sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Uma exposição preciosa

    Termina no próximo domingo, 16 de Setembro, já em prolongamento a exposição "Escher" que está desde Novembro de 2017 no Museu de Arte Popular, em Lisboa. Trata-se de uma exposição muito importante embora não muito extensa, que nos permite tomar contacto com a obra deste grande artista gráfico do século XX.
    De origem holandesa, Maurits Cornelis Escher (1898-1972) desenvolveu uma obra fundamental em especial em litografia e xilogravura, mal conhecida na sua parte anterior às "composições paradoxais" que o tornaram famoso e que aqui se encontra também representada.
                    
   Antecipando intuitivamente conhecimentos matemáticos que posteriormente o vieram confirmar, nos seus paradoxos perceptuais e lógicos extremamente desafiadores ele criou obras fundamentais nas artes do seu tempo, muito influentes e que hoje mais do que nunca merecem ser bem conhecidas. 
   O espaço do Museu de Arte Popular não é grande, pelo que não dá para mais, mas felicito os seus responsáveis por esta iniciativa sem precedentes entre nós, uma exposição com atracções especiais para os mais novos e que tem sido um sucesso. É comissariada por Mark Veldhuysen e Federico Giudiceandrea e o catálogo "M, C, Escher: A Arte do Puzzle e O Puzzle da Arte", de Piergiorgio Odifreddi, inclui também obras ausentes da exposição e fornece uma introdução capaz ao artista e à sua obra. 
   Perante esta grande oportunidade só posso recomendar a todos que a visitem ainda. Para maiores desenvolvimentos, cf. em português "Gödel, Escher, Bach - Laços Eternos", de Douglas R. Hofstadter"´(Lisboa, Gradiva, 2000, 2013 para a segunda edição). Só agora falo disto porque só nos últimos dias consegui ver esta exposição.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

América a preto e branco

     Depois de "Rodney King" (2017) e "Pass Over" (2018), que não nos chegaram, Spike Lee realizou também este ano "BlacKKKlansman: O Infiltrado"/"BlacKkKlansman", um filme baseado em factos reais com argumento de Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Wellmott e do cineasta, também produtor, a partir do livro de  Ron Stallworth.
      Começando com imagens de filmes de Hollywood contra os negros e com um discurso racista interpretado por Alec Baldwin, o filme acompanha um jovem negro, Ron Stallworth/John David Washington (filho de Denzel Washington), que nos anos 60 consegue ser admitido na polícia onde se oferece para trabalhar como infiltrado.
     Numa primeira missão conhece Patricia Dumas/Laura Harrier durante um comício do black power, mas depois oferece-se para infiltrar o KKK. Como ele é negro tem de arranjar quem o represente fisicamente junto da Organização, o que vai ser feito pelo seu colega branco Flip Zimmermann/Adam Driver.          
                                       
        Não vou contar o filme. Direi antes que a relação entre os dois, estabelecida com micro e audio, tem momentos divertidos e que se o lado dos negros está naturalmente bem representado mesmo quanddo entre brancos, o grande trunfo do filme é a certeira representação da sinistra organização racista, dirigida por David Duke/Topher Grace. E aí de forma muito pertinente o filme liga o passado e o presente até ao recurso ao tristemente célebre slogan "America first".
       Spike Lee não é, nunca foi um cineasta banal, antes se conta os melhores realizadores americanos contemporâneos, o que aqui se confirma com o recurso a figuras de estilo que já utilizou em filmes anteriores, como planos longos e isolar personagens do cenário incrustando-as no plano, e com o muito apropriado paralelo entre as actividades do KKK e a história antiga que conta Jerome Turner//Harry Belafonte, que demonstram que ele está em grande forma.
        O filme termina com imagens documentais fortes do presente e uma homenagem. Dizer que se trata de um filme político limita-se a constatar uma evidência num cineasta cujos filmes sempre tiveram esse cunho, embora de facto este o seja especialmente e sobre o presente. Tem excelentes actores, fotografia de Chayse Irvin, música de Terence Blanchard e montagem de Barry Alexander Brown.
      "BlacKkKlansmaan: O Infiltrado" é um grande filme que aqui aconselho e todos devem ver. Porque é um filme sobre estes tempos difíceis que se vivem na América e no mundo. Um tempo perigoso com novos e sinistros protagonistas, que alastra e precisa de ser dominado.

