quinta-feira, 1 de março de 2018

Outro caso real

       "15:17 Destino Paris"/"The 15:17 to Paris", de Clint Eastwood (2018), rima na obra do grande clássico americano vivo com "Sniper Americano"/"American Sniper" (2014), em que, além do heroísmo, ele mostrava o pessimismo americano sobre a guerra no Iraque. Aqui ele escolhe um episódio muito recente que envolve três americanos na neutralização de um terrorista no comboio Amsterdão-Paris, em 2015.
    Partindo da opção feliz de mostrar a vida dos três protagonistas desde a infância, Spencer/William Jennings, Alek/Bryce Gheisar e Anthony/Paul-Mikél Williams, durante a qual eles foram colegas numa escola católica, só na sua segunda parte o filme se centra na viagem deles pela Europa a partir de Roma para, depois de Veneza e Berlim, se encontrarem todos em Amsterdão, onde apanham o comboio que vai definir o seu destino.
       Como "Milagre no Rio Hudson"/"Sully" (2016) baseado em factos reais, este é um filme menos espectacular e por isso mesmo mais notável, em que se nota a marca, a assinatura do cineasta, de quem justamente Godard dizia que se reconhece um plano seu pela posição da câmara - e, acrescento eu, por algo mais do que isso: uma mise en scène, uma concepção do espaço, uma secura narrativa eliptíca, embora aqui acomodadas.
                      
        Com argumento de Dorothy Blyskal, baseado no livro dos protagonistas, Anthony Sadler, Alek Skarlatos e Spencer Stone com Jeffrey E. Stern, "15:17 Destino Paris" devolve-nos uma América confiante em si própria, nos seus princípios e na sua iniciativa, na sua decisão e na sua coraagem, sem que o cineasta se veja forçado a um golpe de rins para o fazer. A escolha do filme foi dele e a opção de mostrar os próprios protagonistas a interpretarem-se a si próprios resulta muito bem.
      Contando com fotografia do habitual Tom Stern, música de Christian Jacob, o mesmo de "Milagre no Rio Hudson", e montagem de Blu Murray, assistente em "Sniper Americano", este um filme que nos devolve o melhor do cinema americano e da América sem forçar os  traços, a partir dos factos reais. Muito recomendável para todos, mesmo para americanos distraídos com a revolução digital e o espectáculo do 3D
       Mas não deixarei de dizer que Clint Eastwood, realizador e produtor deste filme, aqui como nos dois anteriores mostra "heróis americanos" indiscutíveis, ele melhor do que ninguém saberá porquê, o que confere a esses filmes um certo tom de propaganda. Gostaria de o ver regressar a seguir ao seu espírito agudamente crítico sobre a América contemporânea e os americanos de hoje, que celebrizou mesmo quando foi menos consensual.      

Bom panorama

       "Uma Viagem pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier"/"Voyage à travers le cinéma français", de Bertrand Tavernier (2016), é um filme muito bom e completo sobre uma das cinematografias mais importantes da Europa e do mundo, feito a partir do ponto de vista e da experiência do cineasta desde a sua infância.
        Sempre com recurso a excertos de filmes e declarações dos envolvidos na sua produção, começa com Jacques Becker e termina com Claude Sautet, aos quais é dedicado. Fica bem ao cineasta deter-se, além de Jean Renoir, Jean Gabin, Jean Vigo, Marcel Carné, Jacques Prévert e Jean-Pierre Melville, nos menos conhecidos Edmond T. Gréville e John Berry entre outros, bem como em Eddie Constantine, que o marcaram e são raramente referidos.
        Lamento, contudo, que a referência à nouvelle vague francesa seja tão breve e selectiva, deixando de fora Rivette e Rohmer, por exemplo, e que René Clair, Robert Bresson, Henri-Georges Clouzot, Jean Rouch, Alain Resnais e Jacques Tati sejam pouco referidos, quando não omitidos. Mas tal dever-se-á provavelmente a ele ser um homem da Positif, uma importante e antiga revista francesa de cinema, o que o faz estar atento aos compositores Maurice Jaubert e Joseph Kosma.    
                          http://www.thebloggerscinemaclub.com/wp-content/uploads/2016/11/media.jpg
        Na sua longa duração este filme contém histórias curiosas, algumas delas fabulosas e desconhecidas do cinema francês que Tavernier descobriu e trouxe para o seu filme, feito à maneira dos de Martin Scorsese sobre o cinema americano e sobre o cinema italiano, como eles completo e muito bem feito.
        Aproxima-me deste cineasta francês, justamente célebre, ter tido como ele uma "primo-infecção" na infância e o gosto pelo cinema americano, mas afasta-me dele o gosto pessoal e a perspectiva crítica que, sendo também parcial e subjectiva, nos Cahiers du Cinéma dos anos 50 era mais virulenta, mais apaixonada e esclarecida - embora por vezes também mais injusta -, o que fez com que das suas fileiras tenha saído o melhor da nouvelle vague.
          Mas vejam pois, bem documentado e comentado, só vos pode fazer bem na sua seriedade e na sua erudição. Os franceses choraram com este filme, o que com o seu sentimentalismo e o seu chauvinismo se compreende, nós podemos vê-lo com os olhos secos.      

