quinta-feira, 5 de julho de 2018

Uma referência

     Claude Lanzmann (1925-2018) foi um documentarista francês incontornável, com os filmes que fez sobre o holocausto que é absolutamente indispensável conhecer. Se se quiser conhecer bem o cinema e a história do século XX 
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     Participou na Resistência durante a guerra, foi contemporâneo do existencialismo e dos existencialistas Sartre e Beauvoir e traçou para si próprio um rumo de intransigência relativamente à II Guerra Mundial, incluindo nos seus filmes, a que se manteve fiel até ao fim. Na sua obra avulta o monumental "Shoah" (1985), com várias ramificações e sequelas, como "Tsahal" (1994) e "Sobibor, 14 Octobre 1943, 16 heures" (2001), todas elas do maior interesse.
      E sobre esse assunto defendeu uma ética muito importante, criticando o que entendeu e mantendo-se fiel a si próprio. Homens como ele fazem muita falta no cinema, sobretudo neste momento. (Ver sobre Lanzmann "Os testemunhos: tetralogia", de 24 de Janeiro de 2018, e "A tetralogia completa e o mais", de 31 de Janeiro de 2018).

domingo, 1 de julho de 2018

Uma exposição central

    Está patente na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, a exposição "Clareira - Escultura 1984-2018" de Manuel Rosa, que visitei quando de uma das minhas idas recentes à Cinemateca Portuguesa.
     Nascido em Beja, o artista fez a sua formação na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, começou em 1981 no Simpósio Internacional de Escultura em Pedra, em Évora, e teve a sua primeira exposição individual em 1984 na Galeria Módulo. Desde então tem participado em exposições colectivas em Portugal, Itália e Espanha e fez onze exposições individuais.     
                       <strong>Sem Título</strong>, 1996<br>
  Ferro fundido, 82x765x265cm
    Manuel Rosa é, assim, uma das grandes figuras da escultura portuguesa contemporânea, presente nos principais museus portugueses, que esta exposição importante permite conhecer. As suas esculturas trabalham formas diversas, circulares, longas, figurativas e não figurativas, elementos materiais do quotidiano, formas geométricas mais abstractas e a figura humana, com destaque para os torsos. 
     Esta uma exposição muito boa que, sob o signo do "materialismo espiritual", tem curadoria de Manuel Costa Cabral e Nuno Faria e apresenta a característica de ser antológica, com peças em gesso, bronze e calcário, entre outros materiais, numa linguagem muito própria com exploração do cheio e do vazio, que tem evoluído em diferentes direcções.
    Quando forem à Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, atravessem a Rua Barata Salgueiro e visitem a SNBA, uma grande casa das artes sempre com excelentes exposições, que já ali estava antes dela e onde passou a primeira retrospectiva de Jean Rouch em Lisboa. Esta exposição está até 21 de Julho. E se quiserem subir a mesma rua, agora com escadinhas, estão a dois passos do Jardim Botânico.

sábado, 30 de junho de 2018

Um homem livre

    Destacado militante anti-fascista, preso várias vezes pela PIDE e fundador do MDP/CDE, no prosseguimento de uma intensa actividade política José Manuel Tengarrinha (1932-2018) foi depois do 25 de Abril deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República.
     Licenciado em Histórico-Filosóficas, foi perseguido e prejudicado pelo Estado Novo na sua vida docente e no jornalismo. Professor Catedrático jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa, desenvolveu uma obra muito importante sobre os movimentos populares agrários e o liberalismo do século XIX, tendo sido também o grande impulsionador dos estudos sobre a imprensa em Portugal, áreas em que deixou um legado de fundamental. 
                     
      Homem livre, firme e aberto, amante da liberdade e da democracia, a sua vida e a sua obra permanecem como exemplos estimulantes para todos. Neste momento de grande tristeza, partilho sentidamente a dor da família, apresentando os meus profundos sentimentos a sua irmã, Margarida Tengarrinha, ela também destacada militante anti-fascista. 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

De urgência

    Dez anos depois de "O Pesadelo de Darwin"/"Le cauchemar de Darwin" (2014), o austríaco Hubert Sauper estreou "We Come as Friends"/"Nous venons en amis" (2014), outro documentário de quem tinha já feito "O Diário de Kisongani"/"Kisongani Diary" (1998).
     Filmado de urgência quando dos acontecimentos que precederam o referendo à independência do Sudão do Sul, impressiona pela improvisação, o esforço de captar os que estão envolvidos de perto nos acontecimentos, que têm de aceitar entre eles os estranhos de uma equipa de filmagem para que esta possa fazer o seu trabalho.
                     
