domingo, 19 de março de 2017

O combate de Clara

     Chegou-nos finalmente "Aquarius" do brasileiro de quem se fala, o realizador e argumentista Kleber Mendonça Filho (2016), com Sónia Braga, co-produção de Walter Salles e Carlos Diegues como produtor associado, ou seja, a nata do cinema brasileiro.
    Poderia dar para o melodrama telenovelesco mas a precisão cinematográfica do filme, explorando o espaço na horizontal contra a qual a protagonista, Clara/Sónia Braga, se eleva por três vezes subindo as escadas - a primeira na noite da festa, a segunda quando chega a casa com o neto, a terceira para descobrir a casa emparedada e estragada - antes de sair das águas para o embate final com os homens da construtora, Geraldo Bonfim/Fernando Teixeira e o seu neto Diego/Humberto Carrão.
     Num filme ele próprio dividido em três partes, "O cabelo de Clara", "Os amores de Clara", "O câncer de Clara", contra a pressão da construtora que o quer destinar a outro fim, mesmo contra a pressão dos seus filhos ela nega-se a abandonar a sua casa no edifício de que é a última habitante.    
      As liberdades que o filme toma com o tempo e com a imaginação de Clara (Barbara Colen em 1980) permitem defini-la melhor ao longo da sua vida e em especial no presente, enquanto as personagens ditas secundárias preenchem um espaço próprio sempre em função da protagonista.
                    
       Numa interpretação poderosa em que investe o seu imenso talento, Sónia Braga toma conta da sua personagem e do filme para dar toda a teimosia, toda a persistência e resistência mas também toda a espessura humana de Clara num caso em que tem inteira razão pois ali se viveu a sua vida e a dos seus. 
      Mas o Brasil conta com grandes actores que fazem o banheiro-bombeiro da praia, os dois empregados da construtora que acabam por denunciá-la e os dois líderes desta com um talento e uma entrega excepcionais.
       Estuante de energia na protagonista, o filme de Kleber Mendonça Filho dá-se todo o tempo em favor dela, sitiada mas insubmissa que se bate até ao fim contra tudo e contra todos até os levar de vencida.
      Com alguma coisa do cinema americano do New Deal e os seus heróis solitários contra um meio decadente, a parábola final de "Aquarius" em que Clara devolve aos Bonfim o seu câncer - o deles, que o dela tinha ela vencido no início - está muito bem vista. E se o filme tem sido muito bem acolhido em todo o mundo é porque aquele não é apenas um problema brasileiro.     
     Não podem descansar enquanto não virem este grande filme de actualidade candente e qualidade superior que vos ajuda a compreender melhor o mundo em que vivemos, em que a elite domina "com falta de carácter", acusação final de Clara num discurso poderoso que explicita em termos políticos o que ali está em jogo.

sábado, 18 de março de 2017

Sem ter onde cair morto

   Depois de "Alice" (2005) e "Como Desenhar um Círculo Perfeito" (2009), o português Marco Martins volta a estar na berlinda com "São Jorge" (2016) em que, de novo com Nuno Lopes, recupera os espaços fechados e sem horizontes de uma cidade-capital que dizem ser grande.
   Com uma excelente escolha dos espaços e da escala dos planos, o realizador, também co-autor do argumento com Ricardo Adolfo, segue dois anos antes do início um pugilista, Jorge/Nuno Lopes, que tem uma vida difícil pois está separado da mulher brasileira, Susana/Mariana Nunes, que tem de sustentar, e tem a seu cargo o filho pequeno, Nelson/David Semedo.
  Em tempo de crise, 2011, ele aceita trabalhar em "cobranças difíceis", que nessa situação aumentam, para fazer uso dos seus músculos, o que durante a primeira parte do filme não acontece. Nessa primeira parte destacam-se os diálogos familiares com não-profissionais que improvisam contracenando com actores profissionais, como José Raposo e Beatriz Batarda, os encontros entre Jorge e Susana e as situações em que ele entra como terceiro enquanto outros dois estabelecem o "diálogo" com devedores.
   Há um corte no filme quando Susana se afasta no beco, entra a porta e sobre as escadas à esquerda até desaparecer depois de ter dito ao protagonista que não regressa para ele, como ele queria. Segue-se a visita dele a uma nova casa, vazia, e depois o primeiro episódio em que Jorge é suposto exercer o seu físico, o que ele decide não fazer.
                   