sábado, 8 de setembro de 2018

Superação

     "Missão: Impossível - Fallout"/"Mission: Impossible - Fallout", de Christopher McQuarrie (2018), é o sexto desta popular série de filmes de origem na série televisiva criada por Bruce Geller. Tem produção de J. J. Abrams, Tom Cruise e do realizador, também argumentista, como já acontecera no filme anterior, "Missão Impossível: Nação Secreta"/"Mission: Impossible - Rogue Nation" (2015).
     Um primeiro ponto é ser um filme de acção, um segundo ponto ser um filme com Tom Cruise e o terceiro ponto é ser feito em estilo de série B, o que lhe dá um cariz artificial, impreciso próprio, visível na encenação televisiva para o prisioneiro e em cenas rodadas em Paris.     
                        mission impossible fallout box office records
    Decorrendo fundamentalmente no eixo Paris-Londres, volta a reunir Ethan Hunt/Tom Cruise, Luther Stickwell/Ving Rhames, Benji Dunn/Simon Pegg e Ilsa Faust/Rebecca Ferguson desta feita contra John Lark e os Apóstolos, formados após a derrota do Sindicato no filme anterior, com um Secretário/Alec Baldwin e Erika Sloane/Angela Basset no comando das operações relativas a um terrorista que tem em seu poder três ogivas atómicas que há que trocar e apreender em Paris e Londres, Soloman Lane/Sean Harris, com a Black Widow/Vanessa Kirby como intermediária.                       
     Os grandes momentos de acção são a perseguição a Ethan que foge de moto da polícia em Paris e o final que, nas montanhas da fronteira da China com o Paquistão, com o lugar-comum de uma ONG, o opõe a August Walker/Henry Cavill, o homem que trabalha com eles mas a mando de Erika, com perseguição espectacular de helicóptero, contagem decrescente, precipício montanhoso e tudo. 
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    Com descontração, explicações verbais sumárias e sem ligar nenhuma à verosimilhança, como é de uso nos filmes de espiongem salvo quando baseados em John le Carré, faz bom uso dos locais mais conhecidos de Paris e Londres como cenário e cumpre o programa da série, sublimando-a e superando-a porque Ethan Hunt é tomado como agente duplo, trabalhando também para o inimigo e porque, depois de quase descarrilar em Londres com a morte do Secretário, reengrena e caminha imparável para o seu final, em que surge também Julia/Michelle Monaghan, a ex-mulher de Ethan.
    O tom irrisório, de série B, aumenta o interesse potencial do filme, em que avulta ainda a luta de Benji com aquele que personalizara para efeito da troca em Paris. E naquele grupo de elite, que já não confia em ninguém, tudo se passa com familaridade e de acordo com as regras do bom companheirismo entre profissionais, com o esperado e costumado final feliz - Ethan Hunt retira o detonador com os dentes e segue-se o epílogo.
    Tem fotografia de Rob Hardy, música de Lorne Balfe e montagem de Eddie Hamilton. Igual a si mesmo como figura icónica do cinema, Tom Cruise está um pouco melhor que o costume num elenco desenvolto e já conhecido na sua parte principal.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Indignidade

    "O Número"/"Remember", de Atom Egoyan (2015), com argumento de Benjamin August, é um filme sem grande brio mas com fibra e alguma chama, que remete para a memória de Auschwitz.
   Zev Guttman/Christopher Plummer, viúvo e a sofrer de demência, recebe de Max Rosenbaum/Martin Landau o encargo de matar um misterioso nazi que esteve em Auschwitz e sai do hospital em que estava para o procurar, enquanto o seu filho Charles/Henry Cremy tenta localizá-lo.
                      
     Depois de encontrar três indivíduos com o mesmo nome entre os Estados Unidos e o Canadá nenhum dos quais é o que procura, no fim de um longo percurso com alguns percalços sabe que o quarto será o propriamente dito - e não vos conto mais.
     Sem dever nada de especial ao estilo do cineasta de origem arménia, o filme resolve-se entre números com uma pirueta inesperada, em que reside o especial motivo de interesse que apresenta - afinal, num tempo de memórias pouco claras de Zev, o significado do número gravado no braço era outro.
    Tem bons actores, fotografia de Paul Sarossy, música de Mychael Danna e montagem de Christopher Donaldson. Vê-se sem enfado embora nada de especial acrescente à obra de Atom Egoyan salvo do lado do duplo e da morte.

sábado, 1 de setembro de 2018

O homem certo

     O novo director do Arquivo Secreto e da Biblioteca do Vaticano, José Tolentino de Mendonça, é "o homem certo no lugar certo". Intelectual prestigiado, teólogo e académico, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, é também escritor e poeta reconhecido, a qualidade em que melhor o conheço.  
                     
