domingo, 10 de fevereiro de 2019

Primeiro filme

    "Ixcanul" é a primeira longa do guatemalteco Jayro Bustamante (2015), um filme muito bom com argumento seu e interpretado por não-profissionais com grande significado e perfeição.
    Um casal de índios Maya com uma filha de 17 anos trabalha numa plantação de café ao filho de cujo proprietário a jovem Maria é prometida em casamento. Mas ela prefere-lhe outro, Pepe, que vai partir para os Estados Unidos. Tudo na proximidade de um vulcão.    
                      2015-08-30 20_36_08-Ixcanul - Trailer Oficial (ESP) - YouTube
    Grávida, é-lhes dito no hospital, a ela e aos pais com o noivo prometido como intérprete que a criança nasceu morta, o que se vem a revelar falso com implicações graves em elipse. Já com os inquiridores da estatística eles tinham tido que utilizar uma intérprete infiel.
    María Mercedes Coroy, María Telón, Manuel Antún, Justo Lorenzo e Marvin Coroy contam-se entre os intérpretes muito bons deste excelente filme com excepcional composição visual, do grande plano e do plano de pormenor ao plano geral muito expressivo e expositivo, e também sonora. Com fotografia de Luis Armando Arteaga, música de Pascual Reyes e montagem de Cesar Dias.
    Um filme de grande significado humano e artístico passado entre gente marginalizada e pobre, mas com as suas crenças e práticas ancestrais, num país pobre. Um daqueles países contra cujos habitantes em migração querem erguer um muro na fronteira sul dos Estados Unidos.
    Estas coisas, que são importantes no cinema, porque bem feitas e inspiradas na realidade, importantes na vida do cinema e no nosso conhecimento, só me chegam no Arte

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Distâncias

    O mais recente filme do franco-tunisino Abdellatif Kechiche, "Mektoub, My Love: Canto Uno" (2017), o primeiro de uma anuncida trilogia livremente inspirada no romance "La Blessure, la Vrai" de François Bégaudeau, é um filme surpreendente por várias razões. 
    O argumento é do realizador e Gahlia Lacroix e tem cinco personagens centrais, todas jovens: Amin/Shain Boumedine, fotógrafo e candidadto a argumentista, Ophélie/Ophélie Bau que tem o noivo longe, nas guerras da época, há quatro anos mas se entende com Tony/Salim Kechiouche, de quem Charlotte/AlexiaChardard gosta, e Céline/Lou Lotiau livre mas receptiva. O local é Sète, no sul de França, o ano 1994 e o meio a comunidade tunisina em França.
    Não me preocupam o meio, a localização, nem sequer as personagens, que vivem os amores próprios da sua idade com um vigor meridional, mas a distância temporal a que o filme se coloca, o que torna tudo mais claro pensando-se na idade que as personagens terão agora, e uma outra distância, que é encurtada, a da câmara aos actores.      
                       Alexia Chardard, Lou Luttiau, Shaïn Boumedine, Salim Kechiouche dans "Mektoub My Love : Canto Uno" d'Abdellatif Kechiche
     Claro que o entrecho é telenovelesco mas o certo é que Abdellatif Kechiche constrói o seu filme com base em cenas maioritariamente longas em vários planos e com movimentos de câmara mas mantendo por regra a câmara próxima dos rostos dos seus actores. Muito expressivos e volúveis, estes chamam a atenção sobre as personagens num primeiro grau que a planificação reforça. Encurtadas as distâncias tudo se torna flutuante na sua sucessão rápida.
     A comunidade tunisina no sul de França idealiza Paris, as relações entre os cinco complicam-se e transformam-se ao sol quente do sul e com a desajuda dos mais velhos, enquanto  os corpos se mantêm próximos uns dos outros e brilham ao sol. Mas há ainda uma outra distância a assinalar que é a proximidade da natureza, no rebanho do pai de Olphélie que Amin, que a quer fotografar a ela, fotografa.
     A duração do filme parece-me excessiva mas a fotografia de Marco Graziaplena e a montagem de Nathanaëlle Gerbaux e Maria Giménez Cavallo permitem criar ritmo e rimas que o equilibram em simetria. Mas as distâncias temporal e física são aqui fundamentais, por exemplo entre a proximidade de Ophélie e Tony no início e apenas Amin e Charlotte sós e juntos na praia no final.
     Depois de "A Vida de Adèle"/"La vie d'Adèle" (2013), este filme faz todo o sentido na obra de Abdellatif Kechiche, que continua a ser um cineasta a acompanhar com atenção.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Exasperação