    Após uma boa exposição o filme encaminha-se rapidamente para o seu fim com a porrada que é mesmo dada a um "devedor", que acaba por morrer "acidentalmente", como estas coisas são supostas acontecer em impunidade em Portugal ("ninguém te viu"), o que constitui para o protagonista um choque final, que é acompanhado pela aceitação de Susana de regressar para ele.
    Com um fim elíptico, pois não é preciso explicar sempre tudo num filme muito bem construído justamente em termos de elipse e de fora de campo, o pobre tipo que "não tem onde cair morto", como lhe diz a certa altura Susana, é um precioso retrato de um país fechado sobre si mesmo que se queixa de si próprio, e com razão.
    A interpretação de Nuno Lopes, justamente distinguida na Secção Orizzonti do último Festival de Veneza, é portentosa e vale o filme de que ocupa muito bem o maior espaço, lembrando o "Belarmino" de Fernando Lopes (1964), filme inaugural do cinema novo português dos anos 60 que aqui se torna uma referência óbvia. Do neo-realismo italiano, que o filme namora, para além da intervenção de não-profissionais a referência também óbvia é "Ladrões de Bicicletas"/"Ladri di biciclette", de Vittorio de Sica (1948), por causa do filho que segue o que acontece ao pai sem compreender. Presa das suas próprias contradições e angústias, o Jorge que víramos no início encomendar-se ao santo do mesmo nome é uma personagem viva, que acompanhada em grande-plano ou em plano-médio ocupa fisicamente o espaço, evolui em desgosto e se torna comovente, num filme em que também Susana evolui em relação a ele.
   Destaco em especial a fotografia a cores de Carlos Lopes que persistentemente nega a profundidade de campo enquanto segue Jorge, aumentando assim o tom fechado, concentracionário do filme, salvo no momento da assinalada mudança e a partir daí - uma opção que, com vantagens, substitui o preto e branco que se poderia esperar -, e o facto deste "São Jorge" se basear numa investigação específica, o que em termos antropológicos significa um trabalho de campo prévio, que torna mais percuciente a sua exemplar perspectiva sociológica.
   A indiferença dos espectadores a este excelente filme será mais uma demonstração do alheamento dos portugueses em relação a si próprios. Mas embrulhados nas suas próprias aldrabices e traficâncias grandes e pequenas talvez eles nem sequer o mereçam.

terça-feira, 14 de março de 2017

Sem banalização

  "Personal Shopping" de Olivier Assayas (2016) não pretende ser mais do que aquilo que é, um filme de género, terror, que investe as almas do outro mundo que comunicam com os deste. Mas ao fazê-lo despretensiosamente o cineasta imprime-lhe o seu tom pessoal, o seu bom gosto e a sua estilística ao remeter para os códigos e as referências da Série B.
  Sem pretender verosimilhança mas chamando para o seu filme uma credulidade de primeiro grau, Olivier Assayas brinda-nos com um filme muito bom e sem falhas que avança em diversas direcções: a senhora que a protagonista, Maureen Cartwright/Kirsten Stewart serve, que tem um namorado e acaba como acaba, o interlocutor da protagonista ao telemóvel, ela própria na sua relação com a sua cunhada, a viúva do seu irmão gémeo que morreu e supostamente a contacta.  
  Há também uma casa, a casa da família que se trata de vender, um novo namorado da viúva e, porque não, um aspirante à protagonista embora distante, tudo com grande leveza e sobriamente construído, à maneira clássica, com a separação de blocos feita por encadeado a negro. O pretenso filme dos anos sessenta, reconstituído e mostrado, convoca Victor Hugo de forma pertinente e interessante. E o final fecha em branco. 
                   'Personal Shopper' Review - Cannes Film
  Eu acredito que os grandes cineastas, e especialmente eles, têm direito aos seus momentos de divertimento, em que por vezes nos dão o seu melhor, como acontece a Olivier Assayas neste "Personal Shopping", que além da realização tem argumento e diálogos seus. Apesar de tudo e da publicidade descarada, os desdobramentos de Maureen Cartwright dão-nos alguma coisa além do restante e mais não pedimos desta vez ao cineasta.
  Além do que nesta sua segunda colaboração, depois de "As Nuvens de Sils Maria"/"Clouds of Sils Maria" (2014), a dupla cineasta-actriz funciona bem sobre um motivo temático semelhante, o que deve ser realçado tal como o prosseguimento da aproximação ao mercado globalizado de língua inglesa. E pela questão do além, depois da morte, tinha recentemente passado Clint Eastwood em "Hereafter - Outra Vida"/"Hereafter" (2010), um divertimento também que nem sequer é dos seus melhores filmes.
  Bem filmada, Paris fica sempre bem nos filmes de Assayas, o que contribui para que mesmo num filme despretensioso como este ele nunca se banalize. 

