quarta-feira, 23 de maio de 2018

Gigantes

    Júlio Pomar (1926-2018) foi um pintor e artista plástico - desenho, gravura, cerâmica, escultura - fundamental do século XX português. Começou com o neo-realismo, de que quando foi para Paris nos anos 50 se afastou para a arte moderna, em que foi figura central. Referência também do ponto de vista político, mesmo depois da sua morte a sua obra e o seu legado continuam a desafiar-nos. Continuem a visitá-lo no atelier-museu com o seu nome em Lisboa.
                                      A leiloeira adiantou que "já há alguns interessados na aquisição" da tela
      Philip Roth (1933-2018) foi o maior nome da literatura norte-americana contemporânea, com uma obra de reflexão inquieta e profunda sobre o seu país e o seu tempo. É incompreensível e imperdoável que, tendo recebido as grandes distinções literárias do seu país, não lhe tenha sido atribuído o Nobel da Literatura. Para perceber em profundidade a América do nosso tempo e conhecer o melhor da literatura americana, de que foi um dos nomes mais importantes, é preciso ler os seus livros, editados em português.
                      Philip Roth: 'Writing for me was a feat of self-preservation'
     Foi uma honra ter vivido no tempo destes dois gigantes, que marcaram a arte portuguesa e a literatura americana, respectivamente, para além de quaisquer fronteiras. Cada um deles provou que é no espaço da criação pessoal própria na sua área de eleição que cada um de nós atinge os limites do humano que o justificam. O que é tanto mais importante quanto as capacidades pessoais são maiores. Aqui me despeço de ambos, os recordo e os aconselho. 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Distinção

    António Arnaud (1936-2018) foi um homem de grande qualidade e um político distinto, responsável como governante pela criação do Serviço Nacional de Saúde, que todos, em especial os mais desfavorecidos, lhe devemos e a que o seu nome ficou indossoluvelmente ligado.
                      António Arnaut está a trabalhar em nova lei de carreiras para o Sistema Nacional de Saúde
     Sem paciência para a pequena querela ou a intriga política nem feitio para o carreirismo, mesmo depois de se retirar da vida política activa permaneceu como referência democrática e ética, que continuará a ser.
   Homem da grandes causas e de grandes sentimentos, não se vergou ao oportunístico compromisso político, permanecendo uma figura exemplar e uma voz crítica de respeito e respeitada. Aqui o recordo na sua partida e aponto como exemplo a seguir pelos mais novos, que devem conhecer o seu pensamento e o seu trabalho, receber o seu legado cívico e político prosseguindo-o.

A pessoa certa

    "Madame Hyde", de Serge Bozon (2017), proporciona a Isabelle Huppert mais uma excelente interpretação no papel de Madame Géquil, professora que só ensina teoria mas nas suas experiências pessoais se carrega de electricidade e assim se torna mortal Madame Hyde.
    Muito bem ambientado num liceu do subúrbio e com boas interpretações, o filme levanta a questão das relações professor-alunos enquanto acompanha a evolução, primeiro, a transformação, depois, da protagonista, que tem um aluno preferido que tenta instruir, Malik/Adda Senani. O contacto dela com os alunos passa de difícil a exemplar, para espanto de todos. 
     Com bons e sóbrios efeitos especiais, é um filme que contrasta o extraordinário com o comum e trata a história clássica original de Robert Louis Stevenson de forma diferente e inspirada. Serge Bozon volta a dar boa conta de si, nomeadamente no início e no surgimento de Madame Hyde.
                                      Madame Hyde
    Malik vem a considerar a sua professora como "a pessoa certa" e, de facto, às vezes as pessoas certas têm alguma coisa de especial que nos faz aceder ao que elas dizem, o que naquele caso é fundamental para passar a comunicação.
     A narrativa fascinante do ser que se duplica deu já origem a vários filmes notáveis no cinema, numa genealogia em que destaco aqui o filme de Rouben Mamoulian de 1931, com Frederic March, o de Victor Fleming de 1941, com Spencer Tracy, o de Jean Renoir, de 1959, com Jean-Louis Barrault, o de Jerry Lewis de 1963 e o de Stephan Frears de 1996, com Julia Roberts e John Malkovich, a que este se vem agora juntar com uma magnífica Isabelle Huppert..
     Roman Duris como o reitor e José Garcia como Pierre Géquil cumprem bem. A fotografia é de Céline Bozon, a música de Benjamin Esdraffo e a montagem de François Quiqueré na quinta longa-metragem do realizador, co-argumentista com Axelle Ropert. O cinema francês continua a reservar-nos belas surpresas.    

