segunda-feira, 19 de novembro de 2018

As cobaias

    O mais recente filme da francesa Claire Denis, "High Life" (2018), rima na obra dela com "Beau travail" (1999), baseado em "Billy Budd, Sailor", de Herman Melville, passado num navio, enquanto este se passa numa nave espacial: em qualquer dos casos estão em causa as tripulações.
    A bordo de uma nave que já saiu do sistema solar rumo ao pequeno buraco negro mais próximo da galáxia, um pai, Monte/Robert Pattinson, acompanhado pela sua filha bebé, Willow/Scarlett Lindsey, uma vez desocupada a nave dos tripulantes creoginizados recorda os tempos anteriores dele na Terra, do nascimento dela e deles juntos, com a procriadora Dr.ª Dibs/Juliette Binoche.   
                       High Life Trailer
    O que no filme anterior se passava entre homens passa-se aqui entre homens e mulheres, com estas a dominarem no seu papel sexual e procriador. Com a particularidade de todos os tripulantes terem sido condenados a prisão perpétua ou à morte na Terra e serem usados naquela missão como cobaias.
    Num final muito bom, pai e filha já adolescente/Jessie Ross, enfrentam, ao aproximarem-se do seu objectivo final, uma nave gémea que vem ao encontro deles. E o filme fica-se por aqui, pela sugestão. De acordo com o estilo da cineasta, "High Life", à semelhança de "Beau travail" faz largo uso de planos aproximados, grandes-planos e planos de pormenor. E a sua construção temporal enrolada é muito curiosa.
   Com argumento da realizadora, Jean-Pol Fargeau (que estivera no "Melville film") e Geoff Cox, tem fotografia de Yorick Le Saux e Tomasz Naumiuk, música de Stuart Staples e dos Tindersticks e montagem de Guy Lecome. 
   O filme passou no domingo no Lisbon & Sintra Film Festival, em que aconselho Lav Diaz na quinta-feira, 22 de Novembro, ás 19H 00M na Sala 2 do Monumental. Sobre Claire Denis  ver "Uma brincadeira", de 26 de Dezembro de 2017.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Esticar a corda

   Depois de "Nasceu uma Estrela"/"A Star Is Borne", de William A. Wellman com Janet Gaynor (1937), de "Assim Nasce uma Estrela"/"A Star Is Borne", de George Cukor com Judy Garland (1954), e de "Nasce uma Estrela"/"A Star Is Borne", de Frank Pierce com Barbra Streisand (1976), surge agora "Assim Nasce uma Estrela"/"A Star Is Borne" de Bradley Cooper com Lady Gaga (2018), um filme que tem dado que falar e com boa recepção crítica.
   Com argumento de Eric Roth, Bradley Cooper e Will Fetters baseado nos anteriores, o filme recupera a narrativa já conhecida, que actualiza para os nossos dias. Por aí nada de especialmente novo a não ser o melodrama, a realização que se ocupa mais dos actores que do espaço e o final que justifica a longa duração.
                      
        Não há outra justificação para repetir um sucesso no cinema que não seja a sua popularidade, e atrás dela o realizador, produtor e actor corre, tentando fazer obra nova e pessoal. O que consegue de modo a espantar e comover os espectadores de cinema actuais com um misto de musical cantado e de melodrama.
        Lady Gaga como Ally não decepciona os seus fãs e é a singing star da actualidade como as duas anteriores eram no tempo delas, enquanto Bradley Cooper como Jack explora bem os silêncios de uma personagem difícil num bom elenco em que se destaca também Sam Elliott como Bobby, o irmão dele. Talvez que o excesso de focalização do realizador em si própriio prejudique este filme, o que no entanto se justifica com o facto de ele se "ausentar" no final, típico melodrama.
        Ao explorar o melhor do musical e do melodrama no cinema americano, este "Assim Nasce uma Estrela" segue as pisadas de Robert Redford no segundo género para se afirmar na sua longa duração, por vezes fastidiosa e por isso excessiva, e alcança um bom nível que, com aspectos discutíveis como tornar-se uma colagem de momentos consecutivos, o torna apreciável. E o final está bem resolvido neste novo filme de repertório americano.
      Tem fotografia de Matthew Libatique, músicas e canções variadas  e montagem de Jay Cassidy. Talvez que uma marca importante do cinema americano contemporâneo, que não vive grandes tempos, seja justamente a tendência para a repetição. Pela sua duração em perda se compreende este remake de remakes feito por um actor/realizador de quem se anuncia agora "Bernstein".

