terça-feira, 10 de julho de 2018

Outra rainha

   Depois de "A Rainha"/"The Queen" (2006), o veterano Stephen Freaars não deixou os seus créditos por mão alheias e realizou "Victoria & Abdul" (2017), sobre os últimos dias de vida da famosa e longeva monarca.
    Trata-se da amizade entre a Rainha Vitória/Judi Dench e um indiano, Abdul Karim/Ali Fazal, que se desloca a Londres para o jubileu dela, quando a Índia era a "jóia da coroa" britânica. Uma tal amizade não é bem vista pelo herdeiro da coroa, pelo primeiro-ministro e pela corte, até porque ele lhe mente sobre o seu passado, como eles descobrem.      
                      
    Apesar disso a rainha gosta Abdul e da mulher/Suck Ojla, mandada vir da Índia, tudo perdoa a quem foi seu professor e amigo, e ele fica junto dela até ao fim. O interesse que o filme reveste reside em esta amizade estranha ter sido revelada recentemente, em 2010, em termos históricos, pelo que ele tem por base factos reais.
    Sem nada de especialmente importante em termos cinematográficos, tem argumento de Lee Hal baseado em livro de Shrabani Basu, realização sóbria e justa de Frears, em que se destaca a morte da rainha, grandes cenários e guarda-roupa e grande interpretação de Judi Dench. A fotografia é de Danny Cohen, a música de Thomas Newman e a montagem de Melanie Oliver.
    É um filme que aconselho pelo carácter insólito da narrativa e como curiosidade sobre uma personalidade histórica importante, que sem este filme não atingiria a visibilidade que agora com ele adquire. Não sendo um grande filme a não ser em termos de produção, tem suficientes motivos de interesse entre os quais ser mais um filme de um dos mais destacados cineastas britânicos da actualidade a trabalhar em Hollywood.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O futuro é agora

      "Fahrenheit 451", do americano Ramin Bahrani (2018), não é um remake do filme de 1966 de François Truffaut "Grau de Destruição"/"Fahrenheit 451", mas um novo filme baseado na mesma novela de Ray Bradbury.
      Alheio ao moralismo beato do então jovem cineasta francês, remete para um futuro dominado pelo Capitão Beatty/Michael Shannon, que obriga os seus servos bombeiros, entre os quais Guy Montag/Michael B. Jordan, Amon Davis em criança, a pegarem fogo a todos os livros existentes. Contra os que pensam de maneira diferente, "enguias", tratados como "terroristas". Na América.
      Clarisse/Sofia Boutella, agente dupla, trabalha para o lado dominante como denunciante mas pertence ao grupo daqueles que decoraram livros para os fazerem passar para o futuro. Com ela Guy vai aproximar-se do grupo resistente, uma sociedade secreta com as suas regras, tomar consciência e rebelar-se, até ao fim. 
                       plano critico fahrenheit 451 plano critico 2018 HBO
       É muito bom que este filme de ficção-científica tenha sido feito este ano por um americano, aliás bem feito embora sem nada de especialmente notável que não seja uma realização escorreita, tipo Série B, e a narrativa, bem esgalhada e com boas interpretações. De facto, é agora que, sob a actual administração, todos os perigos, desta e de outra natureza, pairam sobre a América e sobre o mundo, com réplicas muito perigosas na Europa. Quem faz o que eles fazem também queima livros, já o fez ou vai fazer, sem que isso seja sequer o pior de que são capazes.
       Dizem os ingénuos, do Arte e outros, que os anos 30 do século XX na Europa não se repetem mas eles estão a repetir-se sob a designação inócua de "populismos", com apoio crescente das populações insatisfeitas com as hesitações da direita e a tibieza da esquerda tradicionais, que perdem apoio em favor deles como então.
      O filme tem argumento de Amir Naderi e adaptação de Ramin Bahrani, fotografia de Kramer Morgenthau e música de Antony Partos e Matteo Zingales. As referências deste filme de Ramin Bahrani aos Estados Unidos da América são expressas e não enganam. Estejam atentos e intervenham, pois, fértil, o ovo da serpente já rebentou e a estirpe é a mesma. É preciso que aqueles que rejeitam estas forças as detenham eficazmente na sua ascensão muito perigosa, as derrotem e façam reverter. Antes que seja tarde, se o não for já - como este filme, com a última esperança nas asas de uma pequena ave, isto tem todo o ar de ir acabar muito mal.

