sábado, 8 de setembro de 2018

Superação

     "Missão: Impossível - Fallout"/"Mission: Impossible - Fallout", de Christopher McQuarrie (2018), é o sexto desta popular série de filmes de origem na série televisiva criada por Bruce Geller. Tem produção de J. J. Abrams, Tom Cruise e do realizador, também argumentista, como já acontecera no filme anterior, "Missão Impossível: Nação Secreta"/"Mission: Impossible - Rogue Nation" (2015).
     Um primeiro ponto é ser um filme de acção, um segundo ponto ser um filme com Tom Cruise e o terceiro ponto é ser feito em estilo de série B, o que lhe dá um cariz artificial, impreciso próprio, visível na encenação televisiva para o prisioneiro e em cenas rodadas em Paris.     
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    Decorrendo fundamentalmente no eixo Paris-Londres, volta a reunir Ethan Hunt/Tom Cruise, Luther Stickwell/Ving Rhames, Benji Dunn/Simon Pegg e Ilsa Faust/Rebecca Ferguson desta feita contra John Lark e os Apóstolos, formados após a derrota do Sindicato no filme anterior, com um Secretário/Alec Baldwin e Erika Sloane/Angela Basset no comando das operações relativas a um terrorista que tem em seu poder três ogivas atómicas que há que trocar e apreender em Paris e Londres, Soloman Lane/Sean Harris, com a Black Widow/Vanessa Kirby como intermediária.                       
     Os grandes momentos de acção são a perseguição a Ethan que foge de moto da polícia em Paris e o final que, nas montanhas da fronteira da China com o Paquistão, com o lugar-comum de uma ONG, o opõe a August Walker/Henry Cavill, o homem que trabalha com eles mas a mando de Erika, com perseguição espectacular de helicóptero, contagem decrescente, precipício montanhoso e tudo. 
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    Com descontração, explicações verbais sumárias e sem ligar nenhuma à verosimilhança, como é de uso nos filmes de espiongem salvo quando baseados em John le Carré, faz bom uso dos locais mais conhecidos de Paris e Londres como cenário e cumpre o programa da série, sublimando-a e superando-a porque Ethan Hunt é tomado como agente duplo, trabalhando também para o inimigo e porque, depois de quase descarrilar em Londres com a morte do Secretário, reengrena e caminha imparável para o seu final, em que surge também Julia/Michelle Monaghan, a ex-mulher de Ethan.
    O tom irrisório, de série B, aumenta o interesse potencial do filme, em que avulta ainda a luta de Benji com aquele que personalizara para efeito da troca em Paris. E naquele grupo de elite, que já não confia em ninguém, tudo se passa com familaridade e de acordo com as regras do bom companheirismo entre profissionais, com o esperado e costumado final feliz - Ethan Hunt retira o detonador com os dentes e segue-se o epílogo.
    Tem fotografia de Rob Hardy, música de Lorne Balfe e montagem de Eddie Hamilton. Igual a si mesmo como figura icónica do cinema, Tom Cruise está um pouco melhor que o costume num elenco desenvolto e já conhecido na sua parte principal.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Indignidade

    "O Número"/"Remember", de Atom Egoyan (2015), com argumento de Benjamin August, é um filme sem grande brio mas com fibra e alguma chama, que remete para a memória de Auschwitz.
   Zev Guttman/Christopher Plummer, viúvo e a sofrer de demência, recebe de Max Rosenbaum/Martin Landau o encargo de matar um misterioso nazi que esteve em Auschwitz e sai do hospital em que estava para o procurar, enquanto o seu filho Charles/Henry Cremy tenta localizá-lo.
                      