      Mostrando o desespero, a angústia, o medo mas também a esperança e a determinação dos habitantes, faz-nos mergulhar em pleno conflito, com os que se encontraram nele envolvidos e os que dele foram vítimas, sem esquecer os esforços de reconstrução.
     O envolvimento pessoal e o trabalho do realizador, que incluiu a construção do avião que da Europa ali o levou, é notável e valoriza o filme que daí nasceu nas piores condições com que teve de lidar. O mesmo avião permitiu soberbas tomadas de vista aéreas.
      Sem contemplações e sem distância, naquelas condições em que mostra o trabalho da morte e da destruição mas também o daqueles que procuraram levar assistência e pacificar, questionando  intenções neo-coloniais num país tão rico em petróleo, é um filme indispensável, distinguido em vários festivais de cinema e ainda disponível no site do Arte, que o mostrou na semana passada.

terça-feira, 26 de junho de 2018

O que faltava

   Martin Rejtman é considerado o fundador do cinema novo argentino, em que terá precedido Lucrecia Martel, Lisandro Alonso e Pablo Trapero na longa-metragem. Não conhecia nada dele e a retrospectiva da Cinemateca Portiguesa do final da semana passada permitiu-me preencher essa lacuna.
    De uma cinematografia conhecida sobretudo por Leopoldo Torre-Nilsson na segunda metade do século XX, o cineasta, trouxe um rejuvenescimento muito oportuno a partir de 1992, depois de ter feito a sua formação nos Estados Unidos, com filmes pessoais e insólitos, com muitos diálogos, humor e sentido do absurdo. Diz-se ele influenciado pela screwball comedy americana dos anos 30 e 40, nomeadamente de Howard Hawks e Preston Sturges, mas o meio familiar em que cada um dos seus filmes se desenvolve remete para o universo de Yasujiro Ozu.
                     
    Ora em volta de motorizadas como em "Rapado" (1992), de um nome comum a duas personagens como em "Silvia Prieto" (1999), de automóveis ou luvas como em "Los  guantes mágicos" (2003), cada um dos filmes de Martin Rejiman parte de um ponto que depois abandona para a ele regressar mais tarde, como em "Dos disparos" (2014), ou só encontra o seu motivo temático passada uma hora com personagens que sofrem de depressões "emocionais" ou "orgânicas", como em "Los guantes mágicos", e conclui-se sempre de forma inesperada. Outra constante é a voz off narrativa de uma das personagens, o que confere um cariz narrativo e estético próprio aos seus filmes.      
    Numa obra escassa, merecem especial atenção as duas médias-metragens feitas para a televisão, "Copacabana" (2007), sobre imigrantes bolivianos na Argentina, e "Entrenamento elemental para actores" (2009), sobre aulas de formação de actores para crianças, que explicitam a ideia de ritmo que percorre também as longas. Um ritmo que advém das palavras, dos diálogos, mas também de uma montagem marcada que implica a duração justa de cada plano e o ritmo do todo, que a irrupção da música de discoteca amplia em estrépito.         
                       TwoShotsFired
    Mas os  próprios planos têm uma riqueza de composição notável, centrados na figura humana expectante ou disposta para o diálogo, de pé ou sentada, num espaço cenográfico muito bem preenchido, o que faz com que as transições de plano surjam sempre muito bem calculadas e executadas, cada uma delas chamando pelo seu contrário, que a própria voz off acompanha, mesmo se com atraso. E a crise, também económica, da sociedade argentina, está sempre presente.
    Pelo tom directo e seco, elíptico, e pelos assuntos que trata, embora diferente faz-me lembrar o português Manuel Mozos. Pelo que pude ver, Martin Rejtman, que trabalha sempre sobre argumentos seus e por vezes também a partir de livros seus, é, efectivamente, um dos grandes cineastas da actualidade, que está à altura da sua geração no cinema novo argentino e vale a pena conhecer.    