      Figura conhecida devido à sua intervenção pública e à sua qualidade de colunista do Expresso, é um homem de cultura de alto gabarito, especialista em livros como criação e como memória nesta época em que muitos os querem relegar para segundo plano, como algo do passado. Um católico que, sem beliscar em nada a sua fé, não esconde o seu respeito por ateus.
     Felicito o Papa Francisco pela sua escolha e o agora Arcebispo José Tolentino de Mendonça pelo seu novo cargo em que, estou certo, terá um desempenho da maior qualidade - e a Biblioteca do Vaticano é talvez a maior e mais importante do mundo.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Além dos limites

    "Relatos Selvagens"/"Les nouveaux sauvages"/"Relatos selvajes", terceira longa-metragem do argentino Damián Szifrón (2014) - que tem trabalhado sobretudo para a televisão - com argumento dele e Germán Servídio e produção de Agustìn e Pedro Almodóvar, é um filme em episódios, os dois primeiros breves, os outros quatro um pouco mais longos.
    Trata-se de situações bizarras em que as personagens se excedem em agressividade ou em desalento, como vítimas ou/e como como culpadas: no primeiro episódio, "Pasternak", os passageiros de um avião; no segundo, "Las ratas", um cliente de restaurante e as duas empregadas; no terceiro, "El más fuerte", dois condutores na estrada; no quarto, "Bombita", um homem que arrumou mal o carro; no quinto, "La propuesta", um atropelamento mortal com fuga; e no último, "Hasta que la muerte nos separe", uma festa de casamento. 
                       
   Com brio e inteligência, o realizador trata cada episódio de maneira cerrada, de modo a que o tom de comédia surja, esparso, com o excesso. Por vezes raiando o absurdo, cada uma das situações é exarcerbada e levada para além dos limites do suportável - e então o episódio acaba, numa colagem sobre a malha da sociedade moderna vista clinicamente ao microscópio.
   Estes serão os "novos selvagens" do nosso tempo e, de facto, o filme passa-se na Argentina como se poderia passar em qualquer outro país, subdesenvolvido ou dito desenvolvido..Os dois primeiros episódios são mais sumários, short stories macabras, o  último é muito bom mas os melhores são "El más fuerte", "Bombita" e "La propuesta", os que envolvem carros.
   Conta com excelentes actores e tem fotografia de Javier Julia, música de Gustavo Santaolalla e montagem de Pablo Barbieri e do realizador. Passou ontem à noite no Arte - sobre cinema argentino ver "Um cheiro de morte", de 7 de Maio de 2018.

domingo, 26 de agosto de 2018

Discreto e influente

   Natural de Aljustrel, Luís Amaro (1923-2018) distinguiu-se-se como editor de José Régio, Adolfo Casais Monteiro, Mário Beirão e Manuel Teixeira-Gomes, entre outros, na Potugália Editora, como poeta de inspiração lírica e intimista e como crítico literário.
   Com António Luís Mota, António Ramos Rosa, José Terra e Raul de Carvalho fundou e dirigiu os cadernos Árvore - folhas de poesia entre 1951 e 1953. Participou noutras publicações como a Seara Nova e a Távola Redonda e foi director-adjunto e consultor editorial da Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. 
                                                          
    Pelos seus 90 anos a Biblioteca Nacional dedicou-lhe merecida e importante exposição, numa altura em que a sua influência se tinha alargado já a poetas mais recentes.
    Defensor da poesia e dos poetas, de que foi um grande e atento conhecedor, também bibliófifo, autor de uma obra poética breve mas muito boa influenciada pelo neo-romantismo e pelo segundo modernismo, deixou uma marca profunda na poesia, na literatura e na cultura portuguesas, de que foi personalidade de relevo e testemunha privilegiada até aos nossos dias.