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Vindos do mar

    "A Tartaruga Vermelha"/"La tortue rouge", do holandês Michael Dudok de Wit (2016) é um belo desenho animado com um número reduzido de personagens, um homem/Mickaël Dumoussaud, uma tartaruga-mulher/Maud Brethenoux e o filho deles/Elie Tortoix, numa ilha deserta.
    Ele ali foi parar devido ao acaso dos sucessivos naufrágios das jangadas por si construídas e ali encontrou a tartaruga vermelha que se metemorfoseou em mulher que, depois de lhe dar um filho e o ver crescer, de novo como tartaruga, com vida muito mais longa que a dele lhe sobrviverá.
                      Un film réalisé par le Néerlandais Michaël Dudok De Wit.
   Funcionando como parábola poderosa e expressiva sobre a vida, o amor e a morte num meio edénico, este filme poético e humanista tem uma animação perfeita e deixa margem para a imaginação do espectador o preencher nas suas elipses e omissões. Tem também cores soberbas e desenhos de uma grande qualidade e vivacidade, com realce para as cenas subaquáticas.
   O argumento é do realizador e Pascale Ferran a partir de história dele. Além disso, o filme adopta uma variada gama de planos sempre com grande a-propósito, tem uma música excelente de Lauren Perez Del Mar e montagem justa de Céline Kélépikis.
   Co-produção franco-belga-japonesa (Estúdio Ghibli) premiada em Cannes, "A Tartaruga Vermelha" passou ontem à noite no âmbito do Arte fait son cinéma.

domingo, 11 de novembro de 2018

Cinema no Arte

        Entre 12 e 26 de Novembro, Arte fait son cinéma regressa na sua quinta edição como grande mostra de algum do melhor cinema, uma iniciativa que aqui saúdo e aconselho.
        Muito estimado por este canal cultural franco-alemão, o melhor do cinema nem sempre tem a divulgação que merece e nem sempre é apresentado da melhor maneira. Aqui são mostradas produções recentes deste mesmo canal televisivo, algumas delas inéditas comercialmente entre nós.
                      Nanni Moretti et Margherita Buy dans Mia Madre de Nanni Moretti
     Neste festival bienal são programados agora por Olivier Père, entre outros, filmes da alemã Maren Ade, do iraniano Rafi Pitts, do finlandês Juho Kuosmanen, do italiano Nanni Moretti, dos franceses Mia Hansen-Love, Bruno Dumont e Sacha Wolff, numa programação que encontram completa aqui
https://www.arte.tv/fr/articles/arte-fait-son-cinema 
com entrevista aqui
http://cinema.arte.tv/fr/article/arte-fait-son-cinema

sábado, 10 de novembro de 2018

Sem ilusões

   "Fahrenheit "11/9" é o mais recente filme do documentarista americano Michael Moore (2018), em réplica ao seu anterior "Fahrenheit 9/11" (2004), indispensável para compreender a América actual sob a presidência de Donald Trump, eleito devido a circunstâncias infelizes do sistema político do país.
   O seu mérito maior reside em não se circunscrever à eleição e à presidência de Trump mas dar-lhe o contexto americano em tons crus e realistas, nomeadamente com o recurso à situação anterior da terra natal do realizador, também argumentista e produtor, Flint, Michigan, caso escandaloso de governo por um outro milionário. Nesse e noutros casos percebe-se bem a aberração de um sistema que permite e até favorece a escolha eleitoral não dos melhores mas dos mais ricos, dispostos a tudo para exercer o poder em benefício próprio e dos seus iguais.
  Mas com cumplicidades e repercussões internacionais, o caso Trump está muito bem apresentado como o de uma presidência disruptora tanto interna como internacionalmente, com ameaça para toda a humanidade em alguns casos enquanto põe em causa o respeito por elementares direitos humanos internamente.
                      UNITED STRAITS From sea to shining sea, Moore checks in with ordinary Americans who report feeling hosed like never before.
    Além disso este filme mostra como o actual partido democrata mereceu perder as últimas presidenciais e continua sem alternativas válidas para oferecer, enquanto na juventude parece residir o inconformismo propício a uma mudança.
    A parte final do filme sobrepõe a actualidade americana à ascenção do nazismo, nos anos 30 do século XX, no que faz muito bem ao carregar os traços daquilo que a alguns pode parecer inofensivo mas não é, contrariamente ao diagnóstico de pós-fascismo dos filósofos italianos que António Guerreiro citou no Ipsílon da semana passada.
    Essencial para os próprios americanos que julgam que o seu país se resume a um reality show, "Fahrenheit 11/9" de Michael Moore ajuda-nos a todos a compreender a actualidade, sem falsas esperanças nem ilusões, indo assim ao encontro das previsões que vêm sendo feitas por Slavoj Zizek entre outros. Tudo muito claro e bem documentado, orientado pelo comentário do cineasta sem preocupação de ser "artístico".
  Perante indiferença generalizada, prolonga-se uma situação inaceitável que as eleições intercalares desta semana vieram consolidar. E o inaceitável alastra a outros pontos do globo sem que se veja disposição para o contrariar e afastar os seus fautores, como numa espiral de ameaça provocadora e muito perigosa que urge combater e afastar.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Na nova ordem

