Baseado no seu próprio livro "L'amour éperdu", "Clémence et Ferdinand" é um belo filme de Florence Mauro (2016), uma escritora e realizadora que já tinha dedicado filmes a Ingrid Bergman e Rossellini, "Rossellini - Bergman, l'amour du cinéma" (2007), e a Simone Weil, "Simone Weil, L'irregulière" (2009).
Dedicado aos avós dela, que surgem primeiro em fotografias a preto e branco de há 100 anos, quando se conheceram corria a I Grande Guerra, até à morte dele, tudo na região na região de Dunquerke e no seu porto, no noroeste de França, onde Ferdinand, engenheiro, foi responsável pela construção do molhe.
No início a preto e branco com as fotografias, o filme passa progressivamente à cor e ao movimento, sempre baseado em imagens de família. As imagens de filmes de época são a preto e branco, com sonorização das vozes, como mais tarde a cores. Mas alternam com imagens muito boas da actualidade. Na banda sonora, além de ruídos palavras murmuradas evocam o passado deles, a sua intimidade e o seu desvelo um pelo outro e pela descendência, filhos e netos.
Não são imagens heróicas de gente heróica mas imagens comuns de gente comum que viveu o seu amor e o alargou do rio até à foz. Com atenção nas palavras aos gestos e olhares, às posturas e aos movimentos, às silhuetas e às proximidades.
Os olhos que olharam no passado ensinam-nos a olhar no presente. Da mesma carne e do mesmo sangue que eles, percebemos a sinceridade do seu amor na sua simplicidade própria, sem arrebiques românticos ou cinematográficos. Eles foram como vistos no seu tempo, e isso nos mostra este belíssimo filme feito com amor sobre o amor, que nas palavras também o imagina.
Todos nós seremos, mais cedo ou mais tarde, fotografias do passado de alguém, o que este filme muito bem mostra e demonstra. Enquanto não vejo o filme da Agnès Varda vejo isto no Arte, em cujo site continua disponível. E aconselho. Para ver ao fim da tarde no computador.
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