domingo, 14 de abril de 2019

Sonho de amor

   "Greta - Viúva Solitária"/"Greta" do irlandês Neil Jordan (2018) trata de uma estranha mulher, Greta Hideg/Isabelle Huppert, que ataca raparigas a partir de uma mala deixada no Metro, do ponto de vítima das vítimas, não do dela.
    Acompanhamos a tentativa de captura pela sedução de Frances McCullen/Chloé Grace Moretz, que a sua amiga Erica Penn/Maika Monroe tenta ajudar a libertar-se perante a impotência do pai de dela.
    Greta conta que o seu marido, já falecido, tocava na igreja à sexta-feira "Liebestraum" de Franz Liszt, que ela continua a tocar ou ouvir em casa obsessivamente, e este facto não deve ser dissociado da sua patologia.
                      
      Sem ser um grande filme que nem sequer ambiciona ser, é uma obra escorreita e bem feita, que tem cada elemento no seu lugar tanto visual como narrativamente. O destaque vai para as intérpretes, em especial para Isabelle Huppert, inexpressiva mas ameaçadora como Greta, que diz a Frances querer substituir o amor da mãe que ela perdeu. Mas Chloé Grace Moretz está também muito bem.
     O filme tem argumento de Ray Wright e Neil Jordan baseado em história do primeiro, fotografia de Seamus McGarvey com admirável tratamento da luz e da sombra e das cores, música de James Navarrete e montagem de Nick Emerson.
    Neil Jordan, responsável entre outros por "Mona Lisa" (1986), "Jogo de Lágrimas"/"The Crying Game" (1992) e "O Fim da Aventura"/The End of the Love Affair" (1999), depois de uma série sobre os Bórgia, "The Borgias" (2011-2013) e da série "Riviera" (2017), que criou, regressa aqui no seu melhor.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

O poço, seco

        O primeiro depois de "Sono de Inverno"/"Kis Uykusu" (2014) e o oitavo do mais proeminente cineasta turco da actualidade, multipremiado e um dos principais nomes do cinema dos nossos dias, "A Pereira Brava"/"Ahlat Agaci" é o mais recente filme de Nuri Bilger Ceylan (2018) que agora nos chegou.
       Apresenta-se como uma notável sucessão de diálogos de Sinan Karasu/Dogu Demirkel, que terminou um curso superior, quer publicar o seu primeiro livro e ser professor, com diversos interlocutores, entre os quais um presidente de câmara, uma amiga (Hatice/Hazar Ergüçlü), um escritor célebre, o pai (Idris Karasu/Murat Cemeir), a mãe (Asuman Karasu/Bennu Yldirimlar) e o pai em suspeita, um possível patrocinador do seu livro e, depois do serviço militar, os avós, um par de imãs, a mãe e o pai de novo para terminar. Tudo numa terra isolada, distante e perdida na Turquia.
      Mas todo o filme é extremamente bem construído visualmente, com frequente recurso ao grande plano e ao plano geral, com profundidade de campo mas também desfocagens notáveis numa mesma sequência. Ao que acrescem movimentos de câmara amplos e largos, com predomínio do travelling por vezes veloz.
                      Trailer português do filme A Pereira Brava
      A discussão religiosa para que o filme conflui faz lembrar os grandes debates religiosos em Carl Th. Dreyer e Ingmar Bergman sem prejudicar a fluidez da narrativa de um filme muito longo que muito escassa mas simbolicamente a música pontua. 
      Filme sobre a criação e a esterilidade, entre pai e filho persiste a busca de água no fundo do poço depois do sonho do segundo de uma fertilidade onírica. Aliás o filme decide-se entre homens apesar da importância das mulheres, a amiga e a mãe, até a avó do protagonista, e por esse lado a saída é a continuação da tentativa do progenitor.
      As árvores agitadas pelo vento durante a conversa com a amiga Hatice do início repetem-se do mesmo jeito apenas no sonho do final do protagonista. Mas a natureza seca move-se ao lado e por cima das personagens isoladas e solitárias.
      As belas reflexões que preenchem o filme dão-lhe um significado específico sem prejudicarem o desenvolvimento da narrativa, seca e dura, sem remissão mesmo com o apaziguamento subsequente ao conflito.
     Com argumento de Aken Aksu, Ebru Ceylan e Nuri Bilge Ceylan, tem fotografia de Göhkan Tiryaki e montagem do realizador.  Devo, contudo, dizer que à grandiosidade deste filme admirável prefiro o minimalismo de Abbas Kiarostami, embora reconheça que os dois cineastas estão ao nível um do outro.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Entrevista