quinta-feira, 9 de março de 2017

Autores de estimação

   Um compromisso menoríssimo mal colocado impediu-me de assistir ao lançamento seguido de conferência de "Camões e outros contemporâneos", o mais recente livro de ensaio de Helder Macedo (Lisboa: Presença, 2017). Tratando-se de mais um livro do nosso grande especialista vivo no nosso maior poeta de sempre aconselho vivamente.
    São duplas fundamentais, esta e a de José Gil com Fernando Pessoa, e eu vou pelo primeira que agora aqui me traz pois não houve até agora de super-Camões senão a presunção. Sou pessoano, claro, como toda a gente até os turistas nas livrarias portuguesas, mas a lírica camoniana é para mim sem igual e a sua épica é parte da história.
    Grande poeta e ficcionista, que comecei a acompanhar mais detidamente a partir de "Partes de África" (Lisboa: Presença, 1991), a sua primeira ficção, Helder Macedo é um ensaísta extraordinário que tem escrito sobre tudo ou quase na literatura portuguesa sempre com o maior interesse. Houve mesmo um tempo em que o Jornal de Letras atravessava uma fase menos boa em que eu o comprava só pela crónica dele.
                                      Camões e Outros Contemporâneos
    Aliando sabedoria, estudo aturado e algum humor, ele é uma verdadeira memória viva e fiável da cultura portuguesa. Especialista na literatura e na cultura portuguesas e em Camões, a quem dedicara já, por exemplo, "Camões e a Viagem Iniciática" (Lisboa: Abysmo, 2013 para a edição revista e aumentada) e a cuja época dedicara "Viagens do Olhar - Retrospecção, Visão e Profecia no Renascimento Português", co-Fernando Gil (Porto: Campo das Letras, 1998), jubilado do King's College Helder Macedo continua a orientar a nossa melhor leitura e a aumentar o nosso conhecimento com a sua escrita fresca, clara e imparável.
    Não basta de facto ler "Os Lusíadas" em inglês ou noutra língua ou sabê-los mesmo de cor se não soubermos o que quer dizer o poeta no que a cada passo escreve. Entre outras é essa a luz que o Autor aqui de novo nos traz, numa colectânea de ensaios em que se ocupa, além do propriamente dito, de D. Dinis, Sá de Mirande, Bernardim, Pessoa, Sophia, Saramago e Herberto Helder, entre muitos outros, todos eles nossos contemporâneos. São todos ensaios estimulantes em que o Autor dialoga com os textos e com a sua memória, com a filosofia e a história e em alguns casos também com trabalhos anteriores seus.
    Com ele, "o discurso crítico (...) torna-se ele mesmo literatura", como escreve Georg Steiner no prefácio à 2ª edição de "Tolstoi ou Dostoievski" (Lisboa: Relógio d'Água, 2015), que também aconselho. E chamo forçosamente também a vossa atenção para a excepcional qualidade dos outros livros de Helder Macedo, prosa e poesia, o mais recente dos quais é o excelente e original "Romance" (Lisboa: Presença, 2015).
                                    1300791336_heldermacedo
    Isto enquanto José Gil regressa a Pessoa em "Ritmos e Visões" (Lisboa: Relógio D'Água, 2016), no prosseguimento de uma abordagem variada que ao poeta dos heterónimos como uma obsessão tem dedicado. Mas esse até está na moda e nas bocas do mundo em diversas línguas e edições, mesmo em prejuízo de outros, pelo que nem sequer preciso de o aconselhar.
   Significa isto que a cultura portuguesa está na moda? Não estou certo disso, até porque a questão que se coloca não é só a da sua projecção internacional mas a do seu conhecimento e valorização no que tem de melhor pelos próprios portugueses.
    Mas sobre a literatura portuguesa mais recente há também "A Chama e as Cinzas - Um quarto de século de literatura portuguesa (1974-2000)", de João Barrento (Lisboa: Relógio d'Água, 2016), conjunto de textos com origem nas conferências da Feira do Livro de Frankfurt, publicados na Alemanha em 1999 e portanto em alemão no original. Reformulados, desenvolvidos e complementados, terminam com um texto baseado numa intervenção feita no Brasil em 2005 e não era sem tempo que chegassem ao leitor português. 
    Voltarei a tudo isto com mais tempo e mais pormenor.  Os chamados "universitários na diáspora" têm muito que se lhes diga, pois na diáspora está o melhor dos portugueses e é onde os portugueses estão melhor. Aqui andam a tropeçar permanentemente uns nos outros ou em si próprios.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Um e o outro