Uma referência

     Claude Lanzmann (1925-2018) foi um documentarista francês incontornável, com os filmes que fez sobre o holocausto que é absolutamente indispensável conhecer. Se se quiser conhecer bem o cinema e a história do século XX 
                      738_claude_lanzmann.jpg
     Participou na Resistência durante a guerra, foi contemporâneo do existencialismo e dos existencialistas Sartre e Beauvoir e traçou para si próprio um rumo de intransigência relativamente à II Guerra Mundial, incluindo nos seus filmes, a que se manteve fiel até ao fim. Na sua obra avulta o monumental "Shoah" (1985), com várias ramificações e sequelas, como "Tsahal" (1994) e "Sobibor, 14 Octobre 1943, 16 heures" (2001), todas elas do maior interesse.
      E sobre esse assunto defendeu uma ética muito importante, criticando o que entendeu e mantendo-se fiel a si próprio. Homens como ele fazem muita falta no cinema, sobretudo neste momento. (Ver sobre Lanzmann "Os testemunhos: tetralogia", de 24 de Janeiro de 2018, e "A tetralogia completa e o mais", de 31 de Janeiro de 2018).

domingo, 1 de julho de 2018

Uma exposição central

    Está patente na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, a exposição "Clareira - Escultura 1984-2018" de Manuel Rosa, que visitei quando de uma das minhas idas recentes à Cinemateca Portuguesa.
     Nascido em Beja, o artista fez a sua formação na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, começou em 1981 no Simpósio Internacional de Escultura em Pedra, em Évora, e teve a sua primeira exposição individual em 1984 na Galeria Módulo. Desde então tem participado em exposições colectivas em Portugal, Itália e Espanha e fez onze exposições individuais.     
                       <strong>Sem Título</strong>, 1996<br>
  Ferro fundido, 82x765x265cm
    Manuel Rosa é, assim, uma das grandes figuras da escultura portuguesa contemporânea, presente nos principais museus portugueses, que esta exposição importante permite conhecer. As suas esculturas trabalham formas diversas, circulares, longas, figurativas e não figurativas, elementos materiais do quotidiano, formas geométricas mais abstractas e a figura humana, com destaque para os torsos. 
     Esta uma exposição muito boa que, sob o signo do "materialismo espiritual", tem curadoria de Manuel Costa Cabral e Nuno Faria e apresenta a característica de ser antológica, com peças em gesso, bronze e calcário, entre outros materiais, numa linguagem muito própria com exploração do cheio e do vazio, que tem evoluído em diferentes direcções.
    Quando forem à Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, atravessem a Rua Barata Salgueiro e visitem a SNBA, uma grande casa das artes sempre com excelentes exposições, que já ali estava antes dela e onde passou a primeira retrospectiva de Jean Rouch em Lisboa. Esta exposição está até 21 de Julho. E se quiserem subir a mesma rua, agora com escadinhas, estão a dois passos do Jardim Botânico.

sábado, 30 de junho de 2018

Um homem livre

    Destacado militante anti-fascista, preso várias vezes pela PIDE e fundador do MDP/CDE, no prosseguimento de uma intensa actividade política José Manuel Tengarrinha (1932-2018) foi depois do 25 de Abril deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República.
     Licenciado em Histórico-Filosóficas, foi perseguido e prejudicado pelo Estado Novo na sua vida docente e no jornalismo. Professor Catedrático jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa, desenvolveu uma obra muito importante sobre os movimentos populares agrários e o liberalismo do século XIX, tendo sido também o grande impulsionador dos estudos sobre a imprensa em Portugal, áreas em que deixou um legado de fundamental. 
                     
      Homem livre, firme e aberto, amante da liberdade e da democracia, a sua vida e a sua obra permanecem como exemplos estimulantes para todos. Neste momento de grande tristeza, partilho sentidamente a dor da família, apresentando os meus profundos sentimentos a sua irmã, Margarida Tengarrinha, ela também destacada militante anti-fascista. 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

De urgência

    Dez anos depois de "O Pesadelo de Darwin"/"Le cauchemar de Darwin" (2014), o austríaco Hubert Sauper estreou "We Come as Friends"/"Nous venons en amis" (2014), outro documentário de quem tinha já feito "O Diário de Kisongani"/"Kisongani Diary" (1998).
     Filmado de urgência quando dos acontecimentos que precederam o referendo à independência do Sudão do Sul, impressiona pela improvisação, o esforço de captar os que estão envolvidos de perto nos acontecimentos, que têm de aceitar entre eles os estranhos de uma equipa de filmagem para que esta possa fazer o seu trabalho.
                     
