domingo, 8 de abril de 2018

A amazona

      Com argumento de Allan Heinberg baseado na personagem criada por William Moulton  Marston e Harry G. Peter, "Mulher-Maravilha"/"Wonder Woman" de Patty Jenkins (2017) parte da personagem da DC Comics, Diana/Gral Gadot, filha de Hippolyta/Connie Nielsen, uma amazona treinada por Antiope/Robin Wright, para a fazer emergir no final da I Guerra Mundial, na Europa.
      Aí ela ajuda o Capitão Steve Trevor/Chris Pine a derrotar as forças alemãs contrárias ao armistício, vencendo pessoalmente o General Ludendorff/Danny Huston e a sua acólita, a Drª. Maru/Elena Anaya, e o super-vilão Sir Patrick/David Trewlis, que a queria fazer desistir de ajudar os humanos.  
                      Gal Gadot 'threatens to leave Wonder Woman series' unless Brett Ratner leaves
      Típica história de banda-desenhada americana, "Mulher-Maravilha" assume o seu grafismo em termos cinematográficos, com muita criação digital e efeitos digitais que tornam a personagem mais forte, mais protegida e mais ágil, e por isso invencível.
      Tem fotografia de Matthew Jensen, música de Rupert Gregson-Williams e montagem de Martin Walsh. Sobressaem os cenários de Anna Lynch Robinson e o guarda-roupa de Lindy Hemmings. Por sua vez, Patty Jenkins já tinha realizado "Monstro"/"Monster" (2003), que valeu a Charlize Theron o Oscar da Melhor Actriz, e volta a ter aqui um bom trabalho.
      O grande espectáculo do filme está de acordo com o grande espectáculo que desde cedo alimentou o cinema americano, feito para espectadores de todas as camadas de público e, portanto, para o box-office, no que cumpriu acima das expectativas. Não sendo apreciador deste género de filmes, posso apreciar o engenho da sua criação e identificar na protagonista e na narrativa reconhecíveis valores americanos sob a poderosa protecção da filha dos deuses.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A ultima missão

     "Hostis"/"Hostiles", de Scott Cooper (2017), é mais um western fora do tempo que chama a atenção para um género clássico há muito dado como findo. Na sua extemporaneidade, apesar das suas limitações inevitáveis consegue surpreender por boas razões.
    O filme começa com a morte por índios hostis do marido e das filhas de Rosalie Quaid/Rosamund Pike, seguida pela morte e maus tratos de índios pelo exército americano. Em 1892, no Novo México, o Capitão Joseph. J. Blocker/Christian Bale aceita com relutância, como sua última missão de serviço, transportar até ao Vale dos Ursos, no Montana, o Chefe comanche Yellow Hawk/Wes Study, preso há sete anos e muito doente, com um cancro, acompanhado pela família.
     Pelo caminho, durante o qual vai perdendo homem atrás de homem, a pequena caravana encontra primeiro Rosalie, perdida e só, depois um outro oficial preso por assassinato, antigo companheiro de armas de Blocker em Wounded Knee, confiado a este no Colorado para o conduzir ao seu destino: a forca. 
                      Hostiles, crudo viaggio nel western americano con Christian Bale
      Com algumas opções de realização surpreendentes, o cineasta recorda em especial "O Grande Combate"/"Cheyenne Automn", de John Ford (1964), presente noutros aspectos como outros cineastas clássicos, em especial Howard Hawks e Raoul Walsh. Acompanhando um percurso lento, feito a cavalo, "Hostis" assume uma lentidão fílmica que o acompanha e deixa fora de campo sequências-chave como a violação de Rosalie e da filha de Yellow Hawk, raptadas, ou a fuga do prisioneiro. 
     Num filme com muitos diálogos e uma sucessão de memórias e conflitos internos ao grupo, a unidade dos seus elementos, índios incluídos, vai impor-se por proposta do Chefe Cheyenne, doente terminal. No final o grupo de um rancheiro dizima o que sobrara do grupo e é dizimado por este, Rosalie incluída. Só ela, a neta do Chefe Yellow Hawk e Blocker sobrevivem, num final de comboio que parte bem resolvido.
     Com argumento, produção e realização de Scott Cooper, que nos dera já "Black Mass - Jogo Sujo"/"Black Mass" (2015), este filme bem calibrado conta com fotografia de Masanobu Takayanagi, música de Max Richter e montagem de Tom Cross, e deixa boa impressão com os seus sucessivos momentos de grande tensão intercalados com outros em que nada acontece e uma narrativa baseada em manuscrito de Donald E. Stewart, que permite situá-lo bem no espaço e no tempo.
      Depois de "The Revenant: O Renascido"/"The Revenant", de Alejandro Gonzalez Iñarritu (2015) e de "Os Sete Magníficos"/"The Magnificent Seven", de Antoine Fuqua (2016), é mais um western bem-vindo. Um por ano e viva o velho, que a ética é uma questão difícil na América actual. Mas este é um género do qual não há como revisitar os clássicos, de quando André Bazin o considerou "o cinema americano por excelência".

quinta-feira, 29 de março de 2018

Mais uma despedida

    A Livraria Pó dos Livros, que encerra no próximo sábado, 31 de Março, era uma das melhores livrarias de Lisboa, onde era possível encontrar de tudo, da actualidade ao circuito minoritário mais valioso e difícil, passando por livros mais antigos.
    Fui seu cliente assíduo, sempre muito bem tratado e bem servido em (quase) todas a minhas encomendas mais complicadas. Não consegui tempo até hoje, e já não o vou conseguir até sábado, para lá ir buscar o que tinha encomendado e (quase) só eles me arranjavam.  
                      