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Agora no Porto


Serei o último

     Serei último a defender "A Forma da Água"/"The Shape of Water", de Guillermo del Toro (2017), um melodrama xaroposo situado nos anos 50, com o monstro (a afronta/Doug Jones), o super vilão branco (Richard Strickland/Michael Shannon), a muda (Elisa Esposito/Sally Hawkins), a amiga dela (Zelda Fuller/Octavia Spencer), o pobre de espírito mas bom tipo (Giles/Richard Jenkins), o espião soviético (Robert Hoffstetler/Michael Shuhlbarg) e o mais em termos de clichés, em simples metáfora sobre eles, o outro, a diferença, fantasia sem densidade nem reflexão para  além deles.
     Serei, contudo, o último a atacar o filme dado o seu humanismo simples para os dias de hoje, na América com um inquilino da Casa Branca "conservador" no mínimo. Também os anos 50 foram uma era de presidência conservadora, que anteciparam a mudança com John F. Kennedy. Talvez que a principal qualidade deste filme seja ser directo e acessível e não ambcionar mais do que isso em tom encantado e musical
     Com todas as referências cinematográficas e televisivas da época, em que o melodrama como o musical, a ficção científica como o filme histórico foram géneros em evidência, o cineasta aproveita-as bem mas também a nível elementar, directo e simples, com um argumento da sua autoria e de Vanessa Taylor baseado em história dele a que se fica a dever o seu lado "politicamente correcto", que a realização enfatiza. E Baltimore faz o lugar de "cidade de província", que na época talvez fosse.
                     http://georgekelley.org/wp-content/uploads/2018/01/m-theshapeofwater.jpg
      Mas é preciso também perceber que o cineasta não se liberta do modelo de "O Labirinto do Fauno"/"El laberinto del fauno" (2006) ou de "Crimson Peak: A Colina Vermelha"/"Crimson Peak" (2015), o que até poderia ser um sinal positivo não se dera o caso de ser uma repetição sem variação nem aprofundamento, tudo superficial e sem avanços que se notem, óbvio e com todos os evidentes segundos sentidos.
      "A Forma da Água" tem tudo no seu lugar para os Oscars e para a glória do grande realizador, aliás também produtor, incluindo as referências pseudo-cultas, enquanto que como filme tem todos os clichés que fazem um cinema fraco embora popular, o que não é neste caso indiferente. Prefiro-lhe "Três Cartazees à Beira da Estrada"/"Three Billboards Outside Ebbing, Missouri", de Martin McDonagh, um bem melhor filme (ver "Protesto visível", de 14 de Janeiro de 2018).
     Chamo apenas a atenção para a presença constante de uma música de fundo, de Alexandre Desplat, muito boa mas para embalar num filme que como cinema não tem nada, mesmo nada de especial - a fotografia de Dan Laustsen e a montagem de Sidney Wolinsky, tal como as interpretações e a realização são apenas correctas. 
      Serei o último a defendê-lo e o último a atacá-lo porque é um filme útil no presente momento, com uma simplicidade que não lhe basta para ser um grande filme. Por sua vez o cineasta tem algumas boas ideias sobre a narrativa e sobre o cinema, mas está num impasse criativo, o que se espera venha a ultrapassar no futuro.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Memória rápida

    "Robert Frank - L'Amérique dans le viseur"/"Don't Blink - Robert Frank", de Laura Israel (2015), percorre rapidamente a vida e a obra do mítico fotógrafo de "The Americans", permitindo com a presença e a palavra dele tornar tudo mais vivaz.
     Da sua infância em Zurique, com a memória do pai, também fotógrafo, aos anos 50 americanos - em New York com a beat generation mas percorrendo todo o território com a sua máquina fotográfica - no final dos quais começou a fazer filmes experimentais, e às décadas seguintes, com os seus traços específicos numa experiência pessoal, tudo nos é recordado com imagens.     
                      
