quinta-feira, 23 de maio de 2019

Eufórico

     Depois de "Spring Breakers: Viagem de Finalistas"7"Spring Breakers" que tinha chamado a atenção para ele, Harmony Korine realizou "The Beach Bum: A Vida Numa Boa"/"The Beach Bum" (2019) que se pretende comédia moralista. Com o seu habitual euforismo, o resultado é fraco.
     No silly state da Florida, um poeta de má vida e pobre, Moondog/Matthew McConaughey, casado com uma mulher rica, Minnie/Isla Fisher, perde esta num acidente de viação. No testamento ela deixa-lhe uma fortuna no caso de ele publicar um romance de sucesso.
                                  The Beach Bum Photo
        Com a filha, Heather/Stefania LaVie Owen a querer que ele se submeta a desintoxicação e reabilitação, ele foge para regressar à boa vida com o amigo Lingerie/Snoop Dog e continuar a escrever. Até que um livro de poemas seu é premiado.
        Tratada em tom de comédia, a ideia do poeta fora do sistema e contra ele é boa e funciona limitadamente como parábola num filme muito silly. Obra de adolescente, que o realizador continua a parecer.
       Contando com argumento de Harmony Korine, fotografia de Benoit Debie, música de John Debney e montagem de Douglas Crise, está longe de convencer mas percebe-se no actual momento político americano, em que vale tudo. O cineasta precisa de crescer e deixar filmes frágeis embora bem intencionados para fazer coisas mais sérias e sólidas, pois mesmo como realizador ainda não ultrapassou a incipiência satisfeita, aliás com muitos fãs sobretudo adolescentes.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Pura beleza

    "Três Rostos"/"Se rokh" é o mais recente filme de Jafar Panahi (2018), um realizador iraniano impedido de sair do seu país que mesmo assim tem conseguido continuar a trabalhar e a fazer os seus filmes saírem para o mundo. O que é muito bom porque nos permite conhecê-los.
    Aqui uma jovem que quer estudar no conservatório em Teerão para ser actriz, Marziyeh Rezaei, abre o filme com um apelo dramático num vídeo enviado por telemóvel ao cineasta. Vai ser a companheira dele, Bahnaz Jafari, actriz muito conhecida, a insistir em que partam na demanda da autora do apelo desesperado.
                     Trailer português do filme 3 Rostos
     O filme vai descrever o percurso de carro até aí chegarem, cheio de episódios pitorescos, alguns dramáticos, como o dos camponeses que se afastam quando percebem que não vêm ajudá-los, outros caricatos, como o do touro das bolas dde ouro. Já na ponta final o encontro com a rapariga por intermédio da amiga dela Maedeh Erteghaei, juntamente com a referência à velha actriz e cantora de antes da revolução que vive isolada e será, vista à distância enquanto pinta, o terceiro rosto, invisível.
    Com grande sobriedade, o cineasta segue um caminho de inspiração em Abbas Kiarostami - o do suicídio, o do percurso, o do enquadramento com aberturas rasgadas nas casas -, inteiramente transformada mas reconhecível na própria simplicidade e subtileza do filme, que termina também ele em plano fixo sobre a estrada serpenteante.
    Tem argumento do cineasta e Nader Saeinar distinguido em Cannes 2018, fotografia de Amin Jafari e montagem de Mastaneh Mohajer e Panah Panahi. Um grande filme com tratamento diferenciado da imagem, que inclui reflexos, cenas nocturnas e uma ou outra desfocagem do fundo, que não dispensa uma referência à situação do cineasta no seu país. Aqui  o recomendo.

sábado, 18 de maio de 2019

Das primeiras

   Doris Day (1922-2019) contracenava com Clark Gable em "Amor de Jornalista"/"Teacher's Pet" de George Seaton (1958), que foi um dos primeiros filmes que vi e não mais esqueci.
                          doris day james stewart o homem que sabia demais
    Especializou-se na comédia romântica ligeira dos anos 50 e 60 mas Hitchcock escolheu-a para "O Homem Que Sabia Demais"/"The Man That Knew Too Much" (1956), remake de um seu filme inglês de 1934, em que contracenava com James Stewart e cantava "Que sera sera". 
   Bonita e expressiva, foi também cantora popular, que foi como começou em 1938 antes de chegar ao cinema em 1948, de que se retirou em 1968 para se dedicar à televisão. Guardo dela uma boa recordação.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

O jogo do galo

    "Clash"/"Eshtebak", a segunda longa-metragem do egípcio Mohamed Diab (2016), é um filme terrível e sufocante passado em 2013 com presos no interior de um camião, decorriam os confrontos entre a Irmandade Muçulmana e os militares no Egpto.
    Tudo começa com a prisão de dois jornalistas americanos mas depois vão-se-lhes juntando membros e não membros daquela irmandade. Num espaço reduzido, em tentativa de diálogo com os militares, a situação dos presos torna-se penosa e aflitiva.         
                       
    Uma criança descobre numa parede os riscos do jogo do galo, o que contribui para amenizar entre vizinhos e conhecidos que nem sempre se dão bem. Entre os presos há duas mulheres, uma enfermeira e a outra mais jovem, religiosa.
    Sem espaço para o qual se expandir, o filme concentra-se no interior, para o final em movimento, e nas esperanças efémeras de libertação. Tem argumento de Khaled Diab e Mohamed Diab, fotografia de Ahmed Gabr, música de Khaled Dagher e montagem de Ahmed Hafez. A realização, muito boa, explora o espaço concentracionário sem dele sair e os actores são excelentes.
    É um bom filme dramático, violento, não aconselhável e pessoas sensíveis e passou na noite de ontem no Arte.