Carlos Melo Ferreira: Uma vida ao serviço do Cinema






O Cinema Sétima Arte esteve à conversa com o autor e investigador Carlos Melo Ferreira, a propósito do lançamento do seu livro “Pedro Costa”, editado pela Edições Afrontamento, que contou com a colaboração do cineasta. O também professor de cinema tem dedicado a sua vida ao serviço do cinema, através do ensino, da publicação de artigos e livros e da investigação.
Carlos Melo Ferreira é natural de Lisboa, Doutorado em Ciências da Comunicação, especialidade de Cinema, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
É Professor jubilado da Escola Superior Artística do Porto e investigador integrado do Centro de Estudos Arnaldo Araújo (Unidade de I&D da FCT), foi também docente convidado do Mestrado em Comunicação Audiovisual da Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Instituto Politécnico do Porto.
É membro da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento (AIM). Publicou “O cinema de Alfred Hitchcock” (1985), “Truffaut e o cinema” (1991), “As poéticas do cinema” (2004) e “Cinema – Uma arte impura” (2011) nas Edições Afrontamento, mais “Cruzamentos – Estudos de Arte, Cinema e Arquitectura” (2007), “Corte e Abertura” (2015) e “Cinema Clássico Americano: Géneros e Génio em Howard Hawks” (2018) nas Edições 70. Em 2012 criou o blogue Some like it cool, que, em 2017, deu lugar ao seu novo blogue Some like it hot.