    "Le disciple"/"The Student"/"(M)uchenik" é o penúltimo filme do russo Kirill Serebrennikov (2016), um cineasta desconhecido em Portugal e perseguido pelas autoridades actuais do seu país. Trata do reaparecimento disfuncional da religião na Rússia pós-comunista sem contemplações nem falsas esperanças.
    Veniamin Yuzhin/Pyotr Skvortsov é aluno de uma escola secundária em que se destaca pela sua obsessão bíblica, que cita a torto e a direito contra tudo e contra todos. A insatisfação que assim demonstra é um ponto a notar a seu favor enquanto o fanatismo para que descamba, com conflito com a autoridade religiosa e a colocação de uma cruz com crucificado na sala de aulas, diz tudo sobre a impotência do sistema, em que apenas uma professora, Elena Krasnova/Viktoriya Isakova, tenta perceber o seu caso e acaba resistindo ao despedimento que a atinge depois de Veniamin ter assassinado o seu discípulo coxo, crédulo e amantíssimo, Grigory Zaytsev/Alexandr Gorchilin, em segredo.
                        The Student Cannes Film Festival
     Longe de ser beatamente religioso, o filme, com argumento do realizador e Marius von Mayenburg baseado numa peça deste e que abre com um longo plano-sequência de mãe e filho em casa, põe o dedo numa ferida aberta, a de uma sociedade sem referências cívicas ou morais que a si própria se devora como uma serpente abocanhando a própria cauda.
    Não me interessam sobremaneira os diagnósticos de falência de um regime pseudo-democrático, de facto autoritário, nem de regresso da religião para preencher um vazio existencial, embora eles sejam relevantes. O que me impressiona neste filme é que todos querem ser iguais por uma bitola comum e rasteira, bem comportada, que o protagonista mesmo com os seus excessos, que incluem falsas acusações anti-semitas, leia-se fascistas, a par de catadupas de citações bíblicas, procura contrariar.
      Vítima do sistema pós-comunista, Kirill Serebrennikov é ameaçado e perseguido pelo regime por pôr em causa as relações dele com a Igreja Ortodoxa Russa, faz-me recordar outros cineastas como ele perseguidos pelo senhor Putin e leva-me a evocar Kira Muratova (1934-2018), recentemente falecida, que, vítima da censura comunista, apesar da qualidade dos seus filmes foi completamente ignorada nos 12 filmes realizados depois da queda do regime soviético. 
      Isto é tudo muito mais complicado do que vocês pensam. Este filme terrível e muito bom, com ressonâncias dostoievskianas, passou esta semana no Arte. Sobre o actual cinema russo ver "Vida sem amor", de 11 de Fevereiro de 2018.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sala de oficiais

   No centenário do final da I Guerra Mundial, o Arte mostrou "La chambre des officiers", de Raymond Dupeyron (2001), um belo filme, inteligente e comovente que não conhecia, com argumento do cineasta a partir de romance de Marc Dugain.
    Decorre na sua maior parte numa enfermaria de campanha, a "sala de oficiais " do título, onde se aglomeram oficiais franceses feridos na cara, o mais visível da nossa identidade. Surpreendentemente, numa primeira parte os feridos, deitados, são olhados de cima por médicos e enfermeiras sem que eles próprio sejam mostrados, para depois ser dado o  contracampo sobre eles, em seguida surgirem já de pé e como iguais e no final em contra-plongé, que os segue predominantemente mesmo depois do fim da guerra e da saída do hospital daqueles que sobreviveram.
                                   La Chambre des Officiers
    Construído de forma simples mas convincente, "La chambre des officiers" é um filme dramático que conta com grandes actores, muitos deles representando com a cara tapada por causa dos ferimentos na cara - e colocar no mesmo plano Sabine Azéma e André Dussollier, como Raymond Dupeyron faz repetidamente, cita Alain Resnais com quem trabalharam juntos em diversos filmes.
    Simétrico, o filme começa com o embarque falhado de um oficial que se encontra com a mulher de outro que embarcou e termina com o regresso dos feridos sobreviventes a casa, onde os aguardam recepções diferentes no final de um percurso que a morte atravessa. Curiosamente, antes disso, quando todas as personagens e todos os olhares passam a equivaler-se surge também uma mulher ferida na cara. 
    A excelente fotografia, que trabalha cuidadosa e artisticamente o espaço. é de Tetsuo Nagata, a música discreta de Jean-Mochel Bernard e a montagem de Dominique Faysse num filme muito bom que não estreou comercialmente em Portugal.