   "Avisem os Espartanos"/"Go Tell the Spartans" de Ted Post (1978), realizador americano que desde os anos 50 trabalhou sobretudo para televisão mas fez alguns bons filmes para cinema, como "À Sombra da Forca"/"Hang 'Em High" (1968) e "Harry, Detective em Acção"/"Magnum Force" (1973), ambos como Clint Eastwood, é um dos primeiros filmes sobre a Guerra do Vietnam, do mesmo ano de "O Caçador"/"The Deer Hunter" de Michael Cimino e do ano anterior a "Apocalypse Now" de Francis Ford Coppola.
   Foi agora retirado do esquecimento em que caíra juntamente com o cineasta, produto de uma série B tardia, pelo Arte, que o mostrou esta semana e revela-se um filme com força contida e bem feito. Decorre em 1963, quando chegam ao Vietnam os "conselheiros técnicos" americanos e se dão as primeiras escaramuças, ainda com a memória recente do desastre francês na Indochina na década anterior.
                       Go Tell the Spartans
    Um major que coxeia, Asa Barker/Burt Lancaster, tem de conduzir o seu grupo de homens inexperientes e um guia local a um posto avançado estratégico por entre ardis e armadilhas. Para cumprir a sua missão, o major precisa de apoio aéreo, que obtém, para pouco depois lhe ser ordenada a retirada. Aqueles que ficam, entre os quais Asa Barker, são todos dizimados excepto um deles, que irá dizer aos espartanos que aqueles homens resistiram até ao fim, como reza a placa deixada pelos franceses.
   Feito com economia de meios em estilo clássico, este um filme bastante bom que recorda os inícios da presença americana, quando não se sonhava ainda com o desfecho de uma Guerra que se haveria de tornar fatal para as forças americanas
  Tem argumento de Wendell Mayes, baseado em novela de Daniel Ford, fotografia de Harry Stradling Jr., música de Dick Halligan e montagem de Millie Moore. Com as suas limitações, é um bom filme sobre um assunto que o cinema americano tratou sobretudo depois do fim da guerra. Nele exemplarmente a coragem transmuta-se em exasperação final.
   Deste modo, o Arte continua a cumprir com eficiência o papel de uma boa cinemateca europeia.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Culpado

    Com argumento de Nick Schenk baseado num artigo de Sam Dolnick no The New York Times, "Correio de Droga"/"The Mule" de Clint Eastwood (2018) é um belo filme sério e dramático que brinca com o seu protagonista, Earl Stone/C. E (a descoberta da carga do seu carro, a garrafa térmica que mais tarde deixa para trás), o qual tenta ironizar com os outros numa situação que ele descobre afinal grave.
    Correio de droga para um cartel mexicano liderado por Laton/Andy Garcia, ele é um velho só que falhou na sua vida familiar e não tem mais a que se agarrar, e esse lado solitário e abandonado da personagem está muito bem dado pelo actor, conquanto mesmo com isso o realizador ironize. Depois de falhadas a filha e a neta, ele apenas chega a tempo da morte da sua mulher, Mary/Dianne Wiest, de quem ouve ainda as últimas palavras sobre amor e dor.
    Falso melodrama, depois de uma aturada perseguição policial liderada por Colin Bates/Bradley Cooper "Correio de Droga" resolve-se como melodrama quando em tribunal o protagonista se apresenta como culpado. Para acabar a fazer jardinagem na prisão como fazia fora dela no início. Eastwood está perfeito como Earl Stone, rude e simples homem do passado que consegue impor-se a si próprio e aos outros apesar de preso e condenado.         
                     
      Há um desprendimento e um modo de auto-ironia no cineasta-actor que o caracteriza e lhe fica bem neste filme que é o seu melhor desde "Sniper Americano"/"American Sniper" (2014). Reconhecido o fracasso do protagonista como homem de família há que preservar-lhe a dignidade como fora da lei, o que é plenamente conseguido, mesmo se à custa da minimização de outras personagens, tornadas meramente funcionais.
      E é muito bem visto ele interpretar neste filme um homem perseguido pela lei por um tráfico de que ele acaba por ter conhecimento e que não larga, o que lhe confere uma densidade dramática a que o actor acrescenta dignidade interior. Sem compadecimentos lacrimejantes, ele volta aqui ao fundo do fracasso e da dor.
      O filme conta com fotografia de Yves Belanger, música de Arturo Sandoval e montagem de Joel Cox. Noto que Clint Eastwood, o grande clássico americano da actualidade, dirigiu e interpretou este filme com uma idade invulgar mesmo entre os grandes nomes do cinema clássico americano.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