     Nas minhas hesitações em escolher entre dois muito bons qual o melhor comecei por Chaplin e Keaton a perceber que as razões partilhadas para a escolha de um contra o outro podiam ser usadas em qualquer dos sentidos.
    Chaplin é a criatura que criou e animou, soberbo recorte humano desfasado e em perda que consegue após múltiplas diabruras sair por cima, ou não completamente. Mas também a fundamental observação social a partir de um vagabundo maltrapilho que se confronta com um mundo que o olha com hostilidade.
    Definido nas curtas, que têm um ritmo endiabrado ao sabor de sucessivos gags, Charlot não se conforma com os abusos a que os ricos o submetem para o afastarem, se verem livres dele, e dando a volta acaba por os surpreender e fazer valer a sua posição. Quando é ele próprio o homem rico a ironia torna-se maior.
    Pinga-amor, também aí pode ser discutido na disputa e ver-se na contingência de tudo perder, num equilíbrio sempre instável entre movimentos contraditórios em sentidos diversos. Mas os seus olhares e gestos quando apaixonado definem-no inteiramente, até em excesso no rosto que o sorriso anima e os olhos excedem. Com as solas dos sapatos sempre rotas, tropeçando em si próprio continua a caminhar.
     Em si mesmo o gag chaplinesco consiste numa decomposição de momentos ou movimentos e num jogo difícil de coordenação e combinação de gestos e atitudes de diferentes personagens por forma a criar um suspense quanto ao desenlace de cada um, sempre surpreendente. Ele próprio não domina as máquinas, maiores ou menores, que o submetem, o manietam e o inquietam, a que tem de se ajustar. Em "L'image-mouvement" Gilles Deleuze chamou a atenção para a pequena diferença entre duas acções que aponta para a grande distância entre as respectivas situações nos seus filmes, que associam riso e emoção.       
                      Os 100 anos do personagem Carlitos, de Charles Chaplin United Artists/Divulgação
      Com a câmara normalmente fixa, dir-se-ia pobre o seu trabalho cinematográfico não se tratasse como se tratou de opção realista deliberada para concentrar a atenção nas personagens, nos espaços e no que neles lhes acontece, i. e., na materialidade de todo o seu universo humano e cinematográfico.  
     À malandrice de Chaplin responde a seriedade da máscara fisionómica inalterável de Buster Keaton, inquieto, mutante e em movimento progressivamente acelerado para chegar a tempo.
     Torna-se por isso necessária a intervenção da montagem para dar a sequência alternada de movimentos de uns e de outros, às vezes o que espera e os/as que o perseguem, e a câmara tem de correr atrás das personagens nas grandes deslocações físicas.
     Mais dinâmico e variado do ponto de vista cinematográfico, tem de acompanhar também o mundo interior da personagem, que se pode desdobrar no sonho do filme, no filme como sonho - Chaplin também sonha mas os seus sonhos exprimem desejos. O próprio plano é sempre equilibrado e rico para além da mera funcionalidade do cenário, que também existe.
     Enquanto Charlot foge Pamplinas corre desembestadamente para chegar a tempo de evitar alguma coisa, a catástrofe que frequentemente ele próprio desencadeou. O seu gesto torna-se largo contra a concentração em si do de Chaplin, que pretende preservar o seu espaço vital, e Keaton acaba por se tornar um herói típico que as mulheres preferem enquanto Charlot é por definição o anti-herói.
                     The Films of Buster Keaton Movie Review
     Em expansão embora, o movimento de Keaton encontra os seus obstáculos e os seus limites, com os quais ele se debate até se assenhorear da situação. Na inscrição excepcional do burlesco mudo na grande forma, o seu é um gag maquínico e de trajectória, com minorizações e séries causais como observa o mesmo Gilles Deleuze na mesama obra.
     Mas os seus filmes têm um esforço de optimismo enquanto Chaplin navega entre o humor, o lírico e o trágico - este expressamente em "A Woman of Paris" -, o que significa que um vai sempre em frente e o outro caminha aos ziguezagues impostos pela fortuna.
     Ao fim abrupto de Keaton, que não ultrapassou a barreira do sonoro, Chaplin respondeu com o alongamento dos seus filmes para a longa-metragem. Depois de "The Vagabond", "The Immigrant" e "Shoulder Arms", teve grande sucesso, em "The Gold Rush", com grandes momentos na casa desequilibrada e no comer dos sapatos, e em "The Circus", e tornou-se com o sonoro progressivamente melodramático enquanto espaçou filmes por eventual recusa do som com "City Lights" e "Modern Times". Mas "O Grande Ditador"/"The Dictator" e "O Barba Azul"/"Monsieur Verdoux" contam-se entre os seus grandes filmes e são obras-primas do cinema, em que no final do primeiro a palavra eleva da pequena à grande forma, enquanto Keaton teve de se ficar, depois de "Three Ages", por "Sherlock Jr.", "Seven Chances" e "The General" como cimos do seu trabalho ainda no tempo do mudo.
   Mais simples um, o malandro que consegue safar-se, mais elaborado em termos cinematográficos o outro, o homem sério a quem tudo acontece, estiveram muito à altura um do outro enquanto trabalharam simultaneamente e foi bem visto por Chaplin juntar Keaton ao final de "Luzes da Ribalta"/"Limelight" como por Samuel Becket agarrar  no segundo nos seus últimos anos para o fundamental "Film". Estiveram bem um para o outro numa época com outros grandes actores cómicos no cinema americano - Harold Lloyd, Harry Langdon, Laurel & Hardy, os Marx Brothers - e não voltou a haver ninguém como eles no cinema.
    Editados ambos em dvd, aconselho-os aos dois para perceberem bem toda a riqueza cinematográfica visual de um e do outro, Chaplin e Keaton, os dois maiores nomes do burlesco mudo, artistas superiores como realizadores e como actores, o primeiro também sempre argumentista e compositor dos seus filmes. Depois de verem, que cada um decida qual deles prefere. E a partir daí é sempre a dobrar.  Esta é difícil mas há pior.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