    Isto da livraria tradicional é muito importante para mim, porque passa pelo contacto físico com cada livro, folheado, consultado por interesse e curiosidade, venha-se a comprá-lo na altura, mais tarde ou nunca.
    No meio dos livros fui criado, cresci e vivi toda a minha vida, e por isso lamento muito mais esta baixa, que me deixa sem alternativas à altura - não falo das que ainda existem para não dar azar.
   Com todo o meu reconhecimento e apreço, com muita tristeza aqui me despeço dos meus impecáveis amigos/as da Pó dos Livros, de quem vou sentir muita falta. Se puderem, passem ainda por lá.

quarta-feira, 28 de março de 2018

A mulher burguesa

      Stéphane Audran (11932-2018), que agora nos deixou foi uma actriz francesa excepcional, que se notabilizou em alguns dos melhores filmes de Claude Chabrol nos anos 60 e 70 do século  XX.
      Mulher do cineasta, que inspirou, iluminou com o seu talento e a sua beleza filmes como "As Boas Mulheres"/""Les bonnes femmes" (1960), "L'oeil du malin" (1962), "Landru" (1963), "As Rivais"/"Les biches" com Jean-LouisTrintignant (1968), "A Mulher Infiel"/"La femme infidèle" com Michel Bouquet (1969), "O Carniceiro"/"Le boucher" com Jean Yanne (1970), "Núpcias Vermelhas"/"Noces rouges" com Michel Piccoli (1972), "Laços de Sangue"/"Les liens de sang" com Donaldd Sutherland e "Violette Nozière" com Isabelle Huppert (1978),"Le sang des autres", com Jodie Foster, baseado em Simone de Beauvoir (1984), "Betty", com Marie Trintignant, baseado em Simenon (1992). 
                      https://mindreels.files.wordpress.com/2014/03/boucher-3.jpg
     Sem ser uma vedeta do cinema francês, como Anna Karina para Godard, Sabine Azéma para Resnais, Arielle Dombasle para Rohmer, foi a actriz-fétiche de um cineasta de proa da nouvelle vague francesa, em que por essa via esteve impliacada. Notada entre outros por Luis Buñuel, esteve presente em "O Charme Discreto da Burguesia"/"Le charme discret de la bourgeoisie" (1972) e emprestou a sua personalidade e a sua figura de mulher a muitos outros filmes, entre os quais destaco "A Festa de Babette"/"Babettes gaestebud", de Gabriel Axel (1987).
    Porque conhecia muito bem Stéphane Audran pelos filmes que interpretou, e por isso a admirava, aqui assinalo o seu passamento com  profunda tristeza.

domingo, 25 de março de 2018

O vento sopra onde quer

           "Que o Diabo Nos Leve"/"Que le diable nous emporte" é o mais recente filme do francês Jean-Claude Brisseau (2016), cheio de referências ao cinema francês e o topo da sua obra até aqui.
     Depois da trilogia "Coisas Secretas"/"Choses secrètes" (2002), "Os Anjos Exterminadores"/"Les anges exterminateurs" (2006) e "À Aventura"/"L'aventure" (2008), e depois de "A Rapariga de Parte Nenhuma"/"La fille de nulle part" (1012), o cineasta despacha no início as cenas eróticas, entre Camille/Fabienne Babe, Suzy/Isabelle Prim e Clara/Anna Sigalevitch, que se reúnem em casa da primeira, Suzy à procura do telemóvel com cenas de sexo gravadas que tinha perdido e a primeira tinha encontrado, depois também em fuga do seu apaixonado insistente e armado, Olivier/Fabrice Deville, a última que salvou Camille e vai subtraí-lo a ele das garras da polícia e tentar fazê-lo esquecer.
                                