      Mostrando o desespero, a angústia, o medo mas também a esperança e a determinação dos habitantes, faz-nos mergulhar em pleno conflito, com os que se encontraram nele envolvidos e os que dele foram vítimas, sem esquecer os esforços de reconstrução.
     O envolvimento pessoal e o trabalho do realizador, que incluiu a construção do avião que da Europa ali o levou, é notável e valoriza o filme que daí nasceu nas piores condições com que teve de lidar. O mesmo avião permitiu soberbas tomadas de vista aéreas.
      Sem contemplações e sem distância, naquelas condições em que mostra o trabalho da morte e da destruição mas também o daqueles que procuraram levar assistência e pacificar, questionando  intenções neo-coloniais num país tão rico em petróleo, é um filme indispensável, distinguido em vários festivais de cinema e ainda disponível no site do Arte, que o mostrou na semana passada.

terça-feira, 26 de junho de 2018

O que faltava

   Martin Rejtman é considerado o fundador do cinema novo argentino, em que terá precedido Lucrecia Martel, Lisandro Alonso e Pablo Trapero na longa-metragem. Não conhecia nada dele e a retrospectiva da Cinemateca Portiguesa do final da semana passada permitiu-me preencher essa lacuna.
    De uma cinematografia conhecida sobretudo por Leopoldo Torre-Nilsson na segunda metade do século XX, o cineasta, trouxe um rejuvenescimento muito oportuno a partir de 1992, depois de ter feito a sua formação nos Estados Unidos, com filmes pessoais e insólitos, com muitos diálogos, humor e sentido do absurdo. Diz-se ele influenciado pela screwball comedy americana dos anos 30 e 40, nomeadamente de Howard Hawks e Preston Sturges, mas o meio familiar em que cada um dos seus filmes se desenvolve remete para o universo de Yasujiro Ozu.
                     
    Ora em volta de motorizadas como em "Rapado" (1992), de um nome comum a duas personagens como em "Silvia Prieto" (1999), de automóveis ou luvas como em "Los  guantes mágicos" (2003), cada um dos filmes de Martin Rejiman parte de um ponto que depois abandona para a ele regressar mais tarde, como em "Dos disparos" (2014), ou só encontra o seu motivo temático passada uma hora com personagens que sofrem de depressões "emocionais" ou "orgânicas", como em "Los guantes mágicos", e conclui-se sempre de forma inesperada. Outra constante é a voz off narrativa de uma das personagens, o que confere um cariz narrativo e estético próprio aos seus filmes.      
    Numa obra escassa, merecem especial atenção as duas médias-metragens feitas para a televisão, "Copacabana" (2007), sobre imigrantes bolivianos na Argentina, e "Entrenamento elemental para actores" (2009), sobre aulas de formação de actores para crianças, que explicitam a ideia de ritmo que percorre também as longas. Um ritmo que advém das palavras, dos diálogos, mas também de uma montagem marcada que implica a duração justa de cada plano e o ritmo do todo, que a irrupção da música de discoteca amplia em estrépito.         
                       TwoShotsFired
    Mas os  próprios planos têm uma riqueza de composição notável, centrados na figura humana expectante ou disposta para o diálogo, de pé ou sentada, num espaço cenográfico muito bem preenchido, o que faz com que as transições de plano surjam sempre muito bem calculadas e executadas, cada uma delas chamando pelo seu contrário, que a própria voz off acompanha, mesmo se com atraso. E a crise, também económica, da sociedade argentina, está sempre presente.
    Pelo tom directo e seco, elíptico, e pelos assuntos que trata, embora diferente faz-me lembrar o português Manuel Mozos. Pelo que pude ver, Martin Rejtman, que trabalha sempre sobre argumentos seus e por vezes também a partir de livros seus, é, efectivamente, um dos grandes cineastas da actualidade, que está à altura da sua geração no cinema novo argentino e vale a pena conhecer.