Cinema Sétima Arte: Publicou recentemente o livro “Cinema Clássico Americano: Géneros e génio em Howard Hawks”. No caso do cinema clássico português, quem é que seria o Hawks português?
Carlos Melo Ferreira: Jorge Brum do Canto foi Howard Hawks e John Ford no cinema clássico português.
C7A: Tem dedicado e continua a dedicar a sua vida ao ensino e ao cinema. Inspirou muitos que beberam da sua cinefilia. Conte-nos um pouco do que significa para si o ensino e, em particular, o ensino do cinema. 
CMF: Essencialmente trata-se de transmitir informação e conhecimentos sobre o cinema aos meus alunos, incentivando-os a desenvolver o seu gosto pessoal.
C7A: Hoje em dia assistimos à publicação de vários trabalhos de investigação sobre cinema em Portugal. Há quem afirme que os cursos de cinema são irrelevantes e que o cinema nasce e tem mais valor pela experiência do que pela teoria. Como investigador, qual a sua opinião?
CMF: O ensino do cinema deve aliar história, teoria e prática por forma a cumprir a sua função junto dos alunos, embora a experiência fora do ensino possa apresentar valor próprio.
C7A: Fale-nos um pouco da sua relação com Pedro Costa e com o seu cinema.
CMF: Aproximou-nos termos seguido assiduamente os grandes ciclos de cinema da Fundação Gulbenkian, programados por João Bénard da Costa na década de 70, depois entre a Cinemateca e a Gulbenkian. De resto, acompanhei desde o seu início a obra de Pedro Costa como cineasta e também, tanto quanto possível, como artista visual. O que penso a seu respeito consta do livro que agora lhe dediquei.
C7A: Quanto à nova geração de cineastas portugueses, existem já grandes realizadores e realizadoras. No entanto, em Portugal, continuam sem público. Como poderíamos colmatar isto? Como é que a educação e, por exemplo, o plano nacional de cinema poderiam fazer renascer uma cinefilia que tem vindo a desaparecer?
CMF: É importante a informação sobre o que o cinema foi, tal como o conhecimento daquilo que ele é na atualidade. Trata-se do desenvolvimento de um gosto pessoal em cada um e do aperfeiçoamento da relação com a vida, a arte e o próprio cinema. Bem orientado, o plano nacional de cinema pode ser favorável, mal tratado pode ser contraproducente como um “cinema obrigatório”.
C7A: Quanto à nova geração de crítica de cinema, passa essencialmente por blogues do que pelos grandes jornais. Qual o peso dos blogues nesse papel educativo?
CMF: Depende da informação, do conhecimento, da exigência, da dedicação e do gosto dos autores de cada blogue.
C7A: Quanto à sala de cinema e o seu desaparecimento gradual e a proliferação do cinema digital dito doméstico ou privado, como é que isto afeta a perceção do público em relação ao cinema e à sala de cinema?
CMF: Permite o acesso a filmes, mesmo a filmes essenciais da história do cinema, enquanto se dilui a ideia de cinema como espetáculo público, que o tem acompanhado desde a sua origem.
C7A: Em 2011 publicou “Cinema, uma arte impura”. Na capa desse livro usou um frame de “Juventude em Marcha”, de Pedro Costa. Ou seja, o cinema de Costa sempre esteve ligado à sua escrita… Que outros realizadores, para além de Costa, Howard Hawks e os irmãos Coen, mais ficaram consigo?
CMF: Desde antes desse livro que o cinema de Pedro Costa me interessa pois me permite descobrir todas as referências de cada filme e acompanhar o desenvolvimento de uma temática e de uma estética que me interessam. Seria longo e fastidioso fazer uma lista. Permito-me, mesmo assim, responder que me acompanham no cinema mudo David W. Griffith, Charlie Chaplin, Buster Keaton, Erich Von Stroheim e Robert Flaherty, Friedrich W. Murnau e Fritz Lang, Sergei Eisenstein e Alexandr Dovjenko; no cinema clássico Alfred Hitchcock (sobre o qual escrevi um livro) e Fritz Lang, Jean Renoir e Jean Vigo, Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu, Raoul Walsh e King Vidor além dos já mencionados John Ford e Howard Hawks; no cinema moderno Orson Welles, Anthony Mann e Nicholas Ray, Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, Robert Bresson e Manoel de Oliveira, François Truffaut (sobre o qual também escrevi um livro), Alain Resnais, Jean-Luc Godard, Jacques Demy e Jean Marie Straub/Danièle Huillet, John Cassavetes, Frederick Wiseman e Abbas Kiarostami, Edward Yang e Hou Hsiao-hsien; no cinema contemporâneo, sobretudo os asiáticos Jia Zhang-ke e Wang Bing, Hong Sang-soo, Tsai Ming-Liang e Apichatpong Weeresathakul, mas também Béla Tarr, David Cronenberg e James Gray, para além dos mencionados na pergunta. Mas tenho uma estima especial pelos realizadores que melhor trabalharam na Série B, como Edgar J. Ulmer e Jacques Tourneur, Joseph H. Lewis, Sam Fuller, Donald Siegel e Budd Boetticher, mais recentemente John Carpenter.
C7A: Por último, de que forma é que podemos unir o cinema dito popular ao cinema de autor de uma forma saudável na programação dos nossos cineclubes? Isto porque encontramos muito de um lado e pouco do outro. Como é que se pode atingir um equilíbrio?
CMF: Seria preciso mostrar o melhor de cada um, sem minimizar o cinema comercial nem sobrevalorizar o cinema de autor. Sem desprezo pelo primeiro nem receio do segundo, mas tendo em atenção que o cinema de autor é menos conhecido porque menos divulgado.