     Depois de encontrar três indivíduos com o mesmo nome entre os Estados Unidos e o Canadá nenhum dos quais é o que procura, no fim de um longo percurso com alguns percalços sabe que o quarto será o propriamente dito - e não vos conto mais.
     Sem dever nada de especial ao estilo do cineasta de origem arménia, o filme resolve-se entre números com uma pirueta inesperada, em que reside o especial motivo de interesse que apresenta - afinal, num tempo de memórias pouco claras de Zev, o significado do número gravado no braço era outro.
    Tem bons actores, fotografia de Paul Sarossy, música de Mychael Danna e montagem de Christopher Donaldson. Vê-se sem enfado embora nada de especial acrescente à obra de Atom Egoyan salvo do lado do duplo e da morte.

sábado, 1 de setembro de 2018

O homem certo

     O novo director do Arquivo Secreto e da Biblioteca do Vaticano, José Tolentino de Mendonça, é "o homem certo no lugar certo". Intelectual prestigiado, teólogo e académico, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, é também escritor e poeta reconhecido, a qualidade em que melhor o conheço.  
                     
      Figura conhecida devido à sua intervenção pública e à sua qualidade de colunista do Expresso, é um homem de cultura de alto gabarito, especialista em livros como criação e como memória nesta época em que muitos os querem relegar para segundo plano, como algo do passado. Um católico que, sem beliscar em nada a sua fé, não esconde o seu respeito por ateus.
     Felicito o Papa Francisco pela sua escolha e o agora Arcebispo José Tolentino de Mendonça pelo seu novo cargo em que, estou certo, terá um desempenho da maior qualidade - e a Biblioteca do Vaticano é talvez a maior e mais importante do mundo.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Além dos limites

    "Relatos Selvagens"/"Les nouveaux sauvages"/"Relatos selvajes", terceira longa-metragem do argentino Damián Szifrón (2014) - que tem trabalhado sobretudo para a televisão - com argumento dele e Germán Servídio e produção de Agustìn e Pedro Almodóvar, é um filme em episódios, os dois primeiros breves, os outros quatro um pouco mais longos.
    Trata-se de situações bizarras em que as personagens se excedem em agressividade ou em desalento, como vítimas ou/e como como culpadas: no primeiro episódio, "Pasternak", os passageiros de um avião; no segundo, "Las ratas", um cliente de restaurante e as duas empregadas; no terceiro, "El más fuerte", dois condutores na estrada; no quarto, "Bombita", um homem que arrumou mal o carro; no quinto, "La propuesta", um atropelamento mortal com fuga; e no último, "Hasta que la muerte nos separe", uma festa de casamento. 
                       
   Com brio e inteligência, o realizador trata cada episódio de maneira cerrada, de modo a que o tom de comédia surja, esparso, com o excesso. Por vezes raiando o absurdo, cada uma das situações é exarcerbada e levada para além dos limites do suportável - e então o episódio acaba, numa colagem sobre a malha da sociedade moderna vista clinicamente ao microscópio.
   Estes serão os "novos selvagens" do nosso tempo e, de facto, o filme passa-se na Argentina como se poderia passar em qualquer outro país, subdesenvolvido ou dito desenvolvido..Os dois primeiros episódios são mais sumários, short stories macabras, o  último é muito bom mas os melhores são "El más fuerte", "Bombita" e "La propuesta", os que envolvem carros.
   Conta com excelentes actores e tem fotografia de Javier Julia, música de Gustavo Santaolalla e montagem de Pablo Barbieri e do realizador. Passou ontem à noite no Arte - sobre cinema argentino ver "Um cheiro de morte", de 7 de Maio de 2018.

domingo, 26 de agosto de 2018

Discreto e influente

   Natural de Aljustrel, Luís Amaro (1923-2018) distinguiu-se-se como editor de José Régio, Adolfo Casais Monteiro, Mário Beirão e Manuel Teixeira-Gomes, entre outros, na Potugália Editora, como poeta de inspiração lírica e intimista e como crítico literário.
   Com António Luís Mota, António Ramos Rosa, José Terra e Raul de Carvalho fundou e dirigiu os cadernos Árvore - folhas de poesia entre 1951 e 1953. Participou noutras publicações como a Seara Nova e a Távola Redonda e foi director-adjunto e consultor editorial da Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. 
                                                          