sábado, 23 de junho de 2018

O clube dos novos

     Devo assinalar aqui o aparecimento nos últimos tempos de obras de considerável interesse da autoria de novos autores.
     Na área do cinema, "Fotografia e Cinema Moderno - Os Cineastas Amadores do Pós-Guerra", de Luís Mendonça (Lisboa: Colibri, 2017, já em 2ª edição), uma obra do maior interesse e pertinência científica; "O Trabalho do Actor na Obra de John Cassavetes", de Filipa Rosário (Lisboa: Documenta, 2016), que recupera um actor e cineasta independente americano por um dos aspectos em que ele foi mais importante, como reconheceu Gilles Deleuze; e "Uma Nova História do Novo Cinema Português", de Paulo Cunha (Lisboa: Outro Modo, 2018), uma curiosa e inédita abordagem daquela época do nosso cinema.                      
                                    Bertrand.pt - O Trabalho do Actor na Obra de John Cassavetes
     Em poesia acaba de sair "Varanda de Inverno", de Marta Chaves (Lisbooa: Assírio & Alvim, 2018), um primeiro livro colocado sob a égide de Maria Gabriela Llansol e Herberto Helder que revela uma nova sensibilidade e expressão poética, importante e promissora. Em prosa "Meio Homem, Metade Baleia", de José Gardeazabal (Lisboa: Companhia das Letras, 2018), o primeiro livro de prosa  de um autor que em poesia tinha publicado "história do século vinte" (Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015), que recebeu o Prémio Vasco Graça Moura, e "Ultimato", de Diogo Vaz Pinto (Lisboa: Maldoror, 2018), mais um livro deste poeta inclassificável, de escrita cerrada e exigente.  
                                    https://images.portoeditora.pt/getresourcesservlet/image?EBbDj3QnkSUjgBOkfaUbsDn0uKFvBQn3KvyviUM0hRouInXp8Ea99SxqHIV6XNCH&width=255
     Estes simples exemplos provam, entre outros, que há uma nova geração de investigadores e de escritores a despontar com obras do maior interesse, que devem levar a esperar o melhor do "clube dos novos" em Portugal.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Bastante bom

    "Blade Runner 2049", do canadiano Denis Villeneuve (2017), é uma sequela, 30 anos depois, do filme primitivo de Ridley Scott, "Blade Runner: Perigo Iminente"/"Blade Runner"(1982), uma referência ainda hoje do filme de ficção científica. Inevitavelmente aquém dele mas com alguns motivos de interesse especial.
   Com argumento de Hampton Fancher e Michael Green baseado em história do primeiro, acompanha K-Joe/Ryan Gosling na demanda das suas próprias origens, perdidas, encontradas a partir da memória de um brinquedo que remete para o seminal "O Mundo a Seus Pés"/"Citizen Kane" de Orson Welles (1941) para depois serem alienadas a favor da irmã.
     Menos filme de acção do que o primeiro, o realizador explora o tempo parado e longo, como em "O Homem Duplicado"/"Enemy" baseado em José Saramago (2013), o que, inesperado, não joga com o anterior "Blade Runner". De facto, onde antes havia movimento, acção, agora encontra-se expectativa, forçada, tudo em favor de uma ideia narrativa rebuscada, embora faça sentido.  
                    
      Sem estar à altura do filme de Ridley Scott, cumpre para o que se pode esperar nos dias de hoje, com bons efeitos especiais centrados no protagonista e em quem com ele contacta. Por exemplo, a mulher virtual e a mulher real, se bem que óbvio está bem explorado, embora a mulher actual igual à anterior menos na cor dos olhos seja melhor como ideia. Destaque para o fechamento sobre si próprio do protagonista, figura característica de Villeneuve.
     Chamando por novo filme, a que ostensivamente pisca o olho, sofre do ego proeminente do realizador, melhor em "Sicário - Infiltrado"/"Sicario" (2015) do que nesta encomenda despachada com profissionalismo e tom pessoal forçado, mas sem dúvida presente com a qualidade da realização.
     No fim de contas, hoje em dia os filmes de ficção-científica parecem-se todos uns com os outros. Questões entre gerações, entre pais e filhos, de busca das origens, que talvez seja o que suscita maior interesse, de ditadores e revolucionários. E é bom voltar a ver Harrison Ford como Dekkard.