(Cinema 7º Arte)

domingo, 31 de março de 2019

Cinema: A Arte de Amar - Divulgação

Na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

CINEMA: A ARTE DE AMAR
Horário: 4 sessões (8 Horas) |  de 02 a 23 de maio (quinta-feira) | Pós-laboral (18h00 – 20h00)

LIVRE (SEM CRÉDITOS)

Formador: Carlos Melo Ferreira
Supervisão Científica: Professor Doutor Vítor Almeida
Professor Doutor Carlos Miguel de Sá e Melo Ferreira, professor jubilado na Escola Superior Artística do Porto, tem uma longa carreira e experiência como pedagogo, investigador e especialista na área do Cinema. Regeu os workshops  “A cor no cinema”, “Os géneros no cinema”, “A palavra no cinema”, “A figura humana – os actores”, “A figura humana – os não-actores”, “Cinema, imagem e a realidade” e “Nouvelle vague”. Deu a masterclass “O cinema e a arte – Pedro Costa”. Participou em conferências e colóquios internacionais de cinema, nomeadamente nos encontros anuais da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento, entre outros, com realce para “Corte e Abertura”, do CEAA/ESAP, de que foi co-organizador. Tem artigos publicados em revistas internacionais com double peer review e em livros, e é revisor científico de publicações internacionais sobre cinema  e sobre arte. A seu cargo teve orientações de teses de mestrado e de três teses de doutoramento em universidades portuguesas  e espanholas. Participou em júris de mestrado como orientador e presidente na ESAP , júris de mestrado como arguente e de doutoramento como arguente e orientador em diversas universidades. Da sua vasta experiência pedagógica destaca-se o exercício de funções como Professor Auxiliar na ESAP, regendo cadeiras de História do Cinema, Análise de Filmes, Teorias do Cinema, Filmologia, Documentário Cinematográfico, Estruturas Narrativas na Licenciatura em Cinema e Audiovisual; leccionou também Antropologia Visual e Semiologia e Semiótica na Licenciatura em Design e Comunicação Multimédia; História e Teoria do Cinema e da Televisão e Métodos e Práticas do Argumento no Mestrado em Realização – Cinema e Televisão; Direito da Cultura na Licenciatura em Animação e Produção Cultural. Foi Diretor do Departamento de Teatro e Cinema da ESAP num mandato de dois anos e docente convidado do Mestrado em Comunicação Audiovisual da Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo do Instituto Politécnico do Porto durante dois anos. Tem vários títulos publicados, sendo os mais recentes “Cinema Clássico Americano. Géneros e Génio em Howard Hawks”, Lisboa, Edições 70, (2018) e “Pedro Costa”, Porto: Afrontamento, (2018) .
blog:
https://carlosmsmeloferreira.blogspot.com/
Destinatários:
Todos os interessados pelo Cinema: estudantes do Ensino Superior; estudantes do Ensino Secundário da área das Artes Visuais; público em geral com capacidade para a frequência do ensino superior.
Propinas (VER CONDIÇÕES DE PAGAMENTO):
UP/FBAUP – Estudantes , Docentes e Funcionários:
  65,00 Euros |
Público em Geral:  75,00 Euros |
Seguro escolar: 2,00 Euros |
INSCRIÇÕES ATÉ 25 DE ABRIL DE 2019
DOCUMENTOS NECESSÁRIOS PARA EFETUAR CANDIDATURA: CERTIFICADO DE HABILITAÇÕES LITERÁRIAS
Para candidatar-se, selecione a opção INSCRIÇÕES ONLINE
DESCRIÇÃO:
Em que baseia cada um de nós a sua cinefilia? Por que gostamos daquilo de que gostamos no cinema? E também se isso de que gostamos vale verdadeiramente a pena? Temos, é certo, a ajuda da crítica de cinema, mas não estaremos a menosprezar o melhor enquanto valorizamos produtos da moda sem outro interesse que não esse? E como deve ser a forma avaliada no cinema? E como devemos entender os géneros cinematográficos?
Desenhar-se-ão critérios baseados em exemplos tirados de todas as épocas e correntes da história do cinema, por forma que permita desenhar nesta um mapa do melhor cinema e dos melhores cineastas, de Charlie Chaplin a Dziga Vertov, de Fritz Lang e Friedrich. W. Murnau a Jean Renoir, de Jean-Luc Godard e Jean Rouch a Jean-Marie Straub/Danièle Huillet e Peter Greenaway até uma actualidade em que se destacam Apichatpong Weerasethakul e Hong Sang-soo, Jia Zhang-ke e Wang Bing, Béla Tarr e Pedro Costa.
E também se questionará porque escrevemos sobre cinema, porque estudamos cinema e porque ensinamos cinema.
IMAGEM: (C) VÍTOR ALMEIDA

