Depois de “Ex-Libris: The New York Public Library” (2017), Frederick Wiseman
continua a encadear obras-primas uma a seguir a outra com este "Monrovia, Indiana" (2018) sobre uma
pequena cidade do interior, um filme com múltiplos motivos de interesse.
O
dispositivo agora é o do exterior, largamente tratado sobretudo na sua parte
rural com que se inicia: os porcos, cujo destino não é preciso explicar ou
mostrar. Mas o filme acompanha também extensivamente situações e diálogos de interior,
no barbeiro, na loja maçónica (o que é uma raridade), na comissão de
planeamento, nas conversas de amigos que notam as doenças primeiro, as mortes
depois, no cabeleireiro, na loja de armas que são um problema num estado com alta taxa de
criminalidade violenta, nas igrejas cristãs - um casamento e um funeral.
Pela
primeira vez de uma forma tão próxima e detalhada na obra do cineasta, temos acesso ao american way of life tal como ele existe
e é vivido por uma comunidade pequena e rural. Quando fazem compras aqueles americanos estão a viver o american way of life, tal como estão a dar a parte que lhes cabe quando discutem uma entrada ou um banco, com conhecimento de
causa.
Os
planos são em geral curtos excepto quando alguém fala. Aquela terra é mesmo
assim, aquela gente vive mesmo assim, todos se conhecem uns aos outros e se
estimam há muito.
Este
tipo de convívio é diferente do da grande metrópole, em “In Jackson Hights” (2015), e
aquilo que parece interessar o cineasta é o que aproxima as pessoas e como elas
se relacionam em torno de que questões.
Chamadas
de atenção para a loja de venda de armas, que sem o dizer a não ser por escrito
vai surpreender um problema grave naquela comunidade, e para o discurso final
do sacerdote no funeral, dado num só plano longo apenas com contracampo no fim.
Segue-se o enterro propriamente dito, numa segunda ida ao cemitério, com as
pazadas de terra a serem retiradas do solo para cobrirem o caixão. Tudo muito material no fecho do
filme.
A
montagem é rápida, os planos curtos mas com a duração suficiente para a
construção de um discurso fílmico fluido, em que tudo é perceptível embora nada
dure mais do que o estritamente necessário.
De "Monrovia, Indiana" desprende-se um sentimento de angústia decorrente de daquela comunidade serem mostradas mais mortes do que nascimentos, o que significa a tendência para o envelhecimento da população, embora as perspectivas de futuro sejam também discutidas.
Frederick Wiseman está aqui no pleno uso das suas capacidades criativas, excedendo-se em precisão e rigor num filme que nem sequer atinge duas horas e meia de duração. Depois de grandes filmes analíticos a síntese possível dada a dimensão do meio. Comovente e esclarecedor.
Frederick Wiseman está aqui no pleno uso das suas capacidades criativas, excedendo-se em precisão e rigor num filme que nem sequer atinge duas horas e meia de duração. Depois de grandes filmes analíticos a síntese possível dada a dimensão do meio. Comovente e esclarecedor.
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