terça-feira, 2 de outubro de 2018

Charles Aznavour (1924-2018)

    De origem arménia, foi um cantor e compositor mítico e um actor de cinema carismático nomeadamente em "Tirez sur le pianiste" de François Truffaut (1960) e "Os Fantasmas do Estrangulador"/"Les fantômes du chapelier" de Claude Chabrol (1982), já neste século em "Ararat" de Atom  Egoyan (2002), entre muitos outros filmes franceses e internacionais. 
     Voz romântica de canções românticas, esteve à altura dos melhores do seu tempo, Jacques Brel, Georges Brassens, Léo Ferré, impondo a sua figura característica e a sua voz excepcional.  
                         1982 : "Les Fantômes du chapelier" de Claude Chabrol
    Comecei a ouvi-lo cedo e nunca mais o esqueci, sobretudo depois de "Tirez sur le pianiste", um dos filmes mais importantes do cineasta e da nouvelle vague francesa Guardo por isso uma recordação muito especial dele, que era muito especial também para os próprios franceses, e por isso me curvo neste momento perante a sua memória.
    Aqui
https://www.letras.mus.br/charles-aznavour/2600/
vos deixo o melhor dele.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Centenário Ingmar Bergman

          

Foi um cineasta fundamental do cinema moderno, que com outros como Roberto Rossellini, Michelangelo Antonioni, Robert Bresson e Jacques Tati inaugurou. Autor de uma obra cinematográfica diversificada mas muito coerente, fundamental, e que também encenou para o teatro, em que começou antes do cinema, e fez filmes para a televisão.
Educado num meio luterano, o que muito o marcou, e influenciado pela filosofia de Sören Kierkegaard, estreou-se no cinema em 1946 com "Crise"/"Kris" mas foi a partir de "Um Verão de Amor"/"Sommarlek" (1951) e de "Mónica e o Desejo"/"Sommaren med Monika" (1953) que começou a ser conhecido e reconhecido internacionalmente. Numa primeira parte a sua obra é influenciada pelo "realismo poético" de Marcel Carné e vai até "Noite de Circo"/"Gycklarnas afton" (1953). Mas desde 1944 trabalhou também como argumentista em filmes de Alf Sjöberg e Gustaf Molander. 
A seguir iniciou uma nova fase que vai de filmes sobre o amor a filmes de inspiração metafísica (o silêncio de Deus), de filmes sobre mulheres a filmes voltados para o passado, do drama à comédia. Avultam nos anos 50 "O Sétimo Selo"/"Det sjunde inseglet" (1957) e "Morangos Silvestres"/"Smultronstället" (1957), depois "A Fonte da Virgem"/"Jungfrukällan" (1960) antes da trilogia "Em Busca da Verdade"/"Säsom i en spegel" (1961), "Luz de Inverno"/"Nattvardsgästerna" e "O Silêncio"/"Tystnaden" (1963), seguida de "A Máscara"/Persona" (1966). 
A este segue-se uma série de grandes filmes de que destaco "Lágrimas e Suspiros"/"Viskningar och rop" e "Cenas da Vida Conjugal"/"Scener ur ett Äktenskap" (1973) e "Sonata de Outono"/"H]ostsonaten" (1978) numa fase mais contemporânea sobre a solidão humana, a relação entre os sexos, a família, o amor e a morte, que vai culminar em "A Flauta Mágica"/"Trollflöjten" (1975) e "Fanny e Alexandre"/"Fanny och Alexander" (1983), de carácter auto-biográfico, e em "Depois do Ensaio"/"Efter repetitionen (1984). Anunciou então que se retirava do cinema, o que, porque pouco comum foi inesperado. Continuou a fazer teatro e filmes para a televisão e regressou ainda com "Saraband" (2003).
Descrito muito sumariamente um percurso variado e muito importante sempre ao mais alto nível, há que dizer que se Ingmar Bergman teve várias temáticas recorrentes, entre as quais o conflito de gerações, o conflito entre os sexos e o conflito da vida com a morte, todos eles conflitos centrais que envolvem instintos primordiais, trabalhou e elaborou um estilo pessoal em que sobressaíam o grande-plano, o tratamento do espaço, o trabalho dos actores e os diálogos, primeiro a preto e branco, a partir de 1969, com "A Paixão"/"En Passion" a cores. Fez filmes falados em inglês, "O Amante"/"Beröringen"/"The Lover" (1971) e um filme sobre a guerra, "O Ovo da Serpente"/"Das schlangenre"/"The Serpent's Egg", e sobretudo cada um dos seus filmes, sempre com argumento seu, foi objecto de uma realização depurada e contou sempre com grandes actores. 
                         persona Ingmar Bergman