Informações
Condições de pagamento:
50% do valor total da propina e seguro escolar: pago no ato da inscrição. SEM ESTE PAGAMENTO A INSCRIÇÃO NÃO É CONSIDERADA.
Valor remanescente da propina: pago até data anterior ao início da unidade de formação
Número mínimo de participantes: 10 (DEZ)
Número máximo de participantes: 25 (VINTE E CINCO)

A SERIAÇÃO DOS CANDIDATOS É FEITA PELA ORDEM DE PAGAMENTO DAS INSCRIÇÕES.
Certificação:
Aos  participantes será emitido:
– um certificado de frequência.
A não aprovação dos formandos pode resultar de:
  1. Assiduidade inferior a 75% do número de horas presenciais;
  2. A não apresentação do trabalho individual/ portefólio;
  3. Um valor médio de desempenho inferior a 50%.
Para efeito de confirmação de falta será considerada uma tolerância de 15 minutos.
Os formandos que reprovarem por falta de assiduidade só serão considerados para unidades de formação futuras caso haja vagas sobrantes.
O pedido de emissão de certificado é feito por escrito para formcontinua@fba.up.pt no final da unidade de formação, e a emissão está sujeita a pagamento de emolumentos no valor representado na tabela em vigor.
BIBLIOGRAFIA/ DOCUMENTAÇÃO DE APOIO:

Aumont, Jacques: “A Imagem. Olhar-Matéria-Presença” (Lisboa:Texto & Grafia, 2014).
Bazin, André: “O que é o Cinema” (Lisboa: Livros Horizonte, 1992).
Chion, Michel: “Un art sonore, le cinema – histoire, esthétique, poétique” (Paris; Cahiers du Cinema, 2001).
Cousins, Mark: “Biografia do Filme” (Lisboa: Plátano, 2005).
Deleuze, Gilles: “A Imagem-Movimento” (Lisboa: Documenta, 2016).
Deleuze, Gilles: “A Imagem-Tempo” (Lisboa: Documenta, 2015).
Douchet, Jean: “L’art d’aimer” (Paris: Éditions de l’Étoile, 1987).
Ellis, Jack C. e McLane, Betsy A.: “A New History of Documentary Film” (New York-London: Continuum, 2006).
Elsaesser, Thomas e Hagener, Malte: “Film Theory – An Introduction Throug the Senses” (New York-London: Routledge, 2010).
Ferreira, Carlos Melo: “Cinema. Uma Arte Impura” (Porto: Afrontamento, 2011).
Ferreira, Carlos Melo: “Pedro Costa” (Porto: Afrontamento, 2018).
Godard, Jean-Luc: “Introduction à uma véritable histoire du cinéma” (Paris: Éditions Alabatros, 1980).
Kovács, András Bálint: “Screening Modernism: European Art Cinema 1950-1980” (The University of Chicago Press, 2007).
Rancière, Jacques: “Les temps modernes – Art, temps, politique” (Paris: La fabrique éditions, 2018)

