quinta-feira, 14 de junho de 2018

O melhor da animação

   Por altura da abertura do Festival de Annecy, o Arte apresentou na noite de quarta-feira três filmes de animação, dois deles franceses, "Abril e o Mundo Extraordinário"/"Avril et le monde truqué", de Christian Desmares e Franck Elinci  (2015), e "Un homme est mort", de Olivier Cossu (2017), ambos articulados com a banda desenhada. A noite terminou com o  famoso "La ferme des animaux"/"Animal Farm", de Joy Batchelor e John Halas (1954), baseado em George Orwell, uma pérola rara do cinema de animação inglês.
                      
   O primeiro, baseado em banda desenhada de Jacques Tardi de acordo com o seu universo e o seu estilo sobre argumento de Benjamin Legrand e Franck Elinci, trata de uma ucronia que salta do século XIX para o XX elidindo os acontecimentos históricos e inventos intercorrentes, com Avril, Julius e o cão Darwin em busca dos pais dela, cientistas desaparecidos que trabalhavam num projecto de soro da invencibilidade. Tem humor e terror e está muito bem feito, com apuro e galhardia segundo uma estética de fantasia.
                      Un homme est mort
    O segundo baseia-se num caso real de um grevista assassinado pela polícia em 1951 e da reacção dos seus camaradas, animada por imagens do cinema do que se segue filmadas pelo cineasta René Vautier, que são mostrados à comunidade operária. Tem argumento de Kris, Guillaume Mantalent e Sebastien Oursel baseado em banda desenhada de Kris com desenhos de Etienne Donadeau, e com uma estética de animação diferente, realista, tem o especial interesse de se basear num caso real nunca desvendado.
                    
    O último baseia-se numa obra literária famosa do século XX, que recriada em imagens de época da animação mantém todo o potencial anti-totalitário que animava o original. Vistos em desenho animado, os porcos que dominam são tão odiosos como os humanos dominantes, adquirem vida própria e suscitam a revolta dos outros animais, por eles dominados, mal tratados e iludidos com falsas promessas. 
    Ao seu melhor nível, o cinema de animação foi e continua a ser uma expressão cinematográfica decisiva, excelente para fazer passar todo o tipo de histórias, de situações e de ideias de forma artística. O que estes três filmes agora programados pelo Arte, muito diferentes uns dos outros, confirmam sem sombra de dúvidas.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

O regresso do passado

     Baseado numa peça de teatro, "Blackbird" de David Harrower, também argumentista, "Una - Negra sedução"/"Una", de Benedict Andrews (2016), é um filme perturbador na sua secura narrativa, nas suas interpretações e na contenção da sua realização.
    Anos depois de uma relação com Ray/Ben Mendelsohn quando ela tinha treze anos, Una/Rooney Mara procura-o para lhe pedir explicações. Ele vive sob o nome de Peter e trabalha numa fábrica, casou e tem uma vida normal, aliás com dificuldades profissionais. Vai ser nos cenários despidos da fábrica que eles recordam o passado e sobre ele se questionam e explicam um ao outro. Já perto do final ela tenta intrometer-se na vida familiar dele, acabando por o questionar também aí.
                      Embate entre vítima e algoz é enfraquecido por diálogos ruins
 (Mares Filmes/Divulgação)
     Os diálogos são muito bons e acusam o a sua origem teatral sem qualquer problema, num filme com todos os elementos de um bom filme, seco, duro e sem contemplações sobre a diferença de idade entre um homem e uma mulher que, uma vez, tinham tido uma relação única. 
     Com excelentes interpretações dos protagonistas, Una também Ruby Stokes no passado, tem fotografia de Thimios Bakatakis, música de Jed Kunzel e montagem de Nick Fenton. 
     Quando o passado irrompe no presente estala o conflito que no passado tinha começado sem solução e o resultado é arrasador.

sábado, 9 de junho de 2018

Era uma vez Solo

     "Han Solo: Uma História de Star Wars"/"Solo: A Star Wars Story", de Ron Howard (2018), reconduz-nos ao início da personagem/Alden Ehrenreich, na sua juventude, quando lhe foi acrescentado ao nome próprio, Han, o apelido, Solo.
     Enquanto ele deixa para trás Qi'ra/Emilia Clark, Beckett/Woody Harrelson perde Val/Thandie Newton, antes de embarcarem ambos numa missão arriscada por conta de Dryden Voss/Paul Bettany, para o qual Qi'ra tinha afinal passado a trabalhar. Com eles vão o fundamental jogador e piloto Landa/Donald Glover e o inicial Chewbacca/Joanas Suotamo.
     Com uma estrutura de grande forma da imagem-acção de Gilles Deleuze, western e filme de gangsters confundidos, e personagens bem definidas com destaque para Beckett, o homem da duplicidade e da traição, e para Qi'ra, a ambígua que não esquece nem o amado nem a ambição de poder, o filme desenrola-se sem enfado em volta de uma personagem tornada carismática quando mais velha por Harrison Ford.
                          Crítica do Filme Han Solo Uma História Star Wars
        Embora com bons efeitos especiais, estes não ofuscam o interesse da narrativa, que se mantém de início ao fim, sobre argumento de Jonathan e Lawrence Kasdan a partir das personagens criadas por George Lucas. Sempre com as melhores soluções para os maiores imbróglios, com humor e optimismo mais um povo escravizado comandado por uma ruiva, Enfys West/Erin Kellyman, que se liberta. 
        Filme a filme a saga desenvolve-se e cresce em todas as direcções por forma que a torna uma referência do cinema americano contemporâneo. Não ofende e está bem feito, com fotografia de Bradford Young, música de John Powell e montagem de Pietro Scalia. Depois de três filmes baseados em Dan Brown, Ron Howard confirma aqui estar no topo da sua carreira de realizador.
        Com mais de 40 anos de existência, com filmes previstos e outros à margem da saga, "Star Wars" apresenta-se como um fenómeno de qualidade e popularidade, a merecer estudos analíticos desenvolvidos tanto da sua narrativa como da sua estética e também do seu acolhimento (ver "Lateral", de 30 de Julho de 2017, e "A festa do cinema", de 28 de Janeiro de 2018).    