Três irmãos

   "Une maison sans toit"/Haus Ohne  Rach" da alemã de origem curda Soleen Yusef (2016) é um primeiro filme com interesse, um road movie sobre três irmãos que querem levar a mãe morta para o seu Curdistão iraquiano natal, para ser aí inumada junto do seu falecido marido, pai deles.
    Só um dos filhos sabe desde o início, como os seus tios e primos maternos sabem, que o pai deles tinha sido um traidor ao serviço de Sadam Hussein, com cujo regime colaborara, o que leva a família da falecida a opor-se ao projecto no próprio terreno curdo, ameaçado pelo DAESH.
                                
    Há um  taxista atrevido, desavenças e acusações mútuas entre os três irmãos, que mantêm, porém, o seu objectivo e após muitos esforços, com momentos hilariantes e absurdos à mistura acabam por convencer quem na família materna se lhe opunha e levar por diante o que pretendiam.
   Simples e bem feito, com atenta, variada e rica composição visual e também sonora, tem argumento da realizadora, fotografia de Stephan Burchardt e montagem de Hannes Bruun, sem música a não ser diegética - do leitor de cassetes do taxista. Passou na semana passada no Arte e deixa boa impressão sobre Soleen Yusef, que desde então se tem dedicado à televisão.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Novo e inventivo

   Depois de "O Polícia"/"Ha-shoter" (2011) e "The Kindergarten Teacher" (2014), que tinham chamado internacionalmente a atenção para ele, o israelita Navad Lapid estreou "Sinónimos"/"Synonymes" (2018), Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim deste ano.
    É um filme duro e estranho, de inspiração auto-biográfica, sobre um israelita que, cumprido o serviço militar em Israel, vai para Paris onde espera encontrar o que ambiciona. Durante a sequência de abertura, em que se descobre nu num apartamento deserto, Yoav/Tom Mercier encontra ou é encontrado por dois parisienses, Emile/Quentin Dolmaire e Caroline/Louise Chevillotte, que o salvam e passam a ajudá-lo.
    Emile pretende ser escritor mas não passa da página 42 do seu livro e Yoav cede-lhe pequenas histórias suas, escritas na sua terra. O primeiro fala ao segundo de um presente em que se esgotaram as perversões e ambos têm um encontro musical de sedução, notável.
   Por entre alusões à Guerra de Tróia e à extrema direita francesa armada, Yoav vai-se desembaraçando em França com o seu dicionário de sinónimos francês, sempre à procura de palavras próximas, não sem algum desajustamento que, depois da sessão fotográfica, desemboca na sua aprendizagem de francês por ter casado com Caroline e na subsequente revolta dele quando interrompe um concerto.
                                  
      O filme termina com Yoav a tentar arrombar a porta do apartamento daqueles que o tinham acolhido, onde tinha começado, não sem que antes Yaov exija de Emile a devolução das histórias que lhe oferecera.
      Tem grande inventiva visual e sonoro, com planos espantosos do protagonista a caminhar pelas ruas de Paris de cabeça baixa, com composição colorida e figurativa dos planos e com uma dinâmica que permite acompanhar o movimento constante de Yoav, o que ele diz e o que lhe acontece.
      De uma rara violência comprimida que no final explode, "Sinónimos" é um belo filme muito físico, intenso e provocador, que nos desinquieta do nosso conformismo instalado. O plongé do protagonista sozinho à noite frente a Notre Dame de Paris é muito bom e elucidativo.
      Com excelente, não-convencional e inventivo uso da linguagem do cinema, tem argumento de Navad Lapid e Haim Lapid, fotografia de Shai Goldman e montagem de Neta Braun, François Gedigier e Era Lapid a quem é dedicado, sem música que não seja dirgética. Os actores são notáveis, com destaque para Tom Mercier.
      "Sinónimos" de Navad Lapid é grande, raro cinema, em que o espectador tem de se dispor a participar para o completar na sua plenitude. Se o fizer perceberá a crítica do filme do sionismo agressivo e de um liberalismo passivo e vulnerável, por Yoav aproximados e tomados como equivalentes. O júri de Berlim, presidido por Juliette Binoche, não se enganou. Tem estreia em Portugal marcada para amanhã, quinta-feira.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Boa fama

    Jean-Claude Brisseau (1944-2019) foi um importante cineasta francês em cujos filmes a mulher, o erotismo e o sexo tiveram papel predominante, que se tornou conhecido sobretudo pela trilogia "Coisas Secretas"/"Choses secrétes" (2002), "Os Anjos Exterminadores"/"Les anges exterminateurs" e "À Aventura"/"À l'aventure". Muito apreciado pela crítica mais esclarecida, os seus filmes levantaram polémica em França.
     Senhor de um estilo cinematográfico além de uma temática próprio, soube ser irónico e crítico, o que o tornou mais interessante pois quebrou a potencial monotonia dos seus filmes. Com bom gosto, tratou temas escabrosos de uma maneira apropriada, ligando mesmo sexo e misticismo.
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      Numa obra não muito extensa, avultam "Le bruit et la fureur" (1988), "Noce blanche" (1989), "Céline" (1992), "L'ange noir" (1994) e "Les savates du bom Dieu" (2002). Os seus dois últimos filmes longos. "A Rapariga de Parte Nenhuma"/"La fille de nulle part" (2012) e "Que o Diabo nos Carregue"/"Que le diable nous emporte" (2018) culminaram da melhor maneira um percurso pessoal rico e original. 
      Havia nos seus filmes uma intensidade especial que os tornava únicos e impedia a indiferença, tornando-o um dos principais cineastas franceses do seu tempo, com repercussão internacional.. Aqui o recordo sentidamente na hora da sua partida.