https://fbaupformacaocontinua.wordpress.com/2019/03/27/cinema-a-arte-de-amar/

sexta-feira, 29 de março de 2019

Da vida para a morte

    Nascida na Bélgica, Agnès Varda (1928-2019) foi um dos cineastas fundamentais e fundadores da nouvelle vague francesa.
    Primeiro na curta-metragem (1), a partir de "Duas Horas na Vida de Uma Mulher"/"Cléo de 5 à 7" (1962) na longa, veio a desdobrar-se entre a ficção e o documentario com a maior distinção. Sempre mostrou um pendor documental mesmo nas suas ficções, mas também se destacou na fotografia e na sua articulação com o cinema, no qual se revelou notável colorista.
   Numa obra longa e extensa destaco "A Felicidade"/"Le bonheur" (1965), "L'une chante l'autre pas" (1977), "Sem Eira Nem Beira"/"Sans toit ni loi" (1985) e os documentários "Daguerréotypes" (1976), "Mur murs" e "Documenteur" (1981), "Os Respigadores e a Respigadora"/"Les glaneurs et la glaneuse" (2000) e "As Praias de Agnès"/"Les plages d'Agnès" (2008).
                          The Gleaners and I
   Feminista declarada, acompanhou o marido, Jacques Demy (1931-1990), também cineasta, até ao fim, e dedicou-lhe mesmo um filme de longa-metragem, "Jacquot de Nantes" (1991). 
   A sua partida significa uma imensa perda para o cinema francês e o cinema mundial. Os meus sentimentos aos seus filhos Rosalie e Mathieu e a todo o cinema francês.
   Sobre Agnès Varda ver "É melhor a dois", de 18 de Fevereiro de 2018, e "Contado por ela", de 21 de Março de 2019.

   Nota
   (1) Recordo o dia em que, 1963 ou 64, João Bénard da Costa mostrou aos seus alunos do Liceu Camões, em Lisboa, a curta-metragem "O saisons, ô chateau" (1958), do que por desconhecimento necrológico haverá ainda testemunhas vivas.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Contado por eles

   "Espaço para Sonhar" (Lisboa: Elsinore, 2018) são memórias e autobiografia de David Lynch com autoria dele e Kristine McKenna. Adaptando o modelo do Hitchcock-Truffaut, cada capítulo é dividido em duas partes, a primeira de depoimentos daqueles que com ele conviveram e trabalharam, a segunda escrita por ele.
   Artista de corpo inteiro, ficamos a conhecer de Lynch as suas aptidões manuais e artísticas e a génese e desenvolvimentos dos seus trabalhos para cinema e televisão mas também em pintura, fotografia e vídeo, o que torna este livro um panorama muito completo a seu respeito.
   Desde antes de "Eraserhead" (1977) até à actualidade, a vida do cineasta é uma vida de artista, dissociada das exigências da indústria do cinema e em conflito com elas. Todos os que foram ouvidos concordam em que é uma excelente pessoa, de quem os actores gostam e que gosta dos actores, criando a qualquer pretexto a partir de qualquer motivo, humano, natural, objectal.
    A sua obsessão do detalhe e da precisão leva a que tudo em cada filme ou série televisiva seus seja rigorosamente preparado e levado à perfeição na concretização de tudo o que idealizou, embora ele permaneça aberto ao  imprevisto e à inspiração do momento nas filmagens. E na idealização prévia ele vai trabalhando quase inconscientemente, fixando tudo e todos que lhe despertam a atenção e o interesse.
   Curiosamente, as memórias dele não são sempre coincidentes com as de outros, o que se compreende. E claro que a Meditação Transcendental, que deu origem ao seu livro "Catching the big fish; meditation, consciousness, and creativity" (New York: Jeremy P. Tarcher/Penguin, 2006), que tem edição portuguesa, não é esquecida como parte central da vida dele. O mesmo sucedendo com a David Lynch Foundation - https://www.davidlynchfoundation.org/.
                      Official Twin Peaks VR (Virtual Reality) Red Room
   O que o cinema foi e aquilo em que ele e a televisão se tornaram nos últimos 50 anos é passado atentamente em revista a propósito de cada um dos filmes, séries, exposições, vídeos e do site dele, com esclarecimentos sobre contactos quase sempre difíceis. Mas ressalvo de novo o que ele diz dos seus actores, levados aos seus limites expressivos e emocionais, sempre considerados excelentes, e o que dele eles dizem - mas também técnicos e outros colaboradores.
  De igual modo a vida pessoal e familiar dele e o contacto com os seus amigos são passados em revista desde a infância. Contudo, a génese e desenvolvimento de cada trabalho é aqui essencial a par do retrato do homem indissociável do artista, dos seus sentimentos e emoções na base de uma forte pulsão criativa.
   Lynch é um puro artista em tudo o que toca, diz e faz, um dos principais cineastas e artistas contemporâneos e um dos melhores do século XXI - "Mulholland Drive" (2001) foi considerado em 2016 pela BBC Culture o melhor filme deste século. Conheceu êxitos e fracassos e de tudo isso fala este livro em pormenor.
   Embora seja uma pequena parte da sua história, como ele confidencia no final, este é assim um livro fundamental que aqui vivamente recomendo sobre um homem bom e genial. Depois de o lerem revejam filmes, séries e clips para poderem entender o que não viram da primeira vez - a história das "camadas" é só conversa fiada de velhinhas.
   Sobre David Lynch ver "Amar e sofrer", de 27 de Maio de 2017, "Amar e sofrer +", de 7 de Junho de 2017, e "Um com o outro", de 29 de Junho de 2017.