          O testemunho dele é importante na afirmação da criação artística em luta contra  o destino (o que aliás é pretexto para uma tradução francesa errada no filme) e na sumária descrição do seu método sem método: quando encontra o que/quem lhe interessa, e o seu motivo principal é a figura humana, dispara a câmara. Claro que para isso tem de procurar.
         Mas Robert Frank fala aqui também sobre o irmão, sobre a mulher, Mary e sobre os filhos, sobre colegas e amigos, enquanto são convocados também os seus filmes, em que chegou a abalançar-se na longa-metragem independente, nomeadamente em "Candy Mountain" (1987). Mas a sua paixão foi a fotografia, embora reconheça maior vivacidade ao cinema.
          É um bom filme, feito pela montadora habitual dos seus filmes, mas sabe a pouco na sua descrição e recordação rápida de uma vida rica e variada. Passou ontem, segunda-feira, à noite no Arte.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O ás do volante

    Nicolas Winding Refn é um realizador e argumentista de origem dinamarquesa a viver nos Estados Unidos onde, antes de "Só Deus Perdoa"/"Only God Forgives" (2013) e "The Neon Demon - O Demónio de Néon"/"The Neon Demon" (2016), que não conheço, realizou "Drive . Risco Duplo"/"Drive" (2011), prémio da melhor realização em Cannes, que o Arte mostrou na noite de ontem, Domingo.
     Com argumento de Hossein Amini baseado em romance de James Sallis, narrativamente é mais um filme de  gangsters com um "ás do volante", Driver/Ryan Gosling, que trabalha como motorista profissional no cinema mas também em assaltos importantes e acaba por participar em mais um para libertar o marido de Irene/Carey Mulligan dos compromissos a que foi sujeito na prisão. Contudo este morre  e as coisas complicam-se.  
                                   https://maniacosporfilme.files.wordpress.com/2012/05/drive.jpg
    Com uma realização geométrica e muito boa, conta com fotografia de Newton Thomas Sigel, música muito bem utilizada de Cliff Martinez e montagem de Matthew Newman. Beneficia também de boas interpretações e de um final ambíguo.
     Poder-se-ia considerar este filme na esteira de Michael Mann, ambicioso e conseguido embora sem novidades especiais. Agora é um filme original e pessoal, bem trabalhado em secu ra, elipse e flash-back.
     Numa matéria em que tudo parece já ter sido dito e estar esgotado, consegue com agilidade e desembaraço estabelecer as regras da narrativa e do jogo de forma feliz, sem tropeçar nas armadilhas habituais do lugar comum dos filmes de gangsters.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

É melhor a dois

        "Olhares, Lugares!/"Visages, Villages", de Agnès Varda e JR (2017), é um belo documentário sobre a França e os franceses, a fotografia e o cinema.
        Muito ao jeito dela, que é uma lenda do cinema francês desde a "nouvelle vague" e desde aí se habituou e nos habituou a não fazer filmes para a bilheteira, este é um documentário que, mostrando o presente, evoca o passado dela e do cinema a partir da fotografia a que ela se dedicou e JR se dedica.
       A partir da ideia da amplificação de fotografias para a fachada de edifícios, ambos visitam agricultores e operários do noroeste da França em pequenos trechos muito curiosos, enquanto dialogam e se picam um ao outro. Especialmente interessantes a visita à avó dele, centenária, a visita ao porto do Havre e às mulheres dos estivadores, e a visita ao pequeno cemitério onde está sepultado Henri Cartier- Bresson.
                     Ensemble, ils ont réalisé le film 'Visages Villages'. Agnès Varda & JR nous en parlent ce soir dans .
⏰ #Quotidien19H20
📺 
@TMCtv@JRart
            Mas a evocação que ela faz do cinema, em especial do seu tempo, tem o maior interesse como memória de uma época crucial da história do cinema de que ela é uma das poucas protagonistas e testemunhas vivas. Desse ponto de vista são especialmente interessantes as recordações do tempo em que, nos anos 60, ela e o Jacques Demy eram convidados do Jean-Luc Godard e da Anna Karina.
           Mais importantes são o estudo do quadro da fotografia por ambos, no presente e sobre o passado, o exame ocular dela e as fotografias que ele faz das suas mãos e pés, e mais significativa a visita ao Louvre no rasto de "Bande à part" de Jean-Luc Godard (1964), cineasta mítico como ela que no final, preservando o mito, falta ao encontro com ela marcado, o que a faz chorar apesar da resposta que lhe deixa escrita.
         Muito evocativo e muito bem ancorado na actualidade, jogando na dialética presente-passado, este é um filme excelente, patrocinado, entre outros, pelo Arte e pelo MoMA.