    Pelos seus 90 anos a Biblioteca Nacional dedicou-lhe merecida e importante exposição, numa altura em que a sua influência se tinha alargado já a poetas mais recentes.
    Defensor da poesia e dos poetas, de que foi um grande e atento conhecedor, também bibliófifo, autor de uma obra poética breve mas muito boa influenciada pelo neo-romantismo e pelo segundo modernismo, deixou uma marca profunda na poesia, na literatura e na cultura portuguesas, de que foi personalidade de relevo e testemunha privilegiada até aos nossos dias.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Desencontros

    "Reviver o Passado em Montauk"/"Return to Montauk", de Volker Schlöndorff (2017), é o mais recente filme deste cineasta central do cinema novo alemão dos anos 60/70 a estrear em Portugal. Aparentemente modesto como filme, tem a ambição da sua temática não aparente mas notória e notável.
    Max Zom/Stellan Skarsgärd é um conhecido escritor alemão. Depois da abertura em grande-plano dele a falar para a câmara, em digressão pelos Estados Unidos, leia-se New York, na companhia de Clara/Susanne Wolff, procura e reencontra Rebecca/Nina Hoss, mais nova do que ele, agora advogada, que conheceu de perto anos antes durante uma outra viagem à América.                     
    Por entre apresentações públicas do seu livro, ele consegue, graças a Walter/Niels Arestrup, rico marchand de arte, reencontrar-se com ela, que depois de alguma hesitação, o convida para um fim-de-semana em Montauk, onde eles se tinham conhecido. Aí, depois de uma noite juntos fazem confidências um ao outro.
                      return to montauk
   O que me interessa neste filme, que tem argumento de Colin Tóbin e do realizador, é o lado de fantasma do passado que Rebecca reveste para Max, muito bem sintetizado no diálogo final entre ele e Clara, e também o fantasma dela do seu namorado que morreu jovem, enquanto ele tem uma filha já com 16 anos. 
   De realização simples salvo o ancilar grande-plano inicial e com interpretações justas, sem recusar o imediato aponta para o lado escondido dos protagonistas, ancorado no passado numa teia de relações muito bem concebida, e tem muitas referências filosóficas e literárias - o trabalho da escrita, o que fica inacabado na vida, etc. - que lhe conferem densidade e a que há que estar atento. 
    E no final Max não pega na valiosa oferta de Walter. Conta com fotografia de Jerôme Alméras, música de Michael Bartlett, Caoimhim O'Raghallaigh e Max Richter e montagem de Hervé Schneid.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Um homem de paz

   Conhecido como distinto Secretário-Geral da Nações Unidas entre 1997 e 2006, Kofi Annan (1938-2018)) desempenhou o cargo de forma excepcional, deixando nessas funções um paradigma difícil de igualar.  
    Começou como responsável do orçamento da Organização Mundial de Saúde e depois Director do Turismo no Gana, onde nasceu. Graduado em Gestão pelo MIT em 1972, trabalhou em seguida nas agências especializadas das Nações Unidas nos principais e mais difíceis cargos dedicados à paz, à saúde e ao bem estar daquela organização internacional, do Ruanda à ex-Jugoslávia, entre 1987 e 1996 como Secretário-Geral Adjunto.
                       Former United Nations Secretary General Kofi Annan has died.
      Numa época especialmente difícil, que incluiu a independência há muito ansiada de Timor-Lesta, a sua actividade como Secretário-Geral da ONU, centrada na paz, foi de tal modo importante que lhe valeu o Prímio Nobel da Paz pela criação do Fundo Global de Luta contra a Sida, a Tuberculose e a Malária em 2006.
     Terminadas as suas funções como Secretário-Geral da ONU, em que tinha cumprido um segundo mandato, criou a Fundação Kofi Annan, com sede da Suíça. Figura distinta e simpática, a sua memória deve ser um incentivo para todos, em especial nas Nações Unidas, na luta por um mundo mais pacífico e acolhedor, de que o espectro da guerra seja afastado..