Para ser ainda mais completo, fez também dois documentários, "Färo-Dokument 1969" e "Farö-Dokument 1979", sobre a ilha em que viveu, enquanto no teatro encenou ao longo da sua vida Shakespeare, Moliére, Goethe, Büchner, Chekhov, Ibsen, Stindberg, Pirandello, Anouilh, Bertolt Brecht, Eugene O’Neill, TennesseWilliams, Albee, Gombrowicz e Botho Strauss entre outros e também peças da sua autoria. 
Destacaram-se ao longo da suaa obra grandes actrizes (Harriet Andersson, Bibi Andersson, Eva Dahlbeck, Ulla Jacobson, Ingrid Thulin, Liv Ullmann, Ingrid Bergman) e actores (Victor Sjöström, ele próprio cineasta do mudo, Max Von Sydow, Gunnar Björnstand, Erland Josephson) e certos colaboradores dos seus filmes como os directores de fotografia Gunnar Fischer e Sven Nykvist. Mas também a música foi importante nos seus filmes, com preferência por Johann Sebastian Bach.
           Pela sua visão sobre o ser humano e as relações entre os humanos foi um cineasta original, audacioso, próximo do existencialismo e em especial de Albert Camus, extremamente importante e influente, que deixou um rasto decisivo na história do cinema e continuadores como, entre outros, Woody Allen. Argumentos seus foram ainda levados ao cinema por Bille August, Daniel Bergman e Liv Ullmann.
           A importância da obra de Ingmar Bergman não se deve apenas ao mito que o rodeou depois de ter anunciado a sua retirada precoce mas ao extraordinário valor humano, dramático e estético de cada um dos seus filmes, que se revêem hoje com a mesma novidade e a mesma frescura que tiveram quando foram estreados, alguns deles obras-primas absolutas do cinema.
          Na passagem do centenário do seu nascimento aqui o recordo e homenageio como cineasta sem medos ou receios, corajoso e desinibido que mostrou até onde o cinema podia chegar até na sua relação com o pensamento, o que explorou largamente com suprema autoridade e grande mestria. Sobre o cineasta cf. em português "A Maldade no Cinema de Ingmar Bergman, de António Júlio Rebelo (Lisboa: Edições Colibri, 2015). 

(Escrito para o 10º aniversário de Cinema 7ª Arte, aqui
https://www.cinema7arte.com/
com os meus parabéns)

sábado, 29 de setembro de 2018

O inexplicável

    Dando continuidade a "O Pequeno Quinquin"/"P'tit Quinquin" (2014), o francês Bruno Dumont dirigiu nova mini-série para televisão, "Coincoin et les z''inhumains" (2018), de novo com argumento seu a partir do mesmo meio e das mesmas personagens, agora mais velhas. Passou nas duas últimas semanas no Arte.     
                      
    As coisas complicam-se porque algumas das personagens duplicam-se como se por clonagem e um misterioso líquido negro cai do céu sobre algumas delas, o que leva a falar de extra-terrestres, primeiro, do apocalipse depois. Coincoin/Alane Delhaye passeia e namora. A polícia investiga.
    Cada um dos quatro episódios representa um crescendo de cómico, de horror e de absurdo, em que os inumanos do título surgem também como refugiados (os outros, diferentes) e como padres pedófilos, inumanos comuns, diferentes dos outros, que não se chegam a ver.
                      Coincoin et les Z'inhumains de Bruno Dumont : 'J'avais envie d'aller plus loin, il fallait pousser le bouchon'
    Tudo parece sob controlo até que é o próprio comandante Von der Weyden/Bernard Prevost a ser clonado, o que vem complicar a vida de Carpentier/Philippe Jone que lhe diz que ele não é ele, verbalizando o que dos outros antes clonados poderia ter sido dito e não fora: aquele duplo já não é quem esteve na sua origem apesar de ser igual a ele. 
   Aumentado o grotesco esta mini-série aumenta o alcance filosófico a que se vem juntar a presença inexplicada de desconhecidos e a antecipação do fim dos tempos perante a enormidade dos acontecimentos. Tudo termina com um desfile felliniano em que entram todos os actores da mini-série. A fotografia é de Guillaume Deffontaines e o elenco já conhecido está muito bom, inexpressivo salvo os dois polícias, sobre-expressivos. A realização de Bruno Dumont é como de costume certa.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Uma vida

      Nome maior das artes plásticas e da arte portuguesa contemporânea, Helena Almeida (1934-2018) reuniu em si qualidades extraordinárias de talento e persistência que fizeram dela uma referência da arte europeia.  
                    
      Fez a sua primeira exposição individual em 1967 e a partir daí expôs em todo o país, toda a Europa e todo o mundo enquanto desenvolvia uma obra da maior importância centrada no seu próprio corpo. Mereceu vários prémios importantes ao longo da sua vida. Tornada figura pública, tornou-se conhecida e respeitada.
      Cumpre-me assinalar aqui a sua morte e lamentá-la. Embora ela fosse daqueles artistas que "se vão da lei da morte libertando" e permaneça como fonte de inspiração e como exemplo, como figura central e carismática da arte contemporânea.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O centro do mundo