O sentido da vida

     Aparentemente um filme banal sobre a banalidade da vida, "Toni Erdmann" de Maren Ade (2016) é um filme muito bem construído em termos de cinema que se permite toda a crueza narrativa e todas as liberdades elípticas que a intervenção do pai, Winfried/Peter Simonischek motiva ao comentar subtilmente o absurdo da vida da filha, Ines Conradi/Sandra Hüller, e daquilo tudo.
    Sem procurar um refúgio na distância temporal de um passado cumprido, rigidamente preso ao presente, este presente europeu e globalizado que conhecemos, o filme desloca-se subtilmente para o nosso interior de modo a fazer nossas aquelas personagens com as suas vidas preenchidas e apertadas.
     Com a intervenção apenas pontual do protagonista, tudo se passa na sua ausência como se ele não existisse, embora se perceba que a partir de certo momento as coisas assumem rumo diferente devido às suas sugestões inesperadas e subreptícias, de modo que ao incómodo da filha acaba por suceder a sua compreensão.
    E enquanto somos mantidos a uma distância prudente pelo humor do protagonista, que diz expressamente que não se deve perder o sentido de humor em qualquer circunstância, somos forçados a acompanhar as mudanças a que a sua intervenção dá origem e a perceber com a filha no final o "sentido da vida".
                     