terça-feira, 26 de março de 2019

Pensar tudo e todos

    A propósito da filosofia alemã, de que o principal nome actual é Peter Sloterdijk, quero aqui chamar a atenção para uma ou duas coisas a partir da obra dele.
     Em 1999 ele publicou "Regras Para o Parque Humano: Resposta à Carta sobre o Humanismo" (Angelus Novus, 2008), em que fez um seleccionado levantamento de questões de Heidegger a que respondeu, concluindo pela substituição do humanismo do século XX pelo arquivo. De passagem aí fez a crítica da violência irracional dos media, sem adivinhar o 11 de Setembro de 2001 e o que se lhe seguiu, imprevisível.
     Em livros posteriores retomou algumas destas questões, nomeadamente no seu mais recente livro editado em português, "Tens de Mudar de Vida" (Lisboa: Relógio D'Água, 2018, original 2009), um livro nietzschiano na perspectiva da vertical mas também na crítica a Heidegger. O que é muito curioso porque lhe permite não sair da filosofia alemã e separar filósofos à primeira vista ligados.
     Outra das questões tratadas originalmente neste livro é o "espírito de recessão" base de uma "subjectividade da margem" (pág. 283), que por sua vez pode originar a ideia do "ser para a perfeição" (Capítulo 7. Perfeitos e Imperfeitos, pág. 303), o que é muito bem explorado.
                       Peter Sloterdijk (Foto: Flickr/Fronteiras do Pensamento)
    Nesse livro ele prevê a ascensão da ecologia na política, o que não levantava dificuldades já em 2009, mas não prevê a subida da extrema-direita nem dos neo-nazis, provavelmente ela também imprevisível. Mas muito bem chama a atenção para a superioridade da filosofia  continental contemporânea em relação à filosofia americana. 
    Uma das qualidades maiores deste filósofo é a clareza da sua crítica do comunismo no sécculo XX, incomum, rara e muito mais directa e acutilante do que a praticada por outros filósofos que com ele estiveram comprometidos e o procuram desculpar. Não há como pôr em causa mesmo o não evidente.
    Mas Peter Sloterdijk não foi indiferente à reemergência do fenómeno religioso, em "A Loucura de Deus: Do Combate dos três monoteísmos" (Lisboa: Relógio d'Água, 2009, original 2007) nem à crítica do capitalismo e de um mundo bipolar em "Crítica da Razão Cínica" (Lisboa: Relógio D'Água, 2011, original 1983, portanto ainda anterior à queda do Muro de Berlim), um livro de inspiração kantiana entre cinismo e kinismo.
   Em "O Estranhamento do Mundo" (Lisboa, Relógio d'Água, 2008, original 1993) destaco a reflexão sobre Críton na morte de Sócrates (pág. 121), de facto notável num livro moderno e muito bom que se alarga sobre a música (Capítulo VII. Onde estamos quando ouvimos música?, pág. 172)..
   Contudo, o conteúdo original de "Regras para o Parque Humano" veio a ser desenvolvido nomeadamente em "Palácio de Cristal - Para Uma Teoria Filosófica da Globalização" (Lisboa: Relógio d'Água, 2008, original 2005) que talvez seja, com "Cólera e Tempo - Ensaio Político-Psicológico" (Lisboa: Relógio d'Água, 2010, original 2006), de inspiração heideggeriana, e "Tens de Mudar de Vida" a sua obra que prefiro..
                                         