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Memória poética

   "Coração de Cão"/"Heart of a Dog", da cantora e performer Laurie Anderson (2015), é um exemplar filme independente americano ao jeito do underground de New York feito pela viúva de Lou Reed (1942-2013) em memória dele.
    Com grande imaginação e criatividade, a história da cadela torna-se história pessoal, cultural e universal, com as imagens subjectivas próprias, os olhares para a câmara e o comentário pessoal em off, que recorre a Wittgenstein, Kierkegaard, David Forster Wallace e ao livro tibetano dos mortos, e o filme torna-se ensaio na aliança entre imagem do cinema e pensamento.
                       Run Extended! Laurie Anderson’s “Heart Of A Dog” Now Playing Until January 13th
  Não tinha visto quando estreou em Portugal e vi agora quando passou no Arte, em La lucarne, na noite da passada segunda-feira. Apreciei imenso tudo aquilo que a realizadora consegue fazer em cinema, com o cinema, sem abdicar da sua criação pessoal, antes com ela.
 Contando com uma referência política detida ao armazenamento de dados pessoais pela segurança interna do governo americano depois do 11 de Setembro de 2001, este um filme sensível e inteligente sobre o mundo em que vivemos, sem complacência nem receios, nem mesmo no cruzamento entre o amor e a morte: "toda a história de amor é uma história de fantasmas".
  Com largo recurso à animação e às palavras escritas, "Coração de Cão" de Laurie Anderson é um belo filme moderno, vivo e sentido. Recomendo vivamente.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Contra a evidência

   "The Ottoman Lieutenant", de Joseph Ruben (2017), é um bom filme deste cineasta menos conhecido da Nova Hollywood dos anos 70 e que eu saiba não estreou comercialmente em Portugal. Passou ontem à noite num dos canais TVCine sob o título "Amor em Tempos de Guerra".
    Situado em 1914, no início da Guerra Mundial, na Anatólia, parte de um hospital de campanha cristão americano para onde vai como enfermeira voluntária, contra a vontade dos pais, a protagonista de 23 anos, Lille/Hera Holmar, depois da morte do seu irmão, que queria ser médico. Logo em Istambul trava conhecimento com o tenente Ismail/Michiel Huisman, que tem de lidar como oficial com uma situação complexa que envolve arménios divididos entre os que ficam e os que vão ao encontro das tropas russas.
                      https://i0.wp.com/www.kitapsozler.com/wp-content/uploads/2017/04/osmanli-subayi-the-ottoman-lieutenant.jpg
      Contra a evidência que a levaria a escolher o médico americano, Jude/Josh Hartnett, ela apaixona-se pelo tenente otomano que acaba por morrer depois de uma missão muito arriscada, na sequência da ajuda que tenta prestar a um grupo de arménios presos.
        Com uma realização muito boa, a inclusão de excertos de actualidades da época, filmado em belíssimos cenários naturais na Turquia e com actores muito bons, justos nos papéis respectivos - entre os quais Ben Kingsley como Woodruff, o fundador do hospital -, apresenta de forma simples mas muito bem o confronto de culturas entre cristãos e muçulmanos e uma situação que havia de conduzir ao genocídio arménio no ano seguinte.
      Tem argumento  de Jeff Stockwell, fotografia de Daniel Aranyó, música de Geoof Zanelli e montagem de Nick Moore e Dennis Virkler. Como se fosse um pequeno filme da série B, que pelo seu orçamento talvez seja, passa quase despercebido mas merece ser visto pela limpidez e o brio com que é feito. E é apenas a terceira longa-metragem de Joseph Ruben desde o início do século, depois de "Misteriosa Obsessão"/"The Forrgotten" (2004) e "Presa na Escuridão"/"Penthouse North" (2013).