      A arte da cineasta, também argumentista neta sua terceira longa-metragem de ficção consiste em deixar acontecer perante a sua câmara o que deve acontecer entre aquelas personagens naqueles locais e naquelas circunstâncias, deixando o comentário paterno, exterior, funcionar de modo implícito e por isso mesmo mais perturbador e contundente.
    Agora que aquele seja o sentido da vida, embora compreensível é uma maneira amável e romanceada de ver as coisas, muito de perto e sem a distância proposta, e por aí passa a fragilidade do filme no seu conformismo. 
    Perceber como se entra e como se sai deste "Toni Erdmann" é fundamental para se perceber este filme nos seus serenos sobressaltos em elipses justas e sugestivas de princípio a fim, que afastam do campo visível o que seria redundante nele permanecer.
    Sendo um filme longo é inteligente, divertido e bem construído pelo que não se torna enfadonho nem cansativo. Agora daí a ser considerado o melhor filme europeu de 2016 vai uma certa distância que pessoalmente não percorro.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Por um copo de cerveja

     "El Dorado XXI" é o segundo documentário de longa-metragem de Salomé Lamas (2016), rodado no alto dos Andes, na mina e entre a população de La Rinconada, próximo da fronteira entre o Peru e a Bolívia, e confirma e amplia a excelente impressão que ela tinha deixado "Terra de Ninguém" (2012).
     A primeira parte do filme mostra durante quase uma hora, em plano fixo, a escuridão do interior da mina atravessada pelos mineiros com uma luz presa dos capacetes, o que permite desenhar e descobrir o percurso que eles descrevem em duas diagonais sucessivas, a primeira da esquerda para a direita, a segunda, mais afastada, da direita para a esquerda até ir dar a um corredor escuro que se perde no interior da montanha.
   Este movimento contínuo é acompanhado por vozes que funcionam como comentário, nomeadamente a de uma estação de rádio que relata os acontecimentos locais. E nesse momento prolongado que o plano fixo torna abissal temos a noção precisa, apesar das trevas envolventes, do espaço percorrido e também de um tempo que, parecendo o mesmo, se alonga na repetição como se circularmente.   
                    
      Depois saímos para os belíssimos topos montanhosos e gelados e a palavra acaba por ser dada a membros daquela comunidade, especialmente mulheres que falam demoradamente sobre a vida naqueles locais. E então o filme reduz-se muito bem aos quatro elementos, terra, ar, fogo e água gelada, assumindo um tom primitivo e primevo muito bem conseguido e transmitido.
      Nessa segunda parte sucedem-se planos fixos que conferem uma unidade a cada grupo, com uma planificação muito apropriada, justa e precisa, de modo a percebermos o isolamento daquela gente naquela região e o que têm para dizer. Também há no final uma festa em que se cantam canções nostálgicas de amores perdidos, no cumprimento de um ritual de autenticidade manifesta.
                    
      Ora ao criar este "El Dorado XXI" Salomé Lamas como que cria a partir do nada uma extrema e perturbadora beleza, totalmente desconhecida e só mostrada devido ao seu filme. Também artista visual, a cineasta trabalha superiormente a imagem mas também o som com uma enorme destreza e com resultados surpreendentes a nível audiovisual.
     De tal modo que ficamos com a ideia de que o mundo, pelo menos aquele mundo, começou com este filme  e com ele acaba, embora todos saibamos que aquelas vidas de que vimos de perto excertos seleccionados continuam iguais a si mesmas, tal como as vimos, até se cumprirem.
     Claro que o filme tem também um valor etnológico e um interesse antropológico notável, mas disso só nos damos verdadeiramente conta a partir de uma segunda ou terceira visão. Eu sou muito definidamente por "El Dorado XXI" e por Salomé Lamas.