No impasse

   "L'économie du couple"/"After Love" (2016) é a sétima longa-metragem do belga Joachim Lafosse, um filme da maior qualidade e interesse.
   Decorre na sua maior parte no interior da casa de Marie/Bérénice Bejo e Boris/Cédric Khan, um casal em ruptura, com duas filhas gémeas, Jade/Jade Soentjens e Margaux/Margaux Soentjens. Trata-se entre eles da decisão dos protocolos do divórcio, o que, por entre acusações e recriminações mútuas, não é fácil pois ele não quer abandonar a casa.        
   Para além da narrativa cerrada com as interpretações a cargo de bons actores, o filme tem uma planificação justa que explora planos de duração superior à média, o que facilita o trabalho dos actores mas também confere ao filme características visuais e até sonoras próprias, assim tornado fluido e sereno ao tratar de um conflito aceso.
                      
    A passagem de  Babou/Marthe Keller e a abertura do casal em separação aos amigos de ambos vem tornar tudo mais claro num conflito agravado pelas diferenças sociais de origem de Marie e Boris.
   Conta com argumento e diálogos de Fanny Burdino, Joachim Lafosse e Mazarine Pingeot com a colaboração de Thomas van Zeyden, fotografia de Jean-François Hensgens e montagem de Yann Dedet. Sem música, o filme centra-se nas suas personagens em conflito de uma forma inteligente, concentrada e bem trabalhada em termos fílmicos, o que torna o acesso e a compreensão do espectador mais fáceis. 
   Com uma realização precisa e atenta a tudo, do pormenor ao todo, em "L'économie du couple" Joachim Lafosse mostra as razões pelas quais é actualmente um nome de referência no cinema europeu. Passou ontem à noite no Arte.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

De passagem em fuga

  O mais recente filme do alemão Christian Petzold, "Em Trânsito"/"Transit" (2018), tem adaptação dele de uma novela de Anna Seghers. Dedicado a Harun Farocki (1944-2014), tem várias particularidades que o tornam uma obra cinematográfica notável.
  Passado durante a invasão nazi da França na II Guerra Mundial, não assume a época e a circunstância em termos visuais, apenas narrativamente agarrado a elas e no espaço de cidades francesas progressivamente ocupadas do norte para o sul. De resto, os cenários, o vestuário, os acessórios e os adereços são da actualidade, o que cria um desfazamento não inocente mas muito produtivo. Como se tudo decorre-se num espaço-tempo abstracto
   Além disso, é acompanhado por uma voz-off narrativa que só no final recebe imputação ao dono do bar a quem Georg/Frantz Rogowski conta em Marselha o que lhe aconteceu desde o início: o seu encontro em Paris com um escritor que lhe confiou duas cartas e uma missão antes de morrer.
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    Contando com bons ambientes, são contudo as personagens o mais assinalável deste filme: Marie/Paula Beer, a mulher do escritor cuja identidade Georg assume para efeitos de sair por mar para o México - apesar de ele próprio passar a escrever também -, o médico que a acompanha, Richard/Godehard Giese, e sobretudo Melissa/Maryam Zaree, refugiada magrebina surda-muda com o seu filho pequeno, Driss/Lilian Batman, que joga futebol. Num filme bilingue, alemão e francês.
    O passado rebate-se sobre o presente de forma muito original e inventiva, de modo tal que o presente ecoa o passado tendo-o como referência permanente. As personagens de Georg e Richard cruzam-se por causa de Driss e debatem-se por causa de Marie para ver quem parte com ela e para onde, enquanto Melissa e o filho desaparecem sem deixar rasto. E há ainda uma mulher mais velha, arquitecta/Barbara Auer, que circula em perda até parecer recuperar para se deixar cair.
    Construído sobre a memória e o esquecimento entre personagens mas também entre épocas históricas que acreditamos não se repetem, "Em Trânsito" é um filme muito bom e conseguido sobre o poder de sugestão, que inclui o final em que Georg julga ver quem lhe acaba de ser dito que morreu. O que levanta a questão de quem conta e quem é contado. A remissão para "Casablanca" de Michael Curtiz (1942), evidente, é assim superada.
    Com fotografia de de Hans Fomm, música de  Stefan Will e montagem de Bettina Böhler, este mais um filme notável do cineasta mais importante do novo cinema novo alemão.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Ver e mostrar