segunda-feira, 14 de maio de 2018

O cão zero

      Primeira longa-metragem de Wes Anderson depois de "Grand Budapest Hotel" (2014), o novo "Ilha dos Cães"/"Isle of Dogs" (2018) é um filme de animação em stop-motion que, com construção complexa - os recuos no tempo - apresenta uma fábula moralista enfática.
     Spots/voz de Liev Schreiber, o cão zero que guardava o pequeno Atari/voz de Koyu Rankin a mando do tio, Mayor Kobayashi/voz de Kinuzahi Nomura, e desaparecera, depois de muitos esforços e reviravoltas caninas é finalmentte encontrado pelos seus pares e com os seus dentes-projécteis vai ser fulcral para a possibilidade de distribuição do antídoto da gripe dos cães e a deposição do ditador.
                     
    Com uma jovem estudante americana muito bem colocada, Tracey Walker/voz de Greta Gerwig, aprecia-se neste filme a matilha de cães isolados na "ilha do lixo" para que foram deportados e sobretudo a arte de Wes Anderson, também co-produtor e argumentista a partir de história sua com Roman Coppola, Jason Schwartzman e Kinuichi Nomura,, num rumo que o aproxima mais uma vez de Tim Burton.
    A fotografia é de Tristan Oliver, a música de Alexandre Desplat e a supervisão da montagem de Andrew Weisblum num filme poético e bem humorado. As vozes contam-se entre a nata dos actores americanos de hoje, o que é significativo. É melhor tecnicamente, como técnica de animação stop-motion do que como filme, especialmente dedicado ao mais novos, sem deslumbrar mas sem deslustrar.
   Agora nada de confusões, pois o cineasta é um autor de corpo inteiro no actual cinema americano, com uma obra apreciável e coerente atrás de si, que aqui continua um percurso criativo pessoal interessante e de cuja inventiva há ainda muito a esperar.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O cheiro da vida

    "24 Frames", o filme póstumo (2017) de Abbas Kiarostami, célebre cineasta iraniano e cidadão do mundo, passou esta semana duas vezes na Cinemateca Portuguesa. Consegui vê-lo na segunda sessão.
    Partindo de imagens da pintura ou da fotografia, ele, que foi também um grande fotógrafo, constrói um filme em filigrana sobre a vida natural, animal, vegetal e mineral, com a intervenção dos quatro elementos, terra, ar, água e fogo, este de forma discreta - o fumo no primeiro frame, os escapes mais adiante - com uma precisão visual estarrecedora.
    Utilizando sempre o plano fixo, ele começa com a exploração do terço inferior da imagem e caminha para o seu terço superior no final, com vários frames que exploram o centro real e virtual, geométrico de cada plano, desenhado pelas próprias configurações da natureza com animais no meio. A partir do esquema extremo de "Five Dedicated to Ozu" (2003), com duração mitigada: 4 minutos e meio cada plano.                     
                     
          Num filme que tinha planeado mais extenso e já não pôde concluir - foi finalizado pelo seu filho Ahmad Kiarostami -, ele socorre-se da natureza, que tantas vezes o inspirou na fotografia e no cinema, para imprimir movimento ao que antes fora fixo ao dar-lhe uma outra duração temporal.
         Transbordando o seu génio criativo, Abbas Karostami deixa-nos como última obra um filme exacta e precioso em que o homem só surge esporadicamente nos frames 14 e 15 e em dois dos últimos apenas em ruídos fora de campo - soberba a motosserra e consequência. Mas não é ele o único predador da natureza, que comporta a sua predação própria.
         Quase sem humanos e quase contra eles, sem diálogos este um filme vitalista sobre a vida trabalhado em filigrana, filtrado pela objectiva de um cineasta superior que trabalha geometricamente o espaço e a profundidade de campo mediante quadros dentro do quadro, um grande criador de quem continuamos todos a sentir a falta. 
         A preto e branco e a cores, com ruídos e por vezes com música inesperada, com cenários naturais e artificiais recortados de imagens suas, até com animação e efeitos digitais, com encantamento e espírito crítico esta a despedida sentida de um génio do cinema, que fecha sobre imagens do cinema num ecrã de computador.