    Mas, embora falte a edição portuguesa de muita coisa, a sua filosofia é muito centrada na antropotécnica e na teoria da cultura, áreas em que o seu pensamento, globalização incluída, é de conhecimento muito proveitoso - em Portugal José A. Bragança de Miranda. 
     Não importam grandemente as minhas avaliações subjectivas, o que importa é a necessidade de pensar tudo e todos de todos os pontos de vista, e essa é uma função que a filosofia contemporânea mesmo se com atraso em relação a alguns novos factos tem preenchido. Como introdução está publicado em português "O Sol e a Morte - Diálogos com Hans-Jürgen Heinrichs" (Lisboa, Relógio d'Água, 2007, original 2006).
    Agora é imperioso que sobre ela e a partir dela cada um vá elaborando o seu próprio pensamento, com recusa do inaceitável na extrema-direita, do neo-nazismo, do racismo, contra o terrorismo e as ditaduras, com ideias partilháveis sobre a construção do futuro, no que Peter Sloterdijk tem sido muito útil. Veja-se nomeadamente "Se a Europa  Acordar: Reflexões sobre o Programa duma Potência Mundial no Termo da sua Ausência Política" (Lisboa: Relógio D'Água, 2008, original de 2002)
    "Morte Aparente do Pensamento - Da filosofia e da ciência como prática" (Lisboa: Relógio D'Água, 2014, original 2010) é um dos seus mais recentes livros publicados em português. Ao longo da sua obra ele tem lidado com toda a história da filosofia, com natural destaque para a filosofia alemã, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Heidegger, Benjamin mas indo até à filosofia antiga greco-romana, medieval e moderna sempre em diálogo crítico muito produtivo na construção do seu discurso pessoal próprio. 
     Este um pensamento rigoroso, profundo e muito bem sustentado nos riscos que corre em território desconhecido. Seria muito útil a tradução portuguesa da trilogia "Esferas", bem como de "O Imperativo Estético" (Verlag Suhrkamp, 2007) que ocupam uma posição central na obra de Sloterdijk. Normalmente identificado por "A Mobilização Infinita - Para uma crítica da cinética política" (Lisboa: Relógio D'Água, 2002, original 1989), ele é a meu ver o mais importante filósofo vivo.
    Trata-se, com efeito, de um pensamento inquieto que nos desperta e fornece linhas de continuidade, de evolução e de ruptura que nos ajudam a pensar o ainda não pensado, a pensar de novo o mal pensado e arriscarmos pensar por nossa conta no inquietante mundo actual.
    
     Comentário:

"(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)"

Álvaro de Campos, "Tabacaria".