   Há escritores que além dos livros por que são mais conhecidos, prosa ou poesia, mantêm uma atenção desperta para a arte, como se trabalhando em dois tempos, vários movimentos. Trazem-me aqui a esse respeito o português João Miguel Fernandes Jorge e o inglês Julian Barnes, figuras destacadas nas literaturas respectivas.
   Começando pelo segundo, que tem uma obra conhecida e distinguida maioritariamente traduzida em português, a partir da sua permanência prolongada em França ele, que já tinha explorado na sua escrita Gustave Flaubert, dedicou um livro à arte deste país a partir do século XIX: "Keeping an Eye Open" (Londres: Jonathan Kape, 2015).
    Trata-se de uma obra inteligente em que, com bom gosto e boa informação, o autor escalpeliza a arte dos séculos XIX e XX hoje patente nos museus franceses e mundiais como tempos de apogeu da pintura na transição do romantismo para o impressionismo e depois deste para o modernismo, num percurso de dois séculos.
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    Mas Julian Barnes não se limita a estudar cada artista obra a obra, pois imagina a situação vivida por aqueles que cada quadro representa ou a vida de cada pintor, para o que usa a sua escrita soberba, elegante e clara, que todos apreciamos, a partir de testemunhos de época, o que acaba por transformar este livro num híbrido de ensaio e ficção.
   Já o português trata em "Longe do Pintor da Linha Rubra" (Patavina, 2017) - que reúne textos seus posteriores a 2008, ano de "Processo em Arte" (Lisboa: Relógio d'Água), a sua anterior recolha de textos -, sobretudo da arte portuguesa antiga e contemporânea mas também da grande arte estrangeira, depois de em "Mirleos" (Lisboa: Relógio d'Água, 2015) em poesia se ter dedicado à arte do passado. 
    E ele tem um saber que lhe permite entrar na arte pictórica, escultórica ou outra em museus e exposições, que o leva muito para além do comum da crítica de arte a explorar espaços museais e o íntimo exterior de cada obra fornecendo-lhe o contexto artístico e histórico. De facto, ele sente e pensa aquilo que escreve de uma maneira pessoal a partir de cada peça, em exegese esclarecida de cada obra ou artista.  
    Na sua apreciação de cada obra estudada, J. M. F. J. continua a encantar-nos com o seu gosto cultivado e bem informado e com a sua escrita densa, uma escrita muito própria que provém da poesia mas se transmuta na prosa, o que faz toda a originalidade e profundidade do autor.  
   Têm em comum o inglês e o português olharem atentamente e cada um deles ver com a sua própria informação e o seu próprio conhecimento da arte que, francesa, portuguesa ou outra continua a ser arte e por esse motivo a merecer a nossa melhor atenção que precisa, porém, de ser esclarecida e iluminada.
                        Longe do Pintor da Linha Rubra           
    Ambos pensam aquilo que escrevem em função do significado objectivo de cada obra mas também a partir de uma subjectividade não inocente mas cultivada, que se rebate sobre a subjectividade de cada artista. Um e o outro pensam a arte que houve e que há com um saber e um brio especiais, que os leva a esclarecer-nos recriando cada obra e a criar aforismos próprios sobre a criação artística..
     Agora o escritor inglês trabalha aqui predominantemente numa área de história da arte enquanto o poeta português se dedica mais à filosofia da arte, aliás com inteira pertinência. Com projectos diferentes, João Miguel vai, contudo, mais longe em pensamento da arte do que Barnes na sua análise atenta sobretudo ao picante histórico da biografia de artistas e da circunstância quadros célebres.
    E noto que enquanto Julian Barnes está atento ao melhor da arte francesa e europeia de Oitocentos e Novecentos, João Miguel Fernandes Jorge volta-se também para alguns dos mais proeminentes artistas portugueses contemporâneos. Claro que o que este escreve "não tem rede" salvo os seus próprios escritos, incluindo poéticos, anteriores, enquanto aquele tem atrás de si um julgamento já formado e estabelecido pela história da arte.
    Vale a pena lê-los a um e ao outro, e o livro de Julian Barnes merecia ser traduzido para português. Quanto à edição do livro português ela é de uma nova editora, a Patavina, que aqui saúdo neste início pela qualidade desta edição e à qual desejo o melhor futuro.