quinta-feira, 7 de junho de 2018

O clube dos mortos

     Albano Martins (1930-2018) foi um destacado poeta e tradutor português, com uma obra vasta e muito importante. Pouco falado na comunicação, teve um trabalho precioso sobre a palavra poética e o seu tempo. Professor Universitário, foi fundador da Árvore e colaborou na Nova Renascença e na Colóquio-Letras. Tem a sua poesia publicada pelas Edições Afrontamento, nomeadamente "As Escarpas do Dia (Poesia 1950-2010)" e as suas traduções de poesia grega e latina antigas, europeia e latino-americana do século XX. 
                                           
   Exemplo raro de descomprometimento com cenáculos e círculos literários ou  outros, foi um dos grandes poetas contemporâneos portugueses. o que aqui devo assinalar na hora da sua partida, que lamento.
   Com qualidades equiparáveis na prosa, Maria Judite de Carvalho (1921-1998) foi um dos maiores nomes da literatura portuguesa, que os mais novos, passados 20 anos sobre a sua morte, talvez não conheçam.
                               Seta Despedida
    Especialista no conto e na crónica, ela foi um expoente da literatura portuguesa do século XX. Agora muito oportunamente recuperada na publicação da sua obra completa pela Minotauro, num primeiro volume com "Tanta Gente, Mariana" e "As Palavras Poupadas", as suas duas primeiras obras. Uma iniciativa que aqui me cumpre saudar sobre uma escritora anteriormente publicada pela Arcádia, as Publicações Europa-América e a Caminho. 
    Tanto a ele como a ela foram atribuídos os mais prestigiados prémios literários portugueses.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A ver sem falta

   James Nachtwey é um grande fotógrafo americano que nas últimas décadas tem feito reportagens fotográficas sobre populações vítimas dos grandes conflitos, das guerra e das grandes privações do nosso tempo.
    Com um instinto visual humano e artístico apurado pelo trabalho, ele tem-nos dado fotografias que testemunham de um tempo sem piedade, de ódios e crimes hediondos praticados por acção ou omissão sobre populações em massa em todo o mundo. Identificando-as, ele fotografa os corpos e os rostos de vítimas de situações terríveis do nosso mundo no nosso tempo, representantes cada uma delas de populações inteiras, dos Balcãs ao Rwanda, São Salvador, territórios palestinianos, Somália, Sudão, Afeganistão, Iraque, Estados Unidos e muito mais.
                     
     A sua primeira grande exposição retrospectiva, Memoria, está patente na Maison Européene de la Photographie, em Paris, até 29 de Julho, e para ela chamo aqui a vossa muito especial atenção. Dividida em 17 secções reúne perto de 200 fotografias. Para percebermos o que fazem as guerras, o preço que implicam em termos humanos a pobreza, a doença e a fome. 
      Ver aqui
https://www.mep-fr.org/
      Estas coisas sabem-se pelo Arte. Evidentemente.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Feira do Livro 2018

       Depois de uns dias de descanso merecido, tenciono ir à Feira do Livro de Lisboa nos seus últimos dias. Sem grande premeditação de compras, para passear, ver e comprar o que me apetecer.
       Tenho mesmo assim em vista os livros de José Bragança de Miranda sobre Jorge Molder e de Sérgio Mah sobre Paulo Nozolino, publicados pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, e as Folhas da Cinemateca sobre Paulo Rocha e Fernando Lopes, agora anunciadas. A propósito, manifesto satisfação pela anunciada retrospectiva de António-Pedro Vasconcelos, programada para Junho e Julho pela Cinemateca Portuguesa.
                     
       Vou também comprar os últimos números da Colóquio/Letras, da Granta e da Telhados de Vidro, que ainda não tenho. E devo passar interessado pelos últimos livros editados em português de Antonio Tabucchi e Karl Ove Knausgärd e por livros filosofia.
        Além disso, vou estar atento aos Livros do Dia, o que vos aconselho, porque reservam sempre surpresas. Desejo-vos boa festa do livro e boas compras.

Um belo filme

   "Les nuits blanches du facteur"/"The White Nights of the Postman"/Belye nochi pochtalona Alekseya Tryapitsyna", de Andrei Kontchalovski (2014) é um belo pequeno filme de um cineasta russo de referência que há muito não nos chega.
    Num meio rural em volta do Lago Kenozero, no nordeste da Rússia, um carteiro, Lyokha/Aleksey Tryapitsin, circula entre diversos habitantes, casas e problemas, enquanto o tempo que passa, sem fazer esquecer o passado tem novas exigências.
                      
    Em obediência a uma estratégiia de realização baseada no plano fixo, muito longo apenas no lago, Andrei Kontchalovski consegue, com excelentes enquadramentos e bons intérpretes, muitos deles locais, um belo filme atravessado por personagens pitorescas, pelo sonho (o gato cinzento) e pelas histórias infantis (a feiticeira do lago), que assombram um quotidiano em que o futuro irrompe perto do fim.
    Com argumento do cineasta e Elena Kiseleva, tem fotografia de Alexandr Simonov, música de Eduard Artemev e montagem de Sergey Taraskin. Leão de Prata para a melhor realização no Festival de Veneza em 2014.
     Passou ontem à noite no Arte.