         O filme tem uma construção rohmeriana nos pares que se formam, desfazem e refazem, o que a biografia de Eric Rohmer de Antoine de Baecque e Noël Herpe em casa de Olivier explicita. Mas em casa de Camille habita tambémTonton/Jean-Christophe Bouvet, que depois da visita da mãe, do padrasto e do pai (interpretado pelo próprio Brisseau) de Camille e da confissão desta do seu passado para as outras duas, vai lidar com Suzy que quer fazer-lhe a ele a sua confissão. 
       Ora Tonton, praticante de yoga que desaparece e aparece inesperadamente, acaba por arrumá-la com o célebre "o vento sopra onde quer" de Robert Bresson. Junto ao "diable" do título, nada é aqui acidental. E há ainda um Godard célebre dos anos 60 de passagem.
         O trabalho de Camille de estetização de imagens de sexo pelos novos meios digitais é bem visto se bem que forçado, mas contrasta com o que Suzy filmara com o seu telemóvel. Após a explicação de Olivier a Clara de como o início do cinema sonoro influenciou o teatro, muito boa e só falada num filme com muitos diálogos e falas, tudo termina com a ausência da Camille por causa da morte do pai e um novo trio, Clara, Suzy e Olivier, que passara a amar a primeira sem deixar de amar a segunda.
                       Que le diable nous emporte
          Com um tom harmonioso e feliz, prosseguindo o tratamento do sexo feminino na sua obra Jean-Claude Brisseau, realizador, co-produtor e argumentista, trabalha o seu tema de forma nova e original, que passa pelo misticismo, o yoga e a reincarnação, o prazer feminino, o amor e a "herança psiquiátrica".
         "Que o Diabo Nos Carregue" é um filme de grande mestria narrativa, técnica e artística, que conta com fotografia de David Grinberg, música da actriz Anna Sigalevitch (uma revelação) e montagem de Maria Luisa Garcia.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Arte experimental

    Do canadiano Michael Snow encontra-se patente na Culturgest, em Lisboa, até 22 de Abril próximo a exposição "O Som da Neve", comissariada por Delfim Sardo.
   Trata-se de uma pequena mas significativa mostra das instalações visuais, sonoras e audiovisuais de um artista muito importante, com uma obra diversificada e muito curiosa que inclui filmes experimentais, como o famoso "Wavelenght" (1967), alguns deles também mostrados, que exploram em especial uma dimensão temporal do filme.
    Chamo especialmente a vossa atenção para o tratamento do som nesta instalações, parte integrante delas, algumas dedicadas predominante ou exclusivamente à música.
                     
      Simultaneamente, prossegue na Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema o ciclo "A Arte da Visão" dedicado ao também famoso cineasta experimental americano Stan Brakhage (1933-2003), uma ocasião única de ver uma das obras mais importantes nessa área.
     Dedicou especial atenção aos olhos e ao que eles vêem mas também à figura humana e aos objectos, no que utilizou diferentes formatos e técnicas do cinema e da pintura de forma original.
     Cineasta do maior relevo, ele foi figura destacada do cinema de vanguarda americano, autor de uma obra muito marcante que vale a pena conhecer em mais uma grande iniciativa de programação da Cinemateca. Até 29 de Março.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Estilhaços

        O mais recente filme de Teresa Villaverde, "Colo" (2017), ddepois de ter estado no Festival de Berlim estreou finalmente em Portugal, confirmando-a como um dos mais importantes cineastas portugueses da sua  geração, ao lado de Pedro Costa como desde o início de ambos tenho dito.
      Depois da aparente auto-complacência feminina de "Cisne" (2011), a sua anterior longa-metragem, a cineasta, argumentista, produtora e realizadora, escolhe uma família, o casal  interpretado por João Pedro Vaz e Beatriz Batarda, e a filha, Marta/Alice Albergaria Borges. Privilegiando o ponto de vista desta, com a qual o filme arranca e termina, dá conta do estilhaçamento de uma famíla num tempo nem de guerra nem de escassez como a filha grita à mãe.
       Marta tem uma amiga, Júlia/Clara Jost, que está grávida e quer continuar a gravidez, e que ela acolhe em sua casa depois de o pai, desempregado, ter tido o seu despertar na banheira, como Brigitte  Bardot com Michel Piccoli em "O Desprezo"/"Le mépris" (1963), sob o signo do vermelho da toalha e do azul do balde, as cores de "Pedro, o Louco"/"Pierrot le fou" (1965) ambos de Jean Luc Godard. Com a mãe desinteressada e incapaz de pagar a conta da electricidade, ela vagueia e aproxima-se da avó depois de o pai, sempre sob o signo das mesmas cores e com regresso recorrente ao terraço, declarar querer assumir a paternidade do filho de Júlia.    
                      
     Com um compreensível salto geracional e com o corte da electricidade muito bem aproveitado pela excelente fotografia de Acácio de Almeida, "Colo" alonga-se nas suas inevitabilidades, como o namorado de Marta e os episódios paternos, quando o apoio mútuo requerido na família, o colo, cai e ela se estilhaça, o que é simbolizada pela morte do pássaro doméstico.
    Algures entre Ingmar Bergman e Andrei Tarkovski, Teresa Villaverde cria mais um filme muito bom e irrepreensível, com um tratamento espacial perfeito - as divisões do plano, a profundidade de campo, a diagonal - e uma decantação temporal muito bem trabalhada - os planos longos do pai, nomeadamente no terraço. A raridade da música, que sobe no final, deixa tudo mais preciso e sem salvação, enquanto o travelling sobre a casa fechada do fim é muito bom
    O aparecimento de Simone de Oliveira como a avó e de Rita Blanco como Sílvia no final está muito bem visto, num filme de grande seriedade e grande rigor, ao que a cineasta nos habituou já ao longo de uma obra do maior relevo em que tem aperfeiçoado um estilo próprio, uma obra que "Colo" acrescenta de forma significativa.