    "Uma Casa Junto ao Mar"/"La villa" é o mais recente filme do cineasta francês Robert Guédiguian, um filme sobre o passado e o presente com doentes, vivos e mortos que traça um panorama familiar completo e comovente.
    Os três irmãos, Angèle/Ariane Ascaride, Joseph/Jean-Pierre Darroussin e Armand/Gérard Meylan reúnem-se à cabeceira do pai, Maurice/Fred Ulysse, que teve um colapso, na casa em que cresceram no sul de França, perto de Marselha. Para receberem a herança paterna em vida dele, que sem consciência nem fala pode viver ainda mais uns anos. Joseph leva consigo a namorada, muito mais nova que ele, Bérangère/Anaïs Demoustier.   
      Aí encontram Yvan/Yann Trégouët e os pais deste Martin/Jacques Boudet e Suzanne/Geneviève Mnich, bem como Benjamin/Robinson Stévenin (filho de Jean-François Stévenin), apaixonado de teatro e de Angèle, que é actriz. As relações entre eles cruzam-se em surdina, elipticamente, com sobriedade e elegância.
                     
    Com serenidade e emoção, os três irmãos recordam o passado comum e Angèle em especial a filha morta afogada acidentalmente. Mas no presente, depois de duas mortes chegam no final três crianças refugiadas, três irmãos que os replicam, que se vão integrar harmoniosamente na família e na narrativa. 
   Também a realização do cineasta marselhês é serena, como se para captar os segredos mais íntimos de cada personagem num filme bergmaniano em que o particular se articula muito bem com o universal, para que remete e que repercute.
    Numa obra já muito apreciável cujos dois filmes anteriores, "Au fil d'Ariane" (2014) e "Une histoire de fou" (2015), não nos chegaram, este filme sem música tem argumento de Serge Valletti e Robert Guédiguian, fotografia de Pierre Milon e montagem de Bernard Sasia, com produção do próprio realizador e de Marc Borduras. E os actores principais são os habituais dos filmes deste destacado cineasta. Disto eu gosto.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Um homem da imagem

   Director de fotografia de José Fonseca e Costa em "Os Demónios de Alcácer Quibir" (1977) e "Kilas o Mau da Fita" (1980), de Artur Semedo em "O Rei das Berlengas" e de José Álvaro Morais em "Ma Femme Chamada Bicho" (1978), de Paulo Rocha em "A Ilha de Moraes" (1984) e de Fernando Lopes em "Matar Saudades" (1988), António Escudeiro (1933-2018) foi um muito qualificado homem da imagem no cinema português.  
                                           Photo of António Escudeiro
   Também realizador, participou no filme colectivo "As Armas e o Povo" (1975) e fez entre outros "Eu Vi a Luz em um País Perdido" (1993) para a televisão e documentários como "Adeus até Amanhã" (2007). Em tudo o que fez no campo da imagem deixou a sua marca pessoal. Aqui o recordo com saudade na hora da sua partida.

domingo, 23 de setembro de 2018

A guerra é a guerra

    "A Grande Decisão"/"Darkest Hour", de Joe Wright (2017), realizador que já tinha feito "Expiação"/"Atonement" (2007) e "Anna Karenina" (2012) entre outros, é um filme sombrio sobre tempos muito difíceis e decisisivos para o Reino Unido no início da II Guerra Mundial.
     No meio de acerba luta política, Winstom Churcill/Gary Oldman torna-se a escolha inevitável para primeiro-ministro depois da demissão do anterior, Neville Chamberlain/Ronald Pickuo, e perante a recusa do candidato óbvio, o Visconde Halifax/Stephen Dilane, de lhe suceder.
    Contando apenas com o apoio de Clemmie/Kristin Scott Thomas, da secretária Elizabeth Layton/Lily James (uma relação muito curiosa) e mais tarde do próprio rei Jorge VI/Ben Mendelsohn, o novo primeiro-ministro, corre o mês de Março de 1940, tem de lidar com a invasão da Alemanha nazi da Noruega, Países-Baixos, Bélgica e França, onde se encontra estacionado um grande número de tropas inglesas.
                     .On Surviving Your Darkest Hour image
     Numa situação que conduziu imediatamente a Dunquerque, ele tem, de acordo com a sua própria convicção, de afastar as ardilosas propostas de Halifax de negociação com Hitler mediada por Mussollini, avançar com o esforço de guerra contra todos os riscos, nomeadamente o de invasão do solo britânico, e fazer evacuar os seus homens de França. Uma viagem de metro em Londres mostra-lhe o apoio que tem e o que deve fazer.
     Com argumento de Anthony McCarten, o filme tem uma realização certa, sóbria e segura, que deixa os actores darem o seu melhor num clima de emoção crescente perante as sucessivas escolhas difíceis de Churchill, um primeiro-ministro hábil e resoluto, à altura do seu tempo.
     Tem fotografia de Bruno Delbonnel, música de de Dario Marienelli e montagem de Valerio Bonelli e é um filme estimulante, muito oportuno e bem feito para o tempo presente. Sem garantia de todos os pormenores pessoais, confia-se na investigação prévia para o argumento e em todo o caso a mancha histórica é verídica, o  que confere a este "A Hora Mais Negra" uma ainda maior importância.
     O Óscar do melhor actor para Gary Oldman é inteiramente merecido naquele que foi um dos melhores filmes do ano.