Master - O Mentor"/"The Master" (2012) e "Vício Intrínseco"/"Inherent Vice" (2014), o americano Paul Thomas Anderson estreou "Linha Fantasma"/"Phantom Thread" (2017), um filme de que é também argumentista e director de fotografia.
      Ao seu melhor nível, o cineasta centra-se em Londres nos anos 50 onde o costureiro Reynolds Woodcock/Daniel Day-Lewis, com a sua distinta clientela, escolhe aquela que  vai ser seu modelo e inspiração e depois se torna mais do que isso, Alma/Vicky Krieps, que o inspira mas também transtorna a sua vida, sob o olhar e na presença da fiel Cyril/Lesley Manville.
       Sem o lado romântico que se poderia esperar - recalcado e subterrâneo o que de pigmaliónico tiver -, a relação entre os dois torna-se difícil dada a obsessão dele pelo seu trabalho, e Alma enfrenta uma primeira tentativa de envenenamento dele, benigna e repetida no final, já com o consentimento dele, para resolver o problema. Com base num livro sobre cogumelos.
     Nos antípodas da composição fragmentária e múltipla de "Magnolia" (1999), este "Linha Fantasma" não larga os dois protagonistas, com narração de Alma para o médico, até captar as mais pequenas evoluções e as mais subtis modificações de cada um, ora seguindo-o a ele, que coloca mensagens na bainha dos vestidos, a ora acompanhando-a a ela, na passagem da admiração para o amor.
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      Obcecado com a perfeição do seu trabalho, ele sente-se progressivamente cercado e recorda a mãe, morta, que lhe aparece no quarto, enquanto ela, depois da sua surpresa mal recebida, sente necessidade de lhe tocar de modo a fazer-se sentir e a fazer-lhe doer.
      A narrativa não deixa de lembrar o homem super-protegido e idolatrado de "O Mundo a Seus Pés"/"Citizen Kane", de Orson Welles (1941), que cita expressamente pelo menos na visita do médico ao doente. Mas Reynolds Woodcock ergue em torno de si uma barreira invisível que torna impossível a aproximação por quem quer que seja.
     Assim Paul Thomas Anderson prossegue na senda de personagens desajustadas, que têm dificuldade de convívio fora dos seus próprios termos, egocêntricos. Alma é a vida que reviravolteia em torno dele, fixo - veja-se a panorâmica circular em torno dela, que a acompanha -, e que tem de encontrar os seus próprios meios para chegar até ele.
       A música de Jonny Greenwood é muito boa e está muito bem utilizada, a montagem  de Dylan Tichenor é perfeita e a fotografia assumida pelo cineasta cria os enquadramentos e as desfocagens que ele quer sem prejuízo da visibilidade do que ele quer. A resolução do final entre os dois em campo-contracampo diz tudo do isolamento de cada um apesar da proximidade por fim conseguida por Alma e consentida por Reynolds, o que o genérico de fim põe em causa.     

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A tetralogia completa e o mais

    Os dois últimos filmes da tetralogia "Les quatre soeurs", de Claude Lanzmann (2017), de que falei aqui na semana passada, passaram como previsto ontem, terça-feira, no programa "Théma" do Arte.
    A terceira parte, "Baluty", com Paula Biren, demora-se sobretudo na descrição do gueto de Lodz, na Polónia, de onde a entrevistada, que chegou a integrar uma unidade de polícia, partiu para Auschwitz. Daí conseguiu sair com vida para os Estados Unidos. E aqui todos são mencionados, alemães e polacos, judeus e não judeus, num processo cumulativo que acabou por conduzir ao extermínio da maioria.  
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     Na quarta e última parte. "L'arche de Noé", com Hanna Marton, esta situa-se a partir de Cluj, na Hungria, que em 1940 a reocupou na Transilvânia e renomeou Kolozsvar, de onde acabou por partir não para o extermínio mas para a Suíça, incluída numa lista não aleatória. A experiência da ocupação alemã da sua terra, Cluj, é vívidamente recordada, nos grandes planos que Lanzmann dedica a cada uma das participantes nesta tetralogia.
    A noite temática do Arte terminou com "Auschwitz Projekt", do documentarista Emil Weiss (2017), já autor de outros filmes sobre o assunto, nomeadamente a trilogia "Hourben"/"Destruction". Este excelente documentário dá conta pormenorizadamente do projecto nazi, da sua concepção à sua concretização, acompanhado de testemunhos das vítimas.
    A noite não terminou, porém, sem que fosse transmitido o documentário "Claude Lanzmann - Poerte-parole de la Shoah", de Adam Benzine (2015), em que o cineasta fala longamente sobre o seu primeiro e principal grande filme e também sobre si próprio.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O mesmo caso, a mesma causa

     O mais recente filme do veterano (quem diria?) Steven Spielberg, "The Post" (2017), é um filme muito bom, mais uma prova exuberante do seu talento e da sua mestria. Num momento difícil para a América, coloca-a perante a sua própria imagem no passado recente, sem contemplações mas também sem pessimismo.
     Centrado na divulgação pela grande imprensa americana de relatórios secretos do Pentágono sobre a Indochina e a Guerra do Vietname desde a administração Truman, acompanha os homens do Washington Post que, com o seu editor Ben Bradley/Tom Hanks, chegaram atrasados em relação ao The New York Times a um caso suscitado pelo analista militar Daniel Ellsberg/Matthew Rhys, como é mostrado logo no início do filme, o que os prejudicou mas também acabou por beneficiar.
      O lugar principal acaba por ser o de Kay Graham/Meryl Streep, accionista do jornal que, ao dar o seu consentimento ao prosseguimento da divulgação pelo Post dos relatórios secretos, põe em jogo uma posição financeira maioritária e uma venda contra o seu amigo Robert McNamara/Bruce Greenwood, Secretário da Defesa de Kennedy e Johnson, e contra os conselhos amigos de Fritz Beebe/Tracy Letts, entre outros. E a questão das "amizades políticas" está muito bem tratada e ultrapassada, corria o primeiro mandato de Richard Nixon, no início dos anos 70.
    Mas Spielberg aponta alto neste seu filme político, pois em termos de realização convoca repetidamente "O Mundo a Seus Pés"/"Citizen Kane" de Orson Welles (1941). Mesmo sem exceder as remissões da mise en scène, com plongés e contra-plongés a propósito, nomeadamente em escadas, um grande-plano sobre  a câmara solto, fica bem ao cineastra recordar o filme fundador do cinema moderno americano, que era também sobre jornalismo e política.
                      http://amazonasatual.com.br/wp-content/uploads/2018/01/the-post.png
        De resto, com a participação dos seus colaboradores habituais na fotografia, Janusz Kaminski, na música, John Williams, e na montagem, Michael Kahn e Sarah Brosher, sobre argumento de Liz Hannah e Josh Singer a realização é muito boa, pendular entre os protagonistas mas seguindo atentamente os jornalista que seguem a pista do relatório já divulgado parcialmente, com destaque para Ben Bogdikian/Bob Odenkirk, para o divulgar o mais completamente possível.
           Com o Times paralisado, cabe ao Post prosseguir o mesmo caso, a mesma causa. Com um final empolgante, em corrida contra o tempo enquanto se espera a decisão do Supremo Tribunal, o desfecho optimista não se consuma sem abrir a porta para o caso seguinte, o Watergate, que mereceu a Alan J. Pakula "Os Homens do Presidente"/"All the President's Men" (1976).
           Agora o maior destaque vai para a grande interpretação de Meyl Streep no seu primeiro trabalho com o cineasta, que a confirma como a mais importante actriz americana do seu e nosso tempo. Tom Hanks, actor habitual do realizador, está sóbrio e contido. Aliás todo o cast é impecável, participando do sucesso artístico do filme.
           É claro que é a liberdade de imprensa que aqui está em causa, esteio sólido da democracia americana neste caso como nos nossos dias. Ao fazer o seu trabalho ela não ofende senão os que a tal se proporcionaram, na política como no espectáculo. Doa a quem doer. Defendida por Steven Spielberg com toda a pertinência num